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Dos anjos e das estrelas coroado - Por Luiz Guilherme Santos Neves

Congada homenageando no Teatro da UFES a outorga do título de Doutor Honoris Causa a Hermógenes Lima Fonseca (in memoriam), no dia do folclore em 22.08.2014

Em maio, 9, quinta-feira, estive com Hermógenes Lima Fonseca pela última vez, que seis dias depois falecia.

Em maio, 9, tomava posse a nova diretoria da Comissão Espírito-santense de Folclore, no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Sessão solene e nada solene como convém a uma sessão de folclore, contando com a participação de banda de congo, batuque e cantoria de congo, e a presença indispensável de Hermógenes, é claro. Que foi feito presidente de honra da Comissão, como não podia deixar de ser, ninguém mais folclorista do que ele, nestes últimos vinte anos de folclore no Espírito Santo. Com aquela qualidade que lhe era indesligável e que só mestre Armoge possuía, cheiro de terra e pureza de povo.

Em maio, 9, abraçou-me como se fosse pela última vez. E era. Como pela última vez, comovidamente, abraçou Bráulio Nascimento, vice-presidente da Comissão Nacional de Folclore. Como abraçou Renato Pacheco, talvez ouvindo cantar dentro de si, na surdina dos murmúrios proféticos, a frase dos versos de reis, vamos dar a despedida. Que deu.

No correr da solenidade, foi-lhe passada a palavra, integrante da mesa. Com aquele jeitão que lhe era peculiar, tocado pela emoção das referências que já lhe tinham sido feitas, limitou-se simplesmente a dizer (novamente invadido pela surdina das profecias?): - Minhas senhoras e meus senhores, tenho dito.

E precisava dizer mais?

Tenho dito, gente. Tenho dito o que vinha dizendo há tanto tempo, foram cinqüenta anos de bem dizer, falando em folclore, o folclore na ponta da língua, cultivando folclore, o folclore encarnado no peito, divulgando o folclore, pesquisando folclore, folcloricamente irmanado ao povo de quem era comum e ao qual se ligava pela liga do mesmo barro, o barro das panelas de barro, o barro do Ticumbi, o barro do Alardo, o barro de Conceição da Barra, na Barra nascido, na Barra crescido, menino da Bugia, cavaleiro do Pixingolê. Tenho dito, e, tendo dito, dissera tudo o que queria dizer, resumida e tão expansivamente, sob o peso da emoção, no momento em que o bastão do folclore saía oficialmente de sua alçada para as mãos de um grupo de novos folcloristas. Tenho dito por que outra não poderia ser a expressão da despedida, também ela soprada na surdina das profecias, como se dissesse, presságio, hoje estou aqui, amanhã não estarei mais, com o que eu disse e deixei prossigam meus sucessores, a eles lego a minha herança, a eles transfiro a minha paixão, assim falou mestre Armoge na fórmula precisa e perfeita daquele tenho dito irreparável, naquela que seria a sua última aparição pública, querendo Deus e o destino que estivesse ela associada às coisas do folclore que tanto amou que cultuou com alegria, razão de sua vida.

Vai, folclorista, vai, e que, em Conceição da Barra, onde pousará seu corpo, alguém se lembre de lhe cantar uma excelência, excelentíssimo folclorista capixaba Hermógenes Lima Fonseca, dos anjos e das estrelas coroado.

Pois de Hermógenes, conto um conto, e verdadeiro.

Linhares ainda era uma Roma quadrada: a praça descampada, um punhado de casas, a igrejinha, o cemitério. Porque, como Roma, Linhares não se fez em um dia. Expandiu-se, primeiro aos poucos, depois vertiginosamente, planalto avante, deixando o cemitério no lugar original como coliseu de mortos, vestígio do tempo em que, no pé do barranco, o rio Doce descida do século XIX, grosso e mineral.

Não se chegava fácil a Linhares. Quem vinha do norte tinha de varar as matas que ainda deitavam galhos sobre a estrada de barro, quem ia do sul tinha de atravessar o rio sobre a balsa feita de pranchão e canoas. Tudo isto sem pressa, sobrava tempo e umidade à jusante e montante do grande rio.

Chegava-se à margem direita e, se a balsa estivesse do lado de lá, para que viesse para o lado de cá era preciso acenar e gritar, e ei-la singrando o rio na direção do chamamento, as proas das canoas como focinhos de crocodilos à tona das águas barrentas.

Ali, à margem do rio, à vista da cidadezinha quadrada, os folcloristas, a caminho de Conceição da Barra, podiam dizer que tinham atingido o meio da viagem. Pesquisar e filmar o Alardo eram o objetivo do grupo.

Uma lata de filme virgem havia sido reservada pelo Vitório Busato, do Cinema Escolar, para documentar, no preto e branco de celulóide, o azul e o vermelho dos entrechoques guerreiros entre cristãos e mouros, a briga feroz da Cruz contra o Crescente, do Ocidente contra o Oriente, na renhida disputa da imagem de São Sebastião, de final previsível, os mouros submetidos de joelhos ao batismo, cerrando fileiras em torno do santo, na procissão da vitória pelas ruas da cidade.

- Não me vá esquecer este filme – disse Guilherme Santos Neves ao filho João Luís, entregando-lhe a lata do Busato, que mais parecia uma daquelas latas antigas de goiabada cascão.

- Cadê o filme?

Ainda bem que a pergunta foi feita em Linhares. Ainda bem que Linhares, apesar de ser uma Roma quadrada, tinha alguns avanços modernos como o telégrafo de prontidão para se picotar em Morse o s.o.s salvador: Remeter urgente através do teco-teco praia Conceição Barra rolo filme esquecido.

As palavras podem não ter sido estas, mas o espírito do pedido não era outro. E ainda bem que Hermógenes Lima Fonseca estivesse em Vitória, retido por obrigações e afazeres, para receber o telégrafo e aviá-lo, andando depressa.

Não me lembro mais quanto tempo se esperou. Mas sei que, lá pelas tantas, sobre a praia de Conceição da Barra, onde estavam os folcloristas ansiosos, o teco teco tossiu sua coqueluche de aviãozinho de lona. Também não me recordo se chegou a descer ou se, do alto mesmo, lançou a lata como pássaro que pusesse ovo em pleno vôo. Estava salva a filmagem do Alardo, graças a Hermógenes Lima Fonseca, na prontidão da distância.

Em que ano foi isto? Pelos idos ou findos de 1949, creio eu. Linhares ainda era uma Roma quadrada, os telegramas trepidavam nas linhas telegráficas em código Morse, atravessava-se o rio Doce em balsa feita de pranchão e canoas e já Hermógenes Lima Fonseca estava ligado ao Folclore Capixaba, paixão de sua vida.

Uma excelência para Hermógenes é pouco. Cantem-se duas e três, um rosário delas, para o mestre que se foi, dos anjos e das estrelas coroado.

 

Fonte: Era uma Vez... Hermógenes Lima Fonseca Um Anjo bom que passou por aqui, 1997
Autor: Luiz Guilherme Santos Neves
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2014

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