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Empréstimos hipotecários, construções e operários - Por Eugênio Sette

Capa interna do livro: Praça Oito - Autor: Eugênio Sette (editado por Antonieta de Freitas Sette, em 2001)

Amigo, o negócio é o seguinte: — Você, que deve ser um pobre diabo igual a mim, vivendo praticamente de salário, faça um empréstimo hipotecário e meta a cara na construção de sua casa. Ouça os amigos e eles lhe dirão que o negócio é espeto. Você, confiante, não acredita. E vai em frente.

Começa o drama, pela mão-de-obra, pelas carteiras profissionais, pelas dos Institutos. E Você assinando tudo... Até aí, Você ainda acha de encarar a coisa esportivamente. Há o "vale" do meio da semana. Um belo dia, Você chega à obra e vê o sujeito a quem Você está pagando 80 cruzeiros diários, lendo tranqüilamente o jornal e ainda ri, cinicamente, para Você. À idéia ocorrem mil coisas, inclusive dar tiro. E Você não faz nada, pela necessidade de ver produção, mínima que seja. Noutro dia, Você pergunta por alguém e recebe resposta que "está no mato", "mato" que dura 40, 50 minutos. Nunca pensei que intestino de operário funcionasse permanentemente em estado disentérico. Mas funciona, amigo, e Você não tem argumento algum, senão fornecer bucófagos (57) que não fazem efeito.

O homem com quem Você contratou os tijolos sistematicamente os entrega fora da hora do trabalho normal. E Você deve dar um jeito de descobrir o dia em que ele vai fazer a entrega, porque normalmente o milheiro não terá mil, mas 850 tijolos. Ferro, não tem preço estável. Nem cimento, também. Quando lhe der na telha procurar um determinado material e não encontrar em determinada casa é prática e virtualmente inútil procurar nas demais. Não o encontra em lugar algum. Todas o encomendaram, nenhuma delas o recebeu.

Se Você resolver mexer no projeto, vem a Prefeitura e intica. Intima logo a justificar a alteração. E tome requerimento e selos e plantas. Você, durante a construção, tem água direta. Terminada a casa, Você mantém aquela torneira para o jardim. A Prefeitura tem um homenzinho que mensalmente lhe fiscalizou a obra e nunca lhe disse bolacha a respeito de torneiras diretas ou indiretas. E quando Você pede a ligação da água, ela, a Prefeitura, não lhe dá. A lei, que inexiste para milhares de casas de Vitória, "funciona", então, exclusivamente em relação à sua casa. E a água não lhe é ligada e Você fica — como eu estou agora — sem saber se deve impetrar um mandado de segurança contra a desigualdade de tratamento ou se deve tirar a torneira. A medida, que se destina a amparar "direito líquido e certo", pode receber uma contestação nestes termos: — "Não há líquido, isto é, água, e, quando há, é incerta", o que só faria aumentar a confusão...

No final da luta, Você está com o vocabulário enriquecido com termos como "chapisco" e "desempoladeira" e "traço" e "bagulho", ao lado dos mais altissonantes palavrões da língua portuguesa, enquanto que as duplicatas se amontoam sobre a sua mesa. E há as visitas aos fornecedores para o pagamento ou para o desdobramento delas. Vem, depois, o material elétrico, a raspagem, o enceramento do assoalho, a escada, a pintura, um quarto assim, outro assado, outro cozido... O mistério químico das tintas! E os amigos que visitam a casa e dão palpite e indagam, muitas vezes desgostando de toda ela e sem coragem de dizer. Você, durante todo esse tempo, passeou na corda bamba, deu pinotes, atendendo à rotina de sua vida e mais àquela extraordinária. Mas a casa fica pronta e Você se põe a namorá-la, corno qualquer conquistador barato ali da Praça Oito. Até possuí-la toda, todinha, serão quinze anos...

Se, depois de um negócio assim, seu coração não estiver rateando, é porque Deus é misericordioso...

Meta a cara, amigo. Entre com ela e a coragem, como eu entrei. Mas não diga que não foi avisado!...

 

Notas:

Na crônica original é sem titulo
(57) Remédio contra bactérias

 

Fonte: Praça Oito, 2001
Autor: Eugênio Sette
Compilação: Walter de Aguiar Filho agosto/2014

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