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Energia aumenta venda de equipamentos e máquinas

E, para o descanso e lazer - ou mesmo para a informação sobre o mercado agrícola - um tempo para a televisão - Fonte: A Gazeta 10.04.1986

A demanda por projetos de irrigação rural no Espírito Santo aumentou em pelo menos 100% no espaço de um ano, ou seja, de fevereiro de 1985 a fevereiro de 1986. O fato é conseqüência dos investimentos governamentais em eletrificação rural, que no mesmo período incrementou as vendas de bens duráveis, maquinário e implementos agrícolas movidos a energia elétrica.

Este depoimento pode ser obtido na Comercial Scardua, tradicional empresa do ramo instalada em Campo Grande, Cariacica. Os dirigentes da firma vêem com otimismo as perspectivas de negócios e não poupam apoio à política de apoio ao homem do campo através da eletrificação rural, empreendida pelo Governo. "É brutal a diferença entre a propriedade rural que tem energia e a que não tem", assegura Miguel Scardua.

Mas, certamente a maior prova de crença da Comercial Scardua nas oportunidades de negócios é a importação de mão-de-obra para atendimento à clientela. Assim, foi buscar na Paraíba o engenheiro agrícola Genildo da Silva Vieira, especializado em irrigação, que chegou ao Espírito Santo há dois meses e atende na loja da Scardua em Campo Grande. Poucos meses antes de Genildo a firma trouxe de São Paulo o técnico agrícola Sérgio Pereira Mascarenhas, também especializado em irrigação.

— Em boa hora o poder público investe no campo e com isso anima os proprietários rurais afirma Sérgio Mascarenhas. Ele entende que a resposta do proprietário de terra da eletrificação rural dá retorno ao governo à medida em que cresce a produção agrícola, há circulação de mercadorias e é intensificado o comércio. Ressalta também é beneficiado com a expansão da lucratividade na exploração da terra e o retorno ao investimento fica maior.

Sérgio Mascarenhas cita como exemplo o desempenho comparativo entre o motor movido a óleo e o motor movido a energia. "O motor a energia tem rendimento maior que o de óleo; por exemplo, um motor a óleo de 10 cavalos de força rende menos que um motor a energia de 10 cavalos de força. Só um motor de 12 cavalos de força a óleo faz o que um de 10 cavalos de força a energia; isso sem contar que o consumo do motor a energia é menor que o do motor a óleo e a vida útil do movido a energia também é mais longa".

Concordando com a explicação de Sérgio Mascarenhas, Miguel Scardua, pertencente à família proprietária da Comercial Scardua, apresenta um reforço à argumentação: o motor a energia, comparativamente ao movido a óleo, é muito mais vantajoso para o investidor, pois tem menor custo inicial e menor custo final; na loja que vende os dois tipos pode-se ver logo a diferença: um motor a óleo de 10 cavalos de força custa Cz$ 16 mil, ao passo que um motor a energia de 10 cavalos de força custa Cz$ 2 mil".

Miguel Scardua ressalta, porém, a diferença muito mais acentuada o investidor se comparar os resultados da operacionalidade entre os dois motores: "obtém retorno muito maior quem trabalha com o motor elétrico". Por estas razões é que Scardua considera a eletrificação rural "um dos investimentos de maior importância que podem ser feitos na agricultura".

A energia que chega ao interior do Espírito Santo é instalada pelos órgãos governamentais, de modo geral, pelo processo denominado monofásico, que tem custo menor que o trifásico, embora o alcance do trifásico seja dez vezes maior que o do monofásico, segundo explicações dos técnicos. "O monofásico limita a força da energia a 12,5 cavalos, enquanto o trifásico permite chegar a até 125 cavalos, beneficiando uma área de terra muito maior".

A abordagem desta especificação da eletrificação rural é feita pelos técnicos da Comercial Scardua com o objetivo de conscientizar ao investidor rural — segundo garantem — das vantagens de um sistema melhor que é o trifásico. Sérgio Mascarenhas comenta:

— Não queremos dizer que o sistema monofásico seja ruim. Não é isto, em absoluto. Ruim é não ter energia. Queremos dizer apenas que o sistema monofásico é bom, mas o trifásico é melhor. O governo usa o monofásico para atender a maior volume de beneficiários com o montante de dinheiro que possui, certamente, não daria para atender a todos usando o trifásico que é mais caro. Ocorre que aqueles proprietários que puderem investir no trifásico terão retorno muito maior, embora, inicialmente, tenham que gastar mais. Este é o nosso alerta.

A questão monofásico versus o trifásico não influi na comercialização. O que, pesa, realmente, segundo o depoimento de comerciantes como Miguel Scardua, da Comercial Scardua, e outros, é a chegada, da energia elétrica ao campo. Isto induz à procura por bens, maquinários, equipamentos e implementos agrícolas.

No entender de Miguel Scardua a força da energia elétrica como indutora de investimentos nas propriedades rurais foi maior que a força desestimuladora que vinha exercendo a inflação, até o decreto-lei 2.283 do último dia 27 de fevereiro que implantou o plano de estabilização da economia.

— Mesmo com a inflação — explica Scardua — o proprietário rural diante da perspectiva de crescimento econômico trazida pela chegada da energia era fortemente estimulado a investir em sua propriedade, mesmo tendo de enfrentar a inflação. Por isso verificou-se o crescimento do comércio no ramo de produtos movidos a eletricidade".

Para o comerciante, o plano de estabilização da economia deverá ajudar ainda mais a expansão das vendas. "Pelo que se pode observar, diz muita gente já está pesquisando em que atividade produtiva é mais rentável investir o dinheiro que estava na poupança. Agora, aplicação em papéis já não dá mais para ganhar dinheiro. Tem de investir na produção. Aqui mesmo, na Comercial Scardua, outro dia chegou um homem e anunciou: tirei todo o dinheiro que eu tinha na poupança e vou investir em irrigação, nas minhas terras".

Euforia no comércio de máquinas

— No Espírito Santo, o comércio de máquinas, equipamentos e implementos agrícolas vive um clima de euforia por duas razões: os investimentos governamentais em eletrificação rural que possibilitam modernizar as técnicas de produção e induzam à venda de mercadorias para este fim; agora, outra razão, é o plano de estabilização da economia, que deve carrear o dinheiro antes aplicado na especulação financeira para o setor produtivo.

Esta é a visão do assistente administrativo da Comercial Regiani Ltda, José Roberto de Macedo. Mas, ele tem mais razões para sustentar seu otimismo: "sem correção monetária, sem inflação e, ao contrário, com deflação, o proprietário do capital não deve saber apenas que tem de aplicá-lo na atividade produtiva; ele precisa saber que atividade produtiva irá remunerar melhor o uso do seu dinheiro e, nesta análise, ele verá que o campo é um excelente  investimento.

As condições do Espírito Santo para a agricultura também fazem parte dos argumentos de José Roberto de Macedo em favor da prática da agricultura. "É verdade, diz ele, que temos pouca dimensão territorial e um solo montanhoso, lugares onde realmente a topografia não ajuda em nada. Em compensação temos condições climáticas e de solo que permitem um desempenho agrícola como poucos Estados brasileiros o têm".

O assistente administrativo da Comercial Regiani usa na sua argumentação a posição de destaque que a cafeicultura capixaba ocupa no País, sendo o terceiro maior produtor nacional. Lembra ainda que "somos o segundo maior produtor de cacau do Brasil além do solo se prestar para diversas outras espécies de culturas agrícolas.

José Roberto ressalta ainda a localização geográfica do Espírito Santo" que tanto favorece a exportação como está próximo aos grandes mercados do País, no caso Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte". Por todos os motivos que citou, considera a eleição da agricultura como prioritária, por parte do governo do Estado, "uma prova de capacidade administrativa".

Na ação governamental voltada para o interior, o assistente administrativo da Comercial Regiani Ltda destaca a eletrificação rural "que transforma para melhor a vida do campo, gera investimentos, produção, negócios e o comércio, evidentemente, participa desta movimentação econômica".

A análise de José Roberto Macedo encontra exemplo na própria firma em que ele atua: no espaço de tempo de um ano, entre fevereiro de 1985 a fevereiro de 1986, as vendas de máquinas, equipamentos e implementos agrícolas cresceram em mais de 100%, "apesar da inflação que foi muito grande no período e deve ter influído negativamente nas vendas”.

As dificuldades que os preços dos produtos ofereceram às vendas, conforme admitido por Macedo, foram, entretanto, superadas por "outras vantagens" que ele próprio enumera: "a eletrificação rural teve efeito mais forte que a inflação, isto é, passou a oferecer oportunidades de aumento da produção com menores custos que acabou se constituindo num grande atrativo para o investimento, isto aliado, conforme já citei, à vocação agrícola do Espírito Santo".

A Comercial Regiani Ltda comercializa produtos para irrigação (tubos, conexões, motores, bombas, aspersores, conjuntos de sucção, etc) que são tidos como relativamente caros se comparados com os preços de outros tipos de implementos. Porém, segundo revela, esta condição "de custo não tem inibido a comercialização dos produtos: "isoladamente, o custo é superior ao de outros implementos, todavia, o custo benefício é altamente compensador, isto sem considerar que a irrigação se torna indispensável em muitos casos na agricultura".

O assistente administrativo da Comercial Regiani lembra ainda que o desembolso para investimento na irrigação, dependendo das características do projeto agrícola, pode redundar em retorno em curto prazo. "Dependendo, por exemplo, da extensão da área a ser cultivada e do tipo da cultura, o ressarcimento pode ser obtido logo na primeira safra".

As vendas tendem a aumentar mais

A inflação alta e persistente de modo geral desestimula o investimento no setor produtivo. Este fato econômico, entretanto, foi negado no Espírito Santo, no último ano, tomando-se como base fevereiro de 1985 a fevereiro de 1986. Neste período a venda de energia elétrica rural aumentou em 72% segundo informação da Secretaria de Estado do Interior e dos Transportes e a venda de bens duráveis para agricultura movidos a luz (bombas, motores, máquinas) cresceu em 500% o número de unidades vendidas na Comercial Dalla Bernardina Ltda, que atua no ramo há 12 anos.

Segundo o acionista desta firma, Juraci Manoel Dias, o aumento das vendas este ano deverá apresentar "índices ainda mais expressivos". A previsão baseia-se no entendimento de que "agora, com a implantação do Plano de Estabilização da Economia, o investimento no setor produtivo é a única alternativa para a obtenção de lucro, assim sendo, os capitais antes empregados na especulação financeira serão carreados para a área produtiva".

Outra razão em que se baseia o ponto de vista de Juraci Manoel Dias é o congelamento dos preços, decretado a partir do último dia 27 de fevereiro. "Sem inflação — explica — fica mais fácil para o investidor os custeios dos seus empreendimentos, fato que o estimula; antes, com a inflação alta, os cálculos sobre custos ficavam logo defasados. gerando até desistências na aquisição de bens e, às vezes, de realização de projetos".

O acréscimo de 50% nas vendas de bens para a agricultura, de uso possível pela eletrificação rural, ocorreu mesmo com esses produtos (bombas, motores, máquinas, transformadores, cabos, etc) acompanhando em valor nominal a escalada da inflação, confessa Juraci Manoel Dias. Mas, ele explica:

— “Durante a época em que o País viveu sob grande inflação, até fevereiro deste ano, o comércio era obrigado a atualizar seus preços, sob pena de deixar de operar, e isso era entendido pelo investidor esclarecido. Quanto ao volume de vendas, em si, a expectativa inflacionária ajudava a demanda, pois quem deixasse de comprar hoje, amanhã poderia pagar mais caro pelo mesmo produto".

Especificamente no que diz respeito aos bens agrícolas, o acionista da Comercial Dalla Bernardina Ltda considera que "de modo bem genérico, ressalvadas algumas exceções", os custos dos bens agrícolas movidos a eletricidade "são relativamente baixos", além desses bens poderem oferecer "um re-torno indiscutível". Ressaltou ainda que "uma boa colheita já cobre de sobra todo o investimento".

Para Juraci Manoel Dias, relativamente a outras formas de benfeitorias que podem ser feitas na propriedade rural, os processos de irrigação "nem sempre são possíveis a custos muito baixos, porém a irrigação em muitos casos é condição indispensável à produção; mas, se o produtor gasta com irrigação ele está agindo para obtenção de retorno do seu investimento, o que seria impossível sem essa técnica".

No Espírito Santo, a qualidade da terra para determinadas práticas agrícolas também funciona como indutor ao investimento no campo e, conseqüentemente, à venda de produtos de materiais para eletrificação rural, além de bombas, motores e implementos em geral. Juraci Dias exalta este fato e lembra a performance do Estado como produtor de banana e, principalmente, de café.

Na lista das razões que explicam o aumento de 50% nas vendas de unidades de máquinas, equipamentos e implementos agrícolas registrado pela Comercial Dalla Bernardina Ltda, de fevereiro de 85 para fevereiro deste ano, está o investimento realizado no Espírito Santo em eletrificação rural. A estatística oficial do governo, exibida pela Secretaria de Interior e Transportes, informa que até 31 de dezembro de 1982 o Estado possuía 6.360 quilômetros de linhas de distribuição rural.

De acordo com a mesma fonte, em dezembro do ano passado, o número de consumidores rurais na área da Escelsa era de 20.438, mais 6 315 na área de concessão da Empresa Luz e Força Santa Maria. Em termos de quilômetros de eletrificação rural o número atual é de 8.418.

 

Fonte: A Gazeta, 10/04/1986
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2015

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