Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Entrevista com Belmiro Xavier – Por Roberto Abreu

Matadouro Municipal de Vila Velha - Foto Arquivo: Edward Alcântara, anos 50

Nasceu em Jaguarussú na Barra do Jucú, em 26/11/1922. Filho de Manoel das Virgens Xavier e de Mercilia Maria da Conceição. Seu pai nasceu em 20/12/1881, por sua vez filho de Manoel Michelino e dona Angélica. Sua mãe nasceu em 04/03/1897, e era filha de Manoel Gomes, que era morador do Morro da Lagôa de Ponta da Fruta.

Belmiro é o único irmão vivo de sua família, sendo que seus irmãos foram: Fernando, Bernardo, Joaquim, Joana, Josefina, Candida, Laurentina e Maria Gertrudes.

Seu pai era de Acioli, que é um distrito de João Neiva – ES, lá conheceu a família de Dr. Jairo Matos Pereira, de Padre Maurício, dona Eutalinha e o velho patriarca Matos Pereira.

Seu pai veio para Vila Velha servir o Exército, depois trabalhou na Estrada de Ferro Vitória a Minas onde ficou morando. Foi ser proprietário rural em Jaguarussú, perto da lagoa de Jabaeté, seu filho Belmiro herdou tem uma terrinha. O local certa época chegou a ser chamado de “Os Canudos”.

Segundo ele, a lagoa era muito maior no seu tempo e que por atuação do DNOS veio a reduzir-se a 1/3. Tinha muito peixe. Ali corria uma lenda da existência de uma corrente que prendia uma canoa afundada cheia de ouro que era dos Jesuítas, e quem mergulhava seguindo os elos não conseguia chegar ao fim.

Contou um fato surpreendente do seu tempo, em que uma certa dona Zulimira ou velha Bildoa teria mandado matar o marido o que foi executado pelo Sr. Coelho, que ao cometer o crime pegou 30 anos de cadeia. O corpo da vítima foi achado perto de uma canoa.

Por lá havia pequenos povoados ao longo do vale do Rio Jucú, como Pascé, Mateus Pinto, Camboapina, Belém, etc,  e por ali usavam muitas canoas, e chegou passar pelo canal dos jesuítas com o canoeiro, Sr. Ormandino, indo até a Baía de Vitória.

Sr Belmiro casou-se com Dona Ormandina Vieira Xavier e tiveram vários filhos que lhe deram vários netos: Carlos Augusto casado com Sra. Maria da Ajuda; Vera Lúcia (essa falecida por acidente de carro em 1998 no centro de Vila Velha) era casada com José Nogueira Soares, deixando dois filhos: Rodrigo e Mariana; Vera Lígia casada com Clovis Nunes. Belmiro já viúvo, casou-se novamente, com Dona Regina Marta Carvalho Xavier.

Seu pai era fiscal de quarteirão, ou subdelegado da região da Barra do Jucú, e lembra que lá havia até uma cadeia, e por lá atuava um ladrão incorrigível que vivia de furtos. Era bem conhecido na região.  A família tinha uma roça e muita coisa que produziam traziam para Vila Velha, a pé ou a cavalo, e vendiam para pequenos comerciantes, inclusive de Inhoá.

A ponte da Barra do Jucú (a Madalena), já existia e o percurso de lá até o Centro de Vila Velha, que praticamente era uma trilha com uma vegetação de restinga com muitos cajueiros, sem falar nas pitangueiras etc.

Lembra quando na orla da Praia de Itaparica um famoso empresário explorou a região com plantação de mamona, depois mandioca, e finalmente plantou coqueiros, que também não produziu a contento.

Em certa ocasião em que não consegue mais precisar a data, viu retirar turfa para exploração de hidrocarbonetos, nas proximidades de Camboapina, que depois seguiam com o material para o porto da capital e dali para o Rio de navio.

Conheceu na Barra do Jucu o famoso clã dos Valadares, ou seja, os irmãos, João, Pedro, Silvino, Alfeu, Manoel e Miguel (pai de Jolimar). O Manoel tinha como filho o Argeu, Domingos, Davi, Ulisses e Henrique. Pedro, seu filho era o Silvino Valadares Sobrino,  casado com dona Sultane.

Quando estudou ia a pé por 5 km da Barra do Jucu  até Campoapina. Teve como professoras dona Adelaide, Dona Maria das Dores Machado e Dona Alzira. Estudou até o 5º ano primário.

Em Vitória, adquiria muitos artigos com seu pai, com o Sr. Pedro Botti na Rua 7. Foi batizado pelo padre Odorico Malvino, e lembra do cruzeiro que havia em frente da Igreja do Rosário na Prainha. Conheceu muito o Padre José de Lidwin inclusive no tempo de sua atuação como reitor do Convento, e de seu sítio no Xuri, e de um oratório que existia em Camboapina.

Em 1941 entrou para o exército como recruta no Terceiro Batalhão de Caçadores. Sendo que ao criar-se a FEB em 1942 o Coronel Vasconcelos indagou quem queria ir para a guerra como voluntário, e Belmiro foi um dos três de sua turma que levantaram o dedo, ou seja, ele juntamente com os colegas Casagande e Firme.

Seguiu para o Rio de Janeiro, para o 12º Regimento de Infantaria na Vila Militar, recebendo farda em 03/03/1944. Dali seguiu para treino em Juiz de Fora. Sempre atuava no setor de paióis, e era segundo municiador.

Na ida para a guerra viu uns três soldados se desertarem por pavor, querendo pular do navio. Um desistiu a tempo. Outros dois vacilavam em pular, e por falta de coragem, alguém foi com uma machadinha cortou o dedo deles onde seguravam numa beirada do casco, e caíram assim em alto mar e nunca tiveram notícia deles.

Foi no terceiro escalão para a Itália, lá chegando em 22/01/45. E atuou na área da batalha de Monte Castelo que ocorreu em 21/02/45 fazendo rescaldo. Por lá ainda viu o Ailson Simões, sem contar com o Aquino, Fraguinha, Camilo Cola e outros.

Ao que sabe é que o Ailson achou uma granada, e mostrou para um capitão; que disse que estava vencida e puxou o pino e a jogou no chão. Ocorre que o artefato explodiu, ferindo o capitão, matando o Ailson e um tenente que estava junto.

Na guerra era destacado com outros para ir em busca de armas dos soldados que haviam morrido, e viu muitos mortos, inclusive em armadilhas por meio de fossos camuflados.

Passou muito frio, e não chegou a entrar em combate propriamente, tendo ficado de qualquer forma um mês e 13 dias em área de combate.

A guerra na Europa encerrou em 08/05/1945, e o Brasil foi sondado em enviar tropas para a ocupação da Áustria, mas Getúlio Vargas não aceitou. Na volta já no início de outubro de 1945, a FEB passou por Portugal, e ao chegar ao Rio ficou com um pelotão tomando conta do navio, e não participou da parada da vitória, perante Vargas. Dali o navio o trouxe para Vitória, com escala que fez antes de levar demais integrantes do nordeste e do norte.

Logo a FEB foi extinta por Vargas, nos seus derradeiros atos de seu primeiro período que havia sido iniciado em 1930, até ser deposto em 30/10/45.

Ao retornar da guerra, Belmiro não havia como voltar em definitivo para a roça para trabalhar com o seu pai, onde chegou ficar por 6 meses, até ser chamado de volta para trabalhar no exército. Ficou lotado como soldado na 3ª CR  no Parque Moscoso até 30/09/1950, atuando no almoxarifado e no auxilio na busca de documentos.

Dali foi encaminhado para o Rio de Janeiro, e lá trabalhou por um ano e onze meses. A seguir voltou para o 3º B.C em Vila Velha, e atuou por mais um ano e cinco meses, dando baixa com fixa limpa.

Saindo do Exército foi trabalhar como calceteiro na Prefeitura de Vitória, por uns 4 anos. Depois foi trabalhar como contínuo no Tribunal de Justiça e a seguir em 1956 quando da criação da Comarca de Vila Velha, veio para cá, até se aposentar.

Em Vila Velha morou no início na casa de Sr.Julião Abreu na rua Luciano das Neves, depois foi para o antigo Matadouro no final da rua Dom Jorge de Menezes em 14/3/1960, onde reside até hoje. Esse terreno foi conseguido da Prefeitura inicialmente articulado com o Prefeito Gil Velozo, e depois finalizado por Tufy Nader.

A partir de 1970 passou a receber na esteira do movimento dos ex-combatentes, como segundo tenente. Como contínuo da Justiça, tomou conta de muitas casas de juízes e promotores quando esses se ausentavam. Limpou e encerou muitas vezes a Academia de Letras de Vila Velha quando era usada para a realização dos júris.

Lembra que no Matadouro matava-se 3 bois por dia útil, até mais ou menos em 1972. Depois o matadouro foi transferido para Itapoã, quando lá se abatia cerca de 10 bois, dado o aumento vertiginoso da população.

Na época conheceu o açougue de Sr Alonso Braga na Prainha. Outro açougue só existia em Paúl. O fiscal do Matadouro era Sr. José Pitanga.

Lembra do tempo que nos anos 50 surgiu o SAPS num barraco de madeira onde hoje fica o banco Itaú no centro de Vila Velha, e que depois veio para o que era o açougue do Sr. Alonso.

 

Entrevistador: Roberto Brochado Abreu
Belmiro Xavier foi entrevistado em 06/12/2015 

Entrevistas

Entrevista com Alvarito Mendes Filho (09/05/2006) - Por Mônica Boiteux

Entrevista com Alvarito Mendes Filho (09/05/2006) - Por Mônica Boiteux

Alvarito Mendes Filho é bastante conhecido no Espírito Santo pela sua carreira como escritor e ator. Temos certeza que você irá reconhecer esse rosto, pois sempre o vemos na TV, na propaganda de um supermercado

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte I

A revolução - Em 4 de Outubro de 1930, tomei conhecimento da eclosão de um levante, de grandes proporções

Ver Artigo
Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte II

A Intervenção - Aos 30 anos de idade fui nomeado interventor do Estado do Espírito Santo

Ver Artigo
Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte III

A Economia - Encontrei o estado em difícil situação financeira

Ver Artigo
Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte IV

A Agricultura - O que o senhor poderia nos contar a respeito da agricultura e especialmente do café, nesse período

Ver Artigo
Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte V

Os limites do ES – O senhor teve que enfrentar o problema de limite do Espírito Santo com Minas e com a Bahia

Ver Artigo