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Entrevista com Moacyr Lofêgo – Por Romero Botelho

Moacyr Lofego

Entrevistador: Qual o seu nome e suas origens?

Moacyr: Meu nome é Moacyr Lofêgo, nasci em Rio Pardo, hoje município de Iúna em 02-06-1913 e lá permaneci durante toda a minha meninice até a idade de 12 anos. De lá pra cá, sendo filho de italiano, estrangeiro, acabei vindo para Vitória para estudar. Como tinha um cunhado...

Entrevistador: Qual o nome dele?

Moacyr: Desembargador Augusto Botelho, casado com minha irmã Rosina Lofêgo Botelho, como eles já estavam morando aqui eu vim residir a princípio na residência deles. Depois de um ano mais ou menos, acharam por bem que eu deveria ser colocado no internato no Ginásio São Vicente de Paulo. No Ginásio fui me habituando, aquelas condições de presídio (risos) e acabei permanecendo por dois anos como aluno de internato. Os diretores do colégio eram Aristóbulo Leão e  Kosciuszko Barbosa Leão, que eram irmãos e que fundaram o colégio de São Vicente de Paulo em 1913.

Na cidade alta, perto da Maçonaria e ali permaneci dois anos como interno e depois procurei uma pensão para eu poder concluir os meus estudos. Procurando em Vila Velha um lugar apropriado, encontrei a República do Saturnino Rangel Mauro que tinha saído do 3o BC, era um excelente músico, mas naquela data depois que um profissional militar completava 10 anos de profissão, ele era posto em “liberdade”, era dispensado do serviço militar.

Não havendo condições de trabalho em Vitória, a única solução para Saturnino Rangel Mauro (hoje pai de Max Mauro, que foi prefeito de Vila Velha por dois períodos e foi Governador do Estado durante quatro anos).

Moacyr se perde um pouco na história ~ ~

Entrevistador: Começa de novo...

Moacyr: Aí também chegou a minha vez estudar para tirar o meu curso superior.

Entrevistador: Que data era essa e qual era sua idade?

Moacyr: A minha idade era mais ou menos de 14/13 anos, mais ou menos isso.

Entrevistador: Você morou na pensão de Saturnino Rangel por quanto tempo?

Moacyr: Uns dois ou três anos lá.

Entrevistador: Seus pais eram vivos na época?

Moacyr: Meu pai já havia falecido, perdi meu pai com a idade de cinco anos.

Entrevistador: E sua mãe?

Moacyr: Minha mãe era quem nos sustentava no colégio. Nós éramos doze irmãos, 5 mulheres e 6 homens.

Entrevistador: São quantas mulheres e quantos homens na sua família?

Moacyr: Nossa família era composta de 11 homens e 5 mulheres. O primeiro que nasceu foi Rosina Lofêgo, Antonio Lofêgo, Francisco Lofêgo, Lídia Lofêgo, Elizeu Lofêgo, Onair Lofêgo, Zilda Lofêgo, Almir Lofêgo, Dady (Maria Auxiliadora) Lofêgo, Moacyr Lofêgo e Ilza Lofêgo.

Entrevistador: Então você veio pra cá com 13 anos pra Vila Velha, você veio com sua família?

Moacyr: Não, eu vim sozinho. Eu fazia um percurso de dois dias a cavalo e dois dias de trem, para sair de Rio Pardo pra chegar a Vitória.

Entrevistador: E quantos anos você morou em Vila Velha, com seu cunhado o Augusto Botelho?

Moacyr: Devo ter morado uns três anos, ou quatro... Depois eu fui fazer o curso superior em Niterói, na Faculdade Fluminense de Odontologia.

Entrevistador: Você veio morar em Vila Velha com 13 anos, isso no fim do ano de 1926, correto?

Moacyr: Justamente isso mesmo.

Entrevistador: Então você ficou morando com Augusto Botelho até 1930, depois indo morar na pensão de Saturnino Rangel em meados de 1931...  Nesses quatro anos, o que o Augusto Botelho mostrou de Vila Velha pra você?

Moacyr: Logo quando eu cheguei a Vitória, eu consegui chegar aqui pela noite. Porque eu saia de Rio Pardo (Iúna) e viajava 5 horas a cavalo, subindo e descendo morro, quer faça sol quer faça chuva, pra chegar a Muniz Freire, lá dormia no Hotel e no dia seguinte nós pegávamos bem cedo, os animais os burros, dali nós partíamos a Cavalo para Castelo viajando mais sete horas. Chegando em Castelo, fomos dormir no Hotel Mangueira um hotel novo que tinha lá e tal, fomos conhecer pela primeira vez uma cidade calçada (risos). Pela primeira vez também vinhemos conhecer o Trem de Ferro, que era uma das maiores aspirações minhas, era ver um trem. Apitando, andando e soltando fumaça! Eu adorei aquilo, me senti realizado.

Depois no dia seguinte seguimos para Cachoeiro de Itapemirim, eu tinha um irmão que morava lá e era casado, dormíamos lá e de lá seguíamos para Vitória. Quando chegamos em Vitória, nós fomos pra Leopoldina, tinha a Leopoldina Diamantina, talvez porque meu cunhado exercesse uma função assim, de destaque no governo, naquela ocasião não sei se ele era juiz ou desembargador da Comarca da Capital de Vitória.

Então o Governo nos prendou com o transporte de Lancha até Paul, foi neste momento que o mineiro não deixou de despertar sua curiosidade, enfiou o dedinho na água para ver se era salgada (risos), ele teve que provar se era salgada ou não. Finalmente cheguei em Vila Velha na casa do Desembargador Augusto Botelho, meu cunhado.

Bom, aí fomos dormir e coisa e tal, os meus sobrinhos tinham mais ou menos a minha idade, logo cedo eles falaram:

- Vamos à praia, para você conhecer a praia!.

Nós ficamos morando ali perto da Igreja do Rosário, próximo da casa de Eugênio Queiroz.

Entrevistador: Como vocês foram pra Praia da Costa naquela época?

Moacyr: Não, não fomos pra Praia da Costa não. Ninguém tomava banho na Praia da Costa, só se tomava banho na Prainha! A Prainha ficava ali entre o Fórum, uma castanheira e a casa de Alberto Simões e Anselmo Cruz. Ficava ali, Anselmo Cruz depois Alberto Simões que hoje é a casa daquele grande pintor Homero Massena, depois tinha uma castanheira muito grande e depois tinha o Fórum, o correio e outros ali... E do lado direito isso indo reto, nós encontramos a entrada do Convento e também para o 3o B.C Batalhão dos Caçadores.

Entrevistador: E como era a Prainha naquela época?

Moacyr: A Prainha tinha um cais, que todas as Festas da Penha vinham umas lanchas e traziam os romeiros e eles saltavam ali no cais e subiam a pé para o Convento, porque não havia estrada de automóveis não. Todos subiam rezando, uns fazendo promessas e etc, até chegar lá no final do mosteiro.

Entrevistador: Então o primeiro banho de mar foi na Prainha, a água era muito limpa na época?

Moacyr: A água lá sempre foi assim, quando a maré estava vazia havia lama no fundo do mar, quando a maré estava cheia era uma beleza, uma água límpida, clara, gostosa de se tomar banho. Quem sabia nadar, atravessava o cais do Convento para a casa do Anselmo Cruz, eles faziam uma, duas, cinco, dez voltas, o quanto podia e como disputavam, porque havia uma disputa eu faço travessia dez vezes, outro dizia que fazia oito, então marcava direitinho e fazia a travessia de um ponto ao outro.

Entrevistador: Onde ficava exatamente a casa de Anselmo Cruz, ali na entrada da Prainha, da Marinha?

Moacyr: Na entrada da Marinha. E a marinha dali pra lá, aterrou aquilo tudo, porque ali era um bairro de pescadores, chamado de Inhoá. Depois resolveram fazer a Escola de Aprendizes de Marinheiros, houve um decreto feito pelo Nelson Monteiro, que era parente dos Monteiro, todos foram governadores há anos atrás. E ele conseguiu com o prestígio dele trazer a EAMES pra cá, então como era uma enseada precisava de aterrar, então resolveram retirar areia da Praia da Costa, na região do Bar  Mug e  dali levar e jogar tudo na Enseada de Inhoá, porque tinha muita areia ali, areia ali era bem alta não prejudicando absolutamente nada em ecologia. Ali haviam tipo de dunas, eles então foram tirando e tirando com os tratores e pás mecânicas e tudo mais, levaram meses pra conseguir isso. Até que a Praia ficou completamente lisinha, nivelada, isso do Ed. Guruça até a Ponta de Itapõa, que quando chegou lá, já não havia mais necessidade do aterro, pois já estava pronto.

Então começaram a trabalhar na região lá da Prainha, foram espalhando e invadindo aquela enseada onde fizeram a Escola de Aprendizes de Marinheiros.

Entrevistador: Não foi feito o aterro da área da Prainha para poder desassorear o canal de Vitória não?

Moacyr: Foi feito nada não, o material do aterro veio direto da Praia da Costa. Dali do Bar Mug eles foram tirando areia e jogando pra lá, começou mais ou menos por ali, não houve alteração em nada ficou tudo bonitinho e perfeito. A areia antigamente fazia ondas e ondas, a gente pulava, brincava nos cipós.

Entrevistador: Seu primeiro banho de mar foi na Prainha, quando o senhor foi conhecer a Praia da Costa?

Moacyr: O Rio da Costa (canal), desembocava entre o Morro do Moreno e o Convento da Penha e dava entrada de água como dava saída também. Quando a maré enchia, a água subia e ia até lá na Toca. Quando a maré esvaziava, a água descia e vinha pro mar. E assim ficou durante muitos anos, até que resolveram mais tarde fazer o Colégio Marista, tirando o canal dali e jogar o canal mais pra cima mais alta, para não haver justamente a inundação.

Entrevistador: Sobre seu primeiro banho de mar na Praia da Costa, foi com Augusto Botelho? Foi na mesma época que você chegou, logo em seguida ou foi depois?

Moacyr: Todo sábado e domingo, o Augusto Botelho combinava com a família toda, preparavam comida e faziam uma casinha de sapé num terreno de frente a praia, antes pediam permissão ao camarada lá para fazer, levavam água, a gente passava na pinguela para poder atravessar o canal e chegar na parte plana...

Entrevistador: Esse canal era o Rio da Costa?

Moacyr: Isso, atravessávamos o Rio da Costa de pinguela. Dali atravessando, aquela zona era um mangue até chegar próximo a Praia da Costa. Era um mangue, onde eu pesquei muito caranguejo. A gurizada, uns seis ou sete, traziam a cada 10 minutos, latas de querosene cheias de caranguejo, sentávamos de baixo de alguma árvore, tinha umas pedras assim para quebrar, tome pau e comíamos os caranguejos. Isso passadas duas semanas desde o meu primeiro banho na Prainha, só então fomos pra Praia da Costa.

Augusto me disse:

- Você tá gostando da Prainha, mas vai conhecer uma das praias mais bonitas do Brasil!

Quando eu cheguei assim que eu vi, me deparei com aquele panorama, com pedras, com alto mar, aquela praia linda, eu fiquei encantado, simplesmente fiquei encantado! Bestificado, quanta beleza nesse mundo que a gente não vê e não sabe, ninguém diz (risos), olhei e olhei, resolvi tomar um banho de praia.

Entrevistador: Aonde foi seu primeiro mergulho? Foi na Sereia onde tinha o Trampolim?

Moacyr: Era da Sereia pra lá, o vento era nordeste, batia sol, era nascente, a água era morninha... Agora pro lado de lá, era água gelada, ninguém gostava de tomar banho lá. Então tomávamos banho ali, daquela parte do Clube Libanês dali nós tomávamos banho, era uma enseada bonita, gostosa, íamos até aquela pontinha da pedra, ali a gente parava, corria, brincava, apostava quem nadava mais quem nadava menos, era dali. Do Libanês pra cá, depois veio um senhor, um português, exportador de café e fez uma excelente casa, ali onde hoje é o Hotel do Senai e foi também o Hotel Tabajara, ele fez uma chácara uma enorme, pra chamar atenção do pessoal, fazia churrasco e tudo mais.

Entrevistador: Naquela época que você chegou já tinha o Hotel?

Moacyr: Não, só a chácara dele que era enorme, depois ele vendeu um pedaço do terreno pra Dona Peinha, ela quem fez o Hotel.

Entrevistador: O que tinha ali em cima do Libanês, aquela praia que é do Governador, o que era naquela época?

Moacyr: Aquilo ali era uma pedra que tinha mato, uma vez tentaram invadir para cortar o mato e fazer umas casinhas ali, mas a Secretaria de Obras não deixou.

Entrevistador: Parece que ali antigamente era a Fazenda do Ribeiro...

Moacyr: Tinha sim, eu conheci a Fazenda do Ribeiro ali. Eu já roubei muita cana na Fazenda do Ribeiro, porque tinha muita cana lá, a gente ia por baixo tirava duas três canas e caia dentro d’água e ia embora (risos).

Entrevistador: Quem tomava conta nessa época da Fazenda?

Moacyr: Ah eu não sabia, era um cara lá, eu não conheci o Ribeiro, eu conheci o Aguiar que era dono daquele negócio. Depois de conhecer Dr. Américo Monjardim que loteou a Praia do Ribeiro e passou a ser dono daquela região toda.

Entrevistador: Em cima da pedra não havia nenhuma Ruína não?

Moacyr: Ruína sempre teve aqui em Vila Velha. Todo lugar tinha ruína por causa dos Jesuítas, os Jesuítas faziam e depois iam embora e largava as coisas lá, todo lugar que você vai no Espírito Santo, por exemplo você vai na Serra tem ruína, em Nova Almeida tem ruína, Guarapari, Anchieta também tem, quando você vai lá vê as coisas feitas pelos índios...

Entrevistador: E como você conheceu o Convento da Penha? Você chegou e foi na Prainha, duas semanas depois na Praia da Costa e o Convento? Foi logo quando você chegou?

Moacyr: Quando cheguei aqui, eu me impressionei com o Convento da Penha, eu nasci em zona montanhosa e aqui numa praia como aquela plana, me deparei com o mosteiro daquele cheio de árvores, viçosas, verdes, bonitas, eu fiquei admirado e estarrecido! Olhando aquilo lá, parece a minha terra que tem muita mata muita coisa, eu fiquei admirado depois vim a descobrir o Moreno que é outra beleza e as obras do Convento da Penha, essa deixa qualquer um embevecido!

Porque aquilo foi uma obra que contando não se acredita... Foram pedras levadas lá para o cume, no pico, carregadas nos ombros e eles foram naquela luta, naquela vontade de realizar, de fazer uma coisa, não sei se era milagrosa ou sinuosa, sei que fizeram e que o Convento ta lá com quase 500 anos de existência. Aquilo me impressionou demais, não podia deixar de subir o Convento né? Depois eu subi aquelas escadas, a princípio subi devagar depois comecei a subir correndo e quando já estava chegando, eu descia correndo aquilo aos pulos, eu pulava e dava cada salto, pra ver quem chegava primeiro com os colegas disputando.

Esse recanto aqui, é o recanto da minha paixão, Vila Velha! Eu me considero mais vilavelhense do que Iunense, porque eu passei a minha mocidade aqui, eu vim pra cá cedo comecei a estudar no Colégio Interno, depois fui pra uma das melhores pensões que tinha aqui em Vila Velha que era a de Saturnino Rangel Mauro.

Todas as noites eu acompanhava os passos dados pelos noivos: Saturnino Rangel Mauro e a mulher dele, acompanhei o noivado, acompanhei o noivado de Domício Mendes com a Valadares, tudo isso foi no meu tempo. Nós morávamos todos quase que na mesma rua, Vila Velha era muito grande tinha umas vinte casas e as casas mais habitadas era ali onde a gente passeava, ia de uma ponta e voltava e ali que se namorava. Eu não porque eu era garoto, mas as pessoas mais idosas e tal, namoravam era ali e porque as mães ficavam de olho em cima vigiando.

De forma que eu sempre fui amigo, mas muito amigo mesmo de Saturnino Rangel Mauro, fui pensionista dele por três anos se não me engano.

Entrevistador: Até que idade você morou lá, até os 17 anos?

Moacyr: Mais ou menos por aí, de 14 a 17-18 anos, quando eu estava chegando no 4o ano, o que eu apreciava muito no Saturnino Rangel Mauro é que ele era autodidata e com uma força de vontade fora do comum! Quando eu tinha dificuldade para resolver meus problemas e ficava tentando resolver sem conseguir, eu ia até ele e pedia ajuda... Ele falava:

- Espera um cadinho que eu vou lá.

Então ele pedia meu livro, matemática, álgebra, independente da matéria que fosse, ele vinha e lia tudo mais com um raciocínio maduro, depois de um tempinho ele dizia:

- Matei o problema!

E então me ajudava a fazer a tarefa.

Aprendi muito com ele, passei a admirar o Saturnino, um homem de muita integridade moral de muita honestidade.

Ele era do PTB, eu era da UDN, o José do PSD havia uma quantidade de partidos enorme. Eu era um apaixonado pelo Carlos Lacerda, pela UDN e fundei o partido, a UDN aqui. Mas quando fundei o partido, eu estive antes com o Saturnino e Domício Mendes na Praça Oito.

Comentei com os dois, brincando, que o partido UDN era “fraco” e não tinha nenhum representante na Câmara dos Vereadores, não tinha nada! Complementando falei que tinha vontade de organizar uma frente do partido UDN lá em Vila Velha, eis que Saturnino disse que acreditava em mim, se eu for um bom político tanto quanto fui dentista.

No outro dia, quando eu sai do consultório, os amigos foram me chamando e perguntando quando iríamos organizar o partido UDN, para ir para frente e tudo mais. Mas depois de um tempo, resolvi levar a sério e organizar essa UDN. Na época só tinha um camarada que se dizia presidente do diretório municipal e diretório estadual, um tal de General Magalhães.

Quer dizer ele não trabalha nem pra lá e pra cá, ficando o partido parado, resolvi ir falar com ele para dar uma satisfação que eu iria organizar o partido, que já havia falado com Saturnino, ele concordou e ficou animado. Depois que ele achou muito bom, eu entrei em campo de noite e comecei a procurar os colegas, gente boa e formada e também novos... Pessoal do Banco do Brasil, pessoal da Alfândega, Delegacia Fiscal e comecei a escolher uma turma seleta. Depois que os reuni, eles me deram um ultimato de que não ficariam com o General dentro do partido. Fui lá e falei com ele que já tinha a lista do pessoal para fazer parte da UDN, nomes como Gil Veloso, o irmão do Gilberto Rangel, Nelson Rangel, Duquinha, o único que não prestava era eu (risos). Tive uma presidência boa, levei a lista pra ele e o notifiquei os nomes que eu havia escolhido, então ele me disse o seguinte:

- Tenho que lhe falar que não entra qualquer um na UDN não...

Eu peguei e falei pra ele:

- General, o senhor não pode exercer dois mandatos. Você é o presidente do diretório municipal e presidente do diretório estadual, o senhor tem que desistir de um que é o de Vila Velha (municipal) e é esse que nós vamos ocupar.

Ele retrucou dizendo que não deixaria qualquer um fazer parte da UDN, então eu respondi:

- Olha, negócio é o seguinte, nós vamos entrar! Se vocês acharem que nós não vamos ajudar em nada, que não vamos trabalhar que não vamos pesar coisa alguma, não há problema, há vários partidos interessados nos procurando para nos dar legenda, nós entramos em outro partido e vamos “meter o couro” na UDN também!

Entrevistador: O que tinha em Vila Velha na época em que você chegou?

Moacyr: Na parte cultural tinha dois clubes, Democrata e Fenianos. Fenianos era o mais pobrezinho, mais modesto. O outro era dirigido pelo Miguel Aguiar, muito bem organizado, ele tinha muito entusiasmo pelo carnaval. Era uma disputa tremenda...

Entrevistador: Isso até os seus 17 anos?

Moacyr: Desde que eu cheguei aqui já existia... Todo carnaval, a gente saía, eu não pertencia a ninguém, eu era pequeno, mas acompanhava.

Entrevistador: Tinha algum teatro, algum cinema naquela época?

Moacyr: Tinha uma tal de Lapinha, organizada por Clementino Barcelos, esta era tradicional aqui também.Era Lapinha vermelha, verde, os negócios meio parecidos. Mas uma disputa tremenda, violenta e cantava, faziam versos, versos as vezes delicados outras vezes ofensivos. Mas lutavam para tirar o primeiro lugar, era uma coisa linda!

Entrevistador: E ia saindo pelas ruas, quem é que julgava isso?

Moacyr: Depois havia reunião direito nos clubes, vinha a mesa certinho e tal..

Entrevistador: Isso era feito nos clubes então?

Moacyr: Sim, primeiro começava né a Lapinha tal coisa e tal, Lapinha tal coisa e tal, porque eu não me lembro bem... Verde, amarelo algo assim, depois dessa disputa toda, dessa confusão toda, quem deve contar muito bem isso é o Dukla de Aguiar ou o Walter Aguiar, porque eles acompanharam, participaram, eles eram filhos de Miguel e todos trabalhavam no mesmo sentido, sentido esse de ganhar de vencer entendeu? Eles podem perfeitamente informar bem. Como Cinema, tinha cine Cici.

Vila Velha pra mim sempre foi uma cidade interessante, foi aqui que eu comecei a me sentir jovem foi aqui que eu encontrei as minhas primeiras namoradas, foi aqui que eu tive doces e amargas recordações. Basta dizer que tive uma namorada, que me enrolei dois anos eu saía com ela pro colégio, voltava pra casa, saía depois do almoço pra passear, aos sábados e domingos ia ao Convento a pé e apreciava as paisagens daquela linda topografia, no final foram dois anos perdidos que eu tive na minha vida. Quando eu pensei que ela gostava de mim, ela não gostava é de ninguém.

Como todo cinema mudo que se prezava, ele tinha também o seu fundo musical ao vivo, só que, em vez do piano e do violino tradicionais, estavam presentes o violão e o cavaquinho tocados pelo casal Tanego Piratininga de Barros e Maria José Barros, respectivamente, que acompanhavam as cenas do filme.

 

Nota: Moacyr Lofêgo faleceu 26-03-1993
Entrevistador: Romero Botelho 

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