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Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte I

João Punaro Bley

Esta entrevista foi realizada em 1981, na residência do ex Interventor Federal João Punaro Bley, no Rio de Janeiro, por João Euripedes Franklin Leal e Fernando Sanchotene, a serviço do Instituto Jones dos Santos Neves, que a publicou em sua Revista  IJSN, ano IV, n°2, junho de 1985. Este raro depoimento do político de confiança de Getúlio Vargas, que governou o Espírito Santo entre 1930 e 1943. O General Bley faleceu duas semanas após a entrevista, aos 81 anos de idade.

REVISTA: General, conte como foi que o senhor tornou-se interventor do Espírito Santo?

BLEY: Cursava eu o 2° ano da Escola do Estado Maior, em Andaraí, Rio de Janeiro quando na madrugada de 4 de Outubro de 1930, tomei conhecimento da eclosão de um levante, de grandes proporções, sob o comando, no sul, de Getúlio Vargas; em Minas, de Olegário Maciel, na Paraíba, de Juarez Távora. E, na tarde do dia 6 de Outubro, recebi um oficio contendo os seguintes termos: Senhor Capitão Bley, apresente-se ao General Chefe do Departamento de Pessoal, a fim de seguir, ainda hoje, para o Espírito Santo, com o Coronel José Armando". Contrariado, apresentei-me a meu novo comandante, no Ministério da Guerra.

REVISTA: Por que contrariado?

BLEY: Eu não conhecia ninguém no Estado. Desejava ser escalado para destacamentos que fossem enviados para o sul, onde poderia solidariza-me com meus antigos companheiros e passar, pela deserção, para o lado revolucionário. Pois bem. Dirigi-me para o navio que de veria nos conduzir a Vitória. Fui informado que nosso destacamento seria constituído de apenas 8 oficiais e 13 sargentos, compondo a tropa do 3º Batalhão de Caçadores (3° BC) da Polícia Militar do Estado e alguns batalhões patrióticos que estavam sendo organizados pelo Governo do Estado. Entre os oficiais, tive a satisfação de encontrar dois velhos camaradas da guarnição do Paraná: o Tenente de Engenharia  Sady Martins Viana e o Tenente de Infantaria Celso Lobo. O navio partiu no dia 8 de Outubro. Na viagem fui conversar com meu comandante José Armando sobre minhas antigas vinculações revolucionárias. Disse-lhe que não desejava enganá-lo e que, na primeira oportunidade, eu passaria para o lado das forças revolucionárias. Ele respondeu-me: "Em Vitória, estudaremos melhor o seu problema de consciência". Informei aos tenentes Sady Martins e Celso Lobo sobre tal conversa. Chegamos em Vitória no dia 10 de Outubro, sendo recebidos pelos nossos camaradas do 3° BC, entre os quais o major Flavio Augusto do Nascimento, meu primeiro instrutor de Infantaria e o primeiro-tenente Carlos Marciano de Medeiros, meu contemporâneo. A situação estava alarmante. O Presidente do Espírito Santo, Aristeu Aguiar, atravessava uma fase de impopularidade tremenda devido principalmente ao chamado "massacre de 13 de Fevereiro”.

REVISTA: Que massacre foi esse?

BLEY: Aconteceu no dia 13 de Fevereiro de 1930. A Aliança Liberal promoveu um comício em Vitória, nas escadarias do Carmo. Após vários discursos incendiários, a polícia do Espírito Santo, atirou no meio da multidão, matando 4 pessoas e ferindo outras tantas. Isso mostra o despreparo da polícia e a deteriorização do governo.

REVISTA: Como estava a situação da polícia do Espírito santo?

BLEY: O 3° BC contava com efetivos reduzidos estava mal armado, havia poucos oficiais fiéis à legalidade. A maioria dos oficiais estava francamente favorável à revolução. Dentre estes destacavam-se o Tenente Euclides Lins, Intendente e representante da revolução, e o Tenente Carlos Marciano de Medeiros. Na Polícia Militar o ambiente era ainda pior. Havia apenas duas companhias sediadas uma em Cachoeiro do Itapemirim e outra em Colatina. O próprio representante da corporação junto ao Quartel General, Tenente Nicanor Paiva, não escondia sua simpatia pela revolução. Havia dois "batalhões patrióticos" constituídos por operários recrutados por empreiteiros de estradas de rodagem sob promessa de roupa, alimentação e soldo problemático.

REVISTA: Estava portanto preparado o terreno para uma revolução?

BLEY: Três colunas mineiras ameaçavam invadir o Espírito Santo. Uma, agindo no eixo Guaçuí, Alegre e Cachoeiro de Itapemirim, sob o comando do Capitão Joaquim Magalhães Barata, estava formada por elementos da Polícia Militar de Minas e por civis recrutados por chefes políticos locais como Fernando de Abreu, Genaro Pinheiro, Dermeval Amaral, Adílio Valadão e outros. A outra, ao norte, mais numerosa, comandada pelo Coronel Otávio Campos do Amaral, da Polícia Militar de Minas Gerais, era constituída por policiais militares e por irregulares recrutados na zona do Rio Doce. Faziam parte também os civis Agliberto Pires, advogado de Colatina, Manoel Rocque, Ademar Távora (irmão de Juarez Távora), Mário Tavares e Manoel Vila, ex sargento do Exército. Essa coluna viria, através do eixo Exército. Essa coluna viria através do eixo Aimorés-Baixo, Guandu-Colatina, com vistas à ocupação da capital. A terceira coluna, bem mais modesta, comandada por João Calhau, chefe político em Ipanema, tinha como ponto de penetração Afonso Cláudio. Como vê, era sombrio o quadro que se apresentava ao Coronel José Armando. Mesmo assim, esse bondoso e compreensivo companheiro deu início ao cumprimento de sua missão. De comum acordo com os tenentes Carlos Medeiros e Euclides Lins, entrei em contato com o Major Flávio do Nascimento com base na nossa velha amizade. Foram, contudo, inúteis os meus esforços para convencer esse digno e honrado camarada para um levante do 3º BC. Ele sempre foi extremamente legalista. Decidimos então adiar o levante do 3º BC. Enquanto os tenentes Carlos Medeiros e Euclides Lins continuavam o movimento de desagregação do 3º BC, os tenentes Sady Martins Viana e Celso Lobo seguiram para Cachoeiro com instrução para facilitar a ocupação daquela cidade pela coluna Magalhães Barata. Ao Tenente Marroig, que representava o Capitão José Armando em Colatina foi recomendado para não opor nenhuma resistência à Coluna do Coronel Otávio Campos do Amaral. Enquanto isso, as tropas mineiras, já organizadas, aproximavam-se da fronteira com o estado. Pela manhã do dia 16, o presidente do Estado, Aristeu Aguiar, considerando a situação perdida, abandonou o palácio, com sua família, seguindo para a Europa, num cargueiro italiano — o Atlanta. Nesse mesmo dia, a Coluna Barata ocupava Cachoeiro de Itapemirim, sem quaisquer resistências. Propus então ao Coronel José Armando que assumisse o governo revolucionário rompendo com o governo federal. Esse concordou e passamos a acertar os detalhes, marcando, afinal, sua posse. Quando já chegávamos no portal do palácio, fomos interceptados por um mensageiro do telégrafo local que trazia um recado do palácio do Catete chamando o Coronel José Armando para uma conferência urgente. Insisti para que ele não atendesse tal convite e assumisse a interventoria revolucionária, como havíamos combinado. Ele porém respondeu-me: "Vamos ver primeiro o que é que o governo quer". Partimos, pois, para a sede do Correios. No outro lado da linha telegráfica estava o próprio Ministro da Guerra, General Nestor Sezefredo dos Passos. Ao nosso lado, preparado para receber a mensagem, o telegrafista João Gualberto de Almeida, simpático à causa revolucionária. Numa rápida mensagem, o ministro determinava ao Coronel José Armando que, em nome da Presidência da República, assumisse o governo legal do Estado e intensificasse a resistência contra o movimento revolucionário. Finalizando, felicitou-o "por sua promoção a General de Brigada". Voltei a insistir com o Coronel José Armando para que assumisse o governo revolucionário e não acatasse a ordem recebida. Ele limitou-se a dizer-me que já estava muito velho para perder aquela oportunidade de promoção. Por isso iria cumprir a missão que acabava de receber do Ministro da Guerra. Acompanhei-o até o palácio para a cerimônia de sua posse. Era dia 16 de Outubro. Depois da cerimônia ele me convidou para comandar a polícia. Respondi-lhe:

"Coronel, fiz tudo o que era possível para o senhor não assumir o governo legal, pois tinha certeza de que sua promoção era uma armadilha e que seu governo deveria durar no máximo 48 horas. Assim, com sua permissão, peço licença para reunir-me com nossos camaradas da Coluna Barata que, a essas alturas, deve estar ocupando Cachoeiro de Itapemirim". Contando ainda com nossa antiga camaradagem solicitei dele uma viatura. Ele colocou à minha disposição um automóvel de linha da Estrada de Ferro Leopoldina. Segui viagem em direção a Cachoeiro de Itapemirim lá chegando no mesmo dia — 16 de Outubro — por volta das 18 horas. A cidade estava ocupada pela Coluna do Coronel Barata. Convenci-o de que não havia necessidade de marchar contra a capital, pois esta já podia ser considerada reduto revolucionário. Assim ficou combinado que ele iria combater as forças legalistas em Campos, Estado do Rio de Janeiro. 

 

Fonte: Espírito Santo: História, realização: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES), ano 2016
Coleção Renato Pacheco nº 4
Autor: João Eurípedes Franklin Leal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2017

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