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Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte IV

João Punaro Bley

REVISTA: General, sabemos que o Espírito Santo é um estado essencialmente agrícola. E o senhor começou a governar em 1930, justamente quando havia uma grande crise no café. O que o senhor poderia nos contar a respeito da agricultura e especialmente do café, nesse período?

BLEY: No Espírito Santo só se plantava café. De 1931 a 1941, 93% da arrecadação do Espírito Santo era decorrente do café. O lavrador do Espírito Santo era viciado, ou é viciado, na cultura do café e não acredita na cultura rotativa. Todas as vezes que eu ia para o interior do Estado, recomendava ao prefeito que, em vez de discursos ou banquetes, marcasse uma reunião de lavradores para eu poder falar-lhes. Nessas reuniões eu sempre dizia que, sem abandonar o café, era preciso plantar todos os outros produtos, pois o Espírito Santo vendia o seu café e comprava de outros estados os demais produtos necessários à alimentação. Certa ocasião, um lavrador virou-se para mim e disse: "Capitão Bley, café é um pé de ouro. Eu não abandono o pé de ouro para cuidar de outros produtos".

Nossas exportações para outros estados da federação atingiram, entre 1931 e 1941, 1.142.382 cruzeiros. O café ocupa o primeiro lugar. Depois vem, com uma diferença enorme, a madeira. O cacau, o feijão, o milho, o arroz beneficiado quase não aparecem.

REVISTA: Que medidas foram tomadas no seu governo para incentivar a agricultura?

BLEY: Sem abandonarmos o nosso principal produto, o café, realizamos verdadeira cruzada em prol da policultura. De 1931 a 1942 foram despendidos 15.905 mil cruzeiros com o serviço da agricultura, incluindo compra de máquinas, combate à saúva, aquisição de plantas e sementes, produções agrícolas, compra de materiais diversos, construção de fábricas de industrialização da mandioca, compra de material de laboratório, beneficiamentos às propriedades agrícolas, programas da escola prática da agricultura, etc.

REVISTA: A criação do Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo, que deu origem ao BANESTES, foi também parte dessas medidas que o senhor tomou para incentivar a agricultura?

BLEY: Obra iniciada em 1930, desenvolvida pela patriótica orientação do governo provisório, teve o Espírito Santo um marco expressivo, assinalado pela criação do Instituto de Crédito Agrícola do Espírito Santo, mediante decreto-lei 6.627, de 1935. Dificuldades posteriores determinaram a transformação desta primeira ideia do plano no atual Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo.

REVISTA: General, a queima do café na década de 30 faz parte das medidas para incentivar a policultura?

BLEY: Não. Eu sempre fui contra a queima do café, sempre me revoltei contra essa medida, embora eu fosse pessoa de confiança do Presidente da República. Nunca compareci às fogueiras do café do Espírito Santo. Nunca peguei uma tocha para queimar um quilo de café do Espírito Santo. Sempre achei um absurdo. Principalmente porque queimava-se 45% da safra do Espírito Santo para atender aos interesses do Estado de São Paulo. Não existia super produção de café no Espírito Santo. Toda a produção era exportada. Com a queima, fomos obrigados a tirar da exportação 45% do café para poder ser queimado. Queriam equilibrar estatisticamente uma planta destruindo o fruto, em vez de destruir a planta, quando todo o ano a planta dá o mesmo fruto. A inflação do Brasil começou aí, com a queima do café do Brasil. Além do mais, agiam da maneira mais in-justa possível. O lavrador recebia apenas 5 cruzeiros por saca de café para ser queimado. Enquanto isso, o Departamento Nacional do Café gastava 9 cruzeiros para segurar o produto que ia ser queimado.

REVISTA: Quanto ao transporte dos produtos agrícolas, principalmente do café, havia muita dificuldade, não?

BLEY: O transporte do café da zona sul para Vitória, até a guerra era feito por pequenas lanchas de 150 toneladas. Essas saíam da Barra do Itapemirim, tocavam em Piúma, depois em Anchieta, em seguida tocavam em Guarapari, chegando finalmente em Vitória. Mais tarde, pela via férrea.

Em 1932 visitei Guarapari pela primeira vez. Para chegar lá, tive de ir de automóvel até Araçatiba e de lá tomar um cavalo. Viajei a cavalo durante 4 horas. Por incrível que pareça, em 1930 não havia integração entre norte e sul. O sistema rodoviário era dividido em dois grupos totalmente independentes. Um no norte, constituído por uma estrada que saía de Vitória, passando por Santa Leopoldina, Santa Tereza e chegando em Colatina. Outro grupo saía de Cachoeiro do Itapemirim e ia para Alegre e Guaçuí.

Fiz a ligação Vitória a Cachoeiro do Itapemirim em 1934. No período compreendido entre 1931 e 1942 gastou-se com a construção de estradas de rodagem a importância de 14.511.045 cruzeiros.

Não havia nenhuma estrada de rodagem ligando Vitória a São Mateus. A primeira vez que viajei para São Mateus, em 1932, parti de Vitória num automóvel que me levou até o final da estrada que liga Colatina a Nova Venécia. Esta tinha apenas 30 km de construção. Prossegui o resto da viagem a cavalo, levando dois dias e meio para chegar em Nova Venécia, viajando dentro da mata do Rio Doce. De Nova Venécia a São Mateus segui de trem, pela Estrada de Ferro de São Mateus. O trem, apesar de ser especial, descarrilou 5 vezes. O transcurso de volta foi feito por mar, numa embarcação de 150 toneladas. Só não naufraguei porque Deus não quis. Somente depois de 1940 é que consegui ligar Vitória a São Mateus. E observem que é o município mais antigo do Espírito Santo.

REVISTA: As pontes de Colatina e Linhares, quem as construiu?

BLEY: A ponte de Colatina é obra de Florentino Avidos. Foi construída para estrada de ferro e eu fiz uma grande reforma adaptando-a para estrada de rodagem, permitindo assim a penetração do norte do Rio Doce para Colatina. Quanto à ponte do sul, a Getúlio Vargas, foi obra do Jones dos Santos Neves.

REVISTA: Essas obras foram importantes para o desbravamento. Foi no seu governo que se efetivou o desbravamento ao norte da margem do Rio Doce?

BLEY: O desbravamento do solo de Colatina começou no governo Avidos através de uma companhia especial que loteou grandes áreas na região entre Colatina e São Mateus. Foi lá também que, no governo de Aristeu Aguiar, apareceu uma colonização polonesa, pessimamente preparada, tendo fracassado inteiramente. Depois, no meu governo é que começou a penetração mais importante. 

 

Fonte: Espírito Santo: História, realização: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES), ano 2016
Coleção Renato Pacheco nº 4
Autor: João Eurípedes Franklin Leal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2017

Entrevistas

Educação e Cultura - Mediador: Luiz Carlos de Almeida Lima

Educação e Cultura - Mediador: Luiz Carlos de Almeida Lima

Agostino Lazzaro é diretor do Arquivo Público Estadual, cientista social e, também ator, contista e poeta. Sonia Barreto é escritora, historiadora e professora universitária, membro da Academia Feminina de letras do ES

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