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Escadaria Maria Ortiz (ex-ladeira do Pelourinho) – Por Elmo Elton

Escadaria Maria Ortiz, 1963 - Fonte: Paulo Venicio de Aguiar Jr

A vila de Vitória, principal centro da capitania, passara a ser alvo da cobiça de corsários holandeses, tanto assim que, a 12 de março de 1625, seus habitantes tiveram a surpresa de ver desembarcados nesta ilha o almirante Pieter Heyn e seus companheiros de pirataria. Heyn já havia sido preso, anos antes, e levado à Bahia de Todos os Santos, daí conseguindo fugir e prosseguir em seus saques por mares do Brasil.

Chegara ao Espírito Santo orientado pelo flamengo Rodrigo Paulo, casado com mulher portuguesa, residente na capitania. Sua permanência aqui, durante quase uma semana, no entanto, não logrou êxito, visto a repulsa dos nativos, que, comandados por Francisco de Aguiar Coutinho, moveram guerra, resultando, dessa luta, a morte de trinta e oito holandeses, sendo muitos os que retornaram feridos em seus galeões.

Houve momento, porém, em que os corsários pareciam levar a melhor, e foi justamente nessa ocasião que, ao tentarem conquistar a parte da vila, sofreram inesperada derrota. Iam subindo estreita rampa, depois ladeira do Pelourinho, quando uma jovem chamada Maria Ortiz, da janela do sobrado onde morava, os enfrenta de modo imprevisto, original, lançando sobre eles tachos de água fervente. Isto feito toma de um tição e põe fogo numa das peças bélicas de que se serviam os inimigos, encoraja os ilhéus para que lutem com mais destemor, de modo a expulsar, de vez, os assaltantes.

Seguindo o exemplo da valente heroína, seus vizinhos, também, já agora, atiram sobre os holandeses não só água fervente, mas pedras, brasas, paus, o diabo, e tão resolutos se tornaram no combate, de tal jeito os perseguiam, que os holandeses, afinal derrotados, retornaram a seus galeões, ancorados na baía, e de lá se foram, mar afora, em busca, naturalmente, de novas aventuras...

Maria Ortiz era filha de Juan Orty y Ortiz e Carolina Darico, chegados à capitania do Espírito Santo, em 1601, numa das imigrações promovidas por Felipe III, após a passagem de Portugal e colônias para o domínio espanhol (1581). Nasceu em Vitória em 1603, tendo falecido na vila em 1646.

Quanto a Piet Heyn (Piet Pietersz Heyn), "tratava-se de um dos mais notáveis almirantes holandeses. Nasceu em Delfshaven, a 15 de novembro de 1577. Entrou no serviço da Companhia das Índias Ocidentais, em 1623, como vice-almirante. Em 1628, tomou a famosa Armada Espanhola de Prata, perto da baía de Matanza, e chegou à mesma baía. A Armada seguia, do México, para a Espanha. O feito perdura numa canção popular holandesa. Morreu. na batalha naval de Dungeness, a 18 de junho de 1629, em combate à Inglaterra. Contava 52 anos de idade".

Maria Ortiz, após seu feito em defesa da ilha de Vitória até os dias presentes, tem seu nome reverenciado pelos capixabas, tanto que, em 1899. quando a Câmara Municipal, pelo decreto n° 65, de 8 de julho, mandou colocar placas em todos os becos, ruas, cais, e travessas, também numerar os prédios urbanos, Peçanha Póvoa pediu que fosse mudado o nome da ladeira do Pelourinho(1), para ladeira Maria Ortiz, no que foi atendido, sendo que idêntica solicitação já o fizera antes, isto é, a 13 de novembro de 1883, o vereador Passos Costa Júnior.

No governo de Florentino Avidos, a referida ladeira, estreita e íngreme, transformou-se na bonita Escadaria Maria Ortiz, inaugurada a 15 de novembro de 1924, colocando-se, no seu primeiro lance, placa de bronze com estes dizeres: Serviço de Melhoramento de Vitória — Obra executada no Governo do Exmo. Sr. Dr. Florentino Avidos — Eng° civil — 1924-1928.

O projeto da escadaria é de autoria do engenheiro Henrique de Novaes, sendo executantes Polliti, Derenzi & Cia. Custou trinta e nove contos de réis.

Ladeavam o logradouro belas residências, todas de dois andares, sendo a mais elegante a de Hildebrando Resemini, o interior decorado com móveis franceses e quadros de pintores italianos.

Infelizmente, com a demolição dessas residências, já agora ladeiam a escadaria edifícios que se desarmonizam com a obra, de jeito que a mesma ora se apresenta como que espremida em meio às recentes construções, seus degraus, de pedra lavada, quase todos apresentando rachaduras, quando não quebrados ou fora de nível, isto em decorrência do transporte de material pesado e pelo descuido de seus transportes, durante as novas construções.

 

NOTAS

(1) Chamou-se, também, ladeira da Assembléia, da Cadeia e do Trapiche, porque, à beira-mar, no local em que hoje se encontra a Casa Helal, existiu um armazém de carga.

 

Fonte: Logradouros antigos de Vitória, 1999 – EDUFES, Secretaria Municipal de Cultura
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2017

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