Morro do Moreno: Desde 1535
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Estranhos hábitos Portugueses

Luiz XIV

A desobediência e a preguiça no desenvolvimento dos trabalhos de levantamento das moradias inaugurais e abertura de clareiras na densa mata para receberem as primeiras culturas de subsistência levariam capitão-mor a autorizar aos seus lugar-tenentes agirem com severidade em caso de descumprimento de ordens dadas a esses trabalhadores semi-escravizados. O castigo mais temido por eles era o banho de mar forçado, estando vestidos em seus trajes maltrapilhos. Nem era um banho propriamente dito e sim um lançamento ao mar.

É bom lembrar que entre os portugueses, como a maioria dos europeus sem exceção, até o começo do século XVIII ou um pouco mais, o hábito do banho não era cultivado quanto mais entre os serviçais. O máximo que poderiam fazer seria um escalda-pés, assim mesmo como remédio. Para melhorarem o aspecto, trocavam uma roupa por outra menos suja ou por uma nova. Disso já se fizeram registros dizendo-se dos nobres: “bem vestidos, mas fedorentos!”

E os nossos descobridores não escaparam à regra quase que geral. Já os franceses, na mesma situação, criaram perfumes mais fortes, concentrados e duradouros, feitos com essências importadas das Índias. Alimentavam, esses povos, a crendice de que o banho era prejudicial ao corpo e à saúde, orientados pelos doutores da época, segundo os quais a limpeza da pele proporcionaria a abertura dos poros e assim livre entrada às doenças. Sem o banho a epiderme virava um blindado coscorão. Como pensar nesses povos explorando a sexualidade? Com certeza, o ato sexual não teria o mesmo encanto, os mesmos jogos preliminares que hoje se fazem presentes até a consumação. Estava mais voltado para o período fértil da fêmea quando ela se mostrava mais ardente. O cio, por assim dizer. O macho, como um animal irracional, percebia, com o seu faro, o momento propício ao acasalamento com a fêmea mais receptiva.

Por certo o cheiro que homem e mulher exalavam funcionariam como um tempero, um atrativo para que melhor se entendessem nas suas relações amorosas. Não desfrutavam eles, cremos, do mesmo fetiche de hoje, do prazer proporcionado por uma pele limpa, macia, asseada, cheirosa, numa simbiose envolvente dos corpos enlevando até a alma, morada certa do prazer, do amor sensual, característica que diferencia do homem do animal irracional.
Ainda sobre os nobres, com relação ao seu comportamento, ao trato e asseio dos seus corpos, alguns pesquisadores abordaram esse assunto mencionando algumas personalidades. É o caso de Elizabeth I, rainha da Inglaterra por volta dos anos de 1563 a 1603. Contam que essa soberana tinha por hábito tomar banho uma vez por mês, e que por esse costume, considerado extravagante, chamava a atenção na corte. De Luiz XIII, da França, contam ter tomado o seu primeiro banho aos sete anos de idade, enquanto Luiz XIV, por recomendação médica, teria feito isso somente aos oito anos. Há registros de que Luiz XIV teria interrompido esse banho acometido de forte dor de cabeça. No entanto, segundo informam os pesquisadores, as crianças nobres trocavam de roupas diariamente e até três vezes por dia.

Luiz XIV, quando apresentado pelo seu pai, Luiz XIII, à noiva que no futuro dividiria com ele o trono da França, exalaria um forte mau cheiro, fazendo com que a moça desmaiasse durante a apresentação formal. Os interessados na formalização do compromisso trataram de abrandar o vexame, atribuindo o desmaio da noiva à surpresa que tivera com a elegância e desenvoltura do noivo.

Considerando essas informações é de pensar que o castigo a que nos referimos, infligido aos que desobedeciam às ordens dos seus mandantes, era considerado por demais severo. O castigo deveria ser, além de doloroso, humilhante.

Os nossos colonizadores, longe da corte de Portugal, preconizaram o banho como uma terapia saudável ao corpo. Nisso, miraram-se nos primeiros habitantes de nossa terra, os índios. Constataram, ao trazê-lo mais para perto de si, com a dominação deles, pela catequese e ainda como serviçais, que os índios tomavam banho até mais de uma vez por dia, dependendo da sua vontade ou por conta do calor. Serviam-se da água doce abundante destes brasis, nos rios, igarapés, corredeiras, lagos e na água em queda das cachoeiras. Nem por isso eram acometidos de males maiores. Pelo contrário. Muito fortes, troncudos, nus, tinham suas peles expostas limpas e luzidias, enquanto os portugueses, embaixo de roupas suarentas, mal lavadas, conservavam suas epidermes sujas, sensíveis ao sol e de odor nada agradável. Aos poucos foram aderindo a estes hábitos salutares, mesmo que do sabão não fizessem uso.

É de pensar no pavor desses trabalhadores colonos, na condição de semi-escravos, obrigados a banhos por lançamento na prainha de Vila Velha, isso em 1535. Na reincidência, o banho seria infligido com os individuas completamente nus. As vestes lhes seriam arrancadas à força, na praia e na presença de quantas pessoas lá estivessem. A determinação passou a ser cumprida. E não tardou muito que um desses infelizes castigados caísse na desgraça da reincidência. Sem dó nem piedade, com espectadores mórbidos e exultantes, num balanço seguido de forte impulso, foi o sentenciado atirado ao mar como viera ao mundo – nu.

Conta-se que, nem bem submergiu, subiu rápido agarrado a uma espessa camada de algas que instintivamente, por pudor, puxou para cobrir os seus órgãos genitais. O seu gesto pudico causou-lhe imensa dor, o que teria demonstrado num gripo lancinante. Ao comprimir as algas contra o seu porco nas suas partes íntimas, comprimira também um punhado de camarões que nessas algas tinham o seu habitat.

O que lhe provocou a dor foram as lancetas afiadíssimas e penetrantes que estão dispostas sobre as cabeças desses crustáceos. Um desses camarões foi arrancado pelo pobre homem da sua virilha e mostrado como prova da descoberta involuntária que fizera. A notícia logo se espalhou e não demorou muito para que os moradores da nova terra acrescentassem ao seu modesto cardápio o saboroso camarão de água salgada. Esses camarões poderiam ser saboreados pelos moradores de Vila Velha ainda hoje, mesmo que em menor quantidade pela continuada pesca, não fosse o aterro da Prainha a pretexto do desassoreamento do canal em direção à baía e ao porto de Vitória.

 

Fonte: Ecos de Vila Velha, 2001
Autor: José Anchieta de Setúbal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2012

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