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Estudos sobre a descoberta da Província - Parte II

Estudos sobre a descoberta da Província do ES - Parte II

A 10 de junho de 1503, parte de Lisboa uma frota composta de seis caravelas, tendo por comandante Cristóvão Jaques, a vir explorar toda a costa do Brasil; pois que el-rei D. Manoel, achando-se muitíssimo satisfeito com o resultado que tirara da primeira expedição vinda a terras do Brasil, de que fora comandante Gonçalo Coelho, resolvera a mandar esta para melhor verificar as novas descobertas.

Conquanto haja divergência em alguns cronistas sobre a data da partida de Cristóvão Jaques, assim como se viera primeiro que Gonçalo Coelho, hoje está suficientemente provado por historiadores que disso se têm ocupado, em que fora esta justamente a época da partida do insigne viajante, pelos maços e manuscritos encontrados na Torre do Tombo, por onde se verifica ser esta a verdadeira data de sua partida.

Américo Vespúcio ainda veio nesta frota, e é ele que relata os resultados e explorações desta segunda expedição.

Tendo, pois, partido as caravelas de Lisboa vieram em direitura a Cabo Verde, onde se demoraram treze dias, no fim dos quais continuaram a derrota em rumo do sudoeste.

Cristóvão Jaques, que passa por ter sido homem de muita presunção e teimoso, quis que a frota se dirigisse para Serra Leoa, na então Etiópia Meridional, para fazer o reconhecimento desta costa, contra a opinião de todos os outros capitães das caravelas, que negavam essa necessidade e ser prejudicial à expedição, por péssima a época para uma tal verificação. Com efeito, não sendo favorável a estação, sofreu a frota um temporal terrível, que a ia perdendo, tendo de voltar a tomar rumo em direitura ao ponto de viagem a que se tinha destinado, isto é, em rumo de sudoeste.

Depois de mais de 900 milhas de navegação, descobriram os navegantes, cerca de 3º de latitude sul, no meio do oceano, uma ilha desabitada, e com duas léguas pouco mais ou menos de comprimento, sobre uma de largura, tendo batido sobre os arrecifes da mesma a caravela São Lourenço, que espedaçou-se, salvando-se unicamente a equipagem, mas perdendo-se todas as provisões.

Esta ilha é, segundo se colige, a de Fernando de Noronha, e que Vespúcio a explorara por ordem de Cristóvão Jaques, achando nela bom ancoradouro e excelente água, havendo aí muitíssimos pássaros.

Tornando ao mar, Américo Vespúcio não pôde encontrar os navios, e só no fim de nove dias é que encontrou-se com uma das caravelas, a que era do comandante; caminhando então juntas, porque assim tinham de proceder, segundo as instruções que haviam recebido, que ordenavam a prosseguirem unidos para a terra que Américo Vespúcio, em sua antecedente viagem com Gonçalo Coelho, tinha visto.

Surgiu pois a frota, pouco mais ou menos no dia que indicamos, e que com certeza não podemos afiançar ser a 14 de outubro do mesmo ano, a 6º de latitude sul, na baía da Traição; daí desceram as duas caravelas no mesmo rumo, tendo a costa sempre à vista, e verificando seus pontos principais.

No 1º de novembro, depois de uma viagem de dezessete dias da saída da baía da Traição, encontraram as duas caravelas em que iam Cristóvão Jaques e Américo Vespúcio a baía de Todos os Santos, assim por eles denominada em honra deste dia, em que a Igreja celebra a festividade de Todos os Santos. Aqui ficaram estacionados por dois meses e quatro dias, à espera que aparecesse o restante das caravelas que se haviam separado, e das quais nunca mais delas se houve notícia.

Finalizou este ano com a demora das duas caravelas na Bahia, no lugar acima dito, e onde foi assentado o segundo padrão com as quinas de Portugal, segundo o Sr. José de Vasconcelos, e que o mesmo Vespúcio diz no seu roteiro.

Há a notar a vinda neste ano de Afonso de Albuquerque às costas do Brasil, o qual tendo saído a 6 de abril, comandando uma esquadra com direção à Índia, aqui chegou, não havendo notícia alguma do porto em que tocara, nem tão pouco o que vira no país, pois nada existe a respeito desta viagem.

Chegamos ao ano de 1504, em que Cristóvão Jaques, vendo que não apareciam as três caravelas, mandou a 4 de janeiro levantar ferros aos dois navios e fazendo-se de vela deixou a baía de Todos os Santos; e desceu para o sul, sempre unido à costa, observando e verificando-a, vindo surgir a 16º de latitude sul e 30º de longitude ocidental do meridiano de Lisboa, no lugar em que estivera Cabral em 1500, quando descobrira o Brasil, e a que dera o nome de Porto Seguro, que ainda hoje é conservado.

Demoraram-se aí as duas caravelas seguramente cinco meses, reparando avarias e fazendo Cristóvão Jaques construir um forte em terra, à beira-mar, no qual deixou dois frades franciscanos e vinte e quatro homens da caravela São Lourenço, que se perdera nos recifes da ilha de Fernando de Noronha, assim como doze peças de artilharia, munições e provisões para seis meses. Esta guarnição entrou, sem obstáculo dos indígenas, no interior do país, voltando carregada de objetos os mais curiosos.

Há um engano a sanar-se na história, e é que, a 16 deste mês, fez el-rei D. Manoel a primeira doação de terras do Brasil, e foi a da ilha de São João, que se diz ser a de Fernando de Noronha, feita a um cavalheiro fidalgo por nome Fernão Noronha, rezando a própria carta de doação ser ele o seu descobridor, quando não há notícia alguma de como ele a descobriu, e só dela se faz menção no relatório de Américo Vespúcio em sua segunda viagem com Cristóvão Jaques, na ocasião em que se perdera a caravela São Lourenço. Mas seja ou não exata esta circunstância, prossigamos no que nos convém provar.

A 28 de junho, depois de preparadas e providas as caravelas, mandou Cristóvão Jaques levantar âncoras e fez-se na mesma derrota de rumo de sul, percorrendo toda a costa e tocando em muitas paragens, fazendo o reconhecimento de rios, baías e enseadas, fincando marcos em diferentes pontos, iguais aos dois que havia colocado na baía da Traição e na de Todos os Santos.

Ancoraram as caravelas em muitos lugares, tomando-se notas dos pontos principais e fazendo-se exames deles, segundo as instruções que se havia recebido de el-rei D. Manoel.

Cristóvão Jaques, depois de haver percorrido toda a costa do Brasil, feito sondagens e reconhecimentos em toda ela, sempre em derrota de sul, prosseguiu sua navegação até o cabo das Virgens no estreito de Magalhães, depois, voltando, carregou as duas caravelas de pau-brasil, o que fez dar este nome às terras de Santa Cruz, em consequência desta importante mercadoria. Seguiu depois para Portugal a dar conta de sua missão.

Como se vê, Cristóvão Jaques percorreu para o sul toda a costa brasílica desde a baía da Traição, reconhecendo todos os pontos que se lhe ofereciam à vista, assentando marcos nos mais necessários, para provar a possessão de Portugal, o que faz com que se reconheça ser ele o primeiro navegante que tocou nesta província.

Reservamos para lugar competente as provas cabais de nossas asserções, o que aqui não demonstramos, por só termos em vista a comprovação dos navegantes que de 1500 a 1535 chegaram ou tocaram as nossas plagas.

Em 1507, tendo saído de Lisboa com destino à Índia D. Francisco de Menezes, que vinha por comandante de uma frota que para ali se destinava, aproximou-se da costa brasileira, tendo-a à vista por alguns dias, mas não tocando em ponto algum, segundo confirmam vários cronistas.

No ano de 1506 três navegantes chegaram ao Brasil, e foram Tristão da Cunha, que em viagem para a Índia aproximou-se de Pernambuco, costeando-o e tão próximo que descobriu e mesmo talvez reconheceu o rio que denominou de São Sebastião; mas que, por não ter determinado a latitude, é hoje desconhecido, e a que havia dado tal nome, não tendo ultrapassado esse ponto entre 7º a 9º de latitude.

Os dois exploradores portugueses de nomes João de Lisboa e Vasco Galego de Carvalho vieram diretamente ao Brasil neste mesmo ano: João de Lisboa só tocou o extremo sul deste império, tendo subido o rio da Prata até a distância de 900 milhas. Vasco Galego veio ter ao cabo de Santa Maria, tendo-o dobrado sobre o lado oriental, e costeado até chegar à embocadura do rio Uruguai, que reconheceu.

Nenhum destes navegantes conheceu a costa desta província.

Tendo o rei de Castela, Granada e Aragão, D. Fernando V, resolvido mandar prosseguir na descoberta de terras da América, para o sul, e das quais se veio a apossar, enviou dois intrépidos navegantes espanhóis a fazer esta exploração, mas, com ordem de não se demorarem em lugar algum; somente fazendo os respectivos reconhecimentos das terras que descobrissem, seus portos, baías e rios, avisando ao rei sobre a melhor maneira de se poderem povoar os lugares descobertos. Foram este navegantes João Dias de Solis e Vicente Yáñez Pinzón, que nos deixaram alguns dados a respeito.

Estavam determinadas aos dois navegantes as suas respectivas obrigações, tendo Solis o direito de marcar o rumo a se tomar, cumprindo no entanto consultar a Pinzón e aos outros pilotos, e devendo os navios chegar todos os dias à fala, pela manhã e à tarde, pelo motivo da ambição que havia de querer cada um, de per si, fazer descobertas, fugindo de prestarem obediência aos comandantes das frotas, trazendo com isso graves desinteligências e o não sujeitarem-se, como deviam, às ordens dos chefes, fugindo ao trabalho, pela glória que desejavam ter de haverem descoberto qualquer paragem.

A Solis ainda competia o direito de levar o respectivo farol enquanto embarcado. Em terra era devolvido a Pinzón o comando, pelo que, antes de partirem de Sevilha, haviam perante um tabelião concordado nos sinais a fazerem e certos direitos que lhes competiam.

Ainda tinham ordem de, nem na vinda nem na volta, desembarcarem ou tocarem em terras pertencentes à coroa portuguesa; como também, só na volta da expedição podiam permutar e formar estabelecimentos nas terras que houvessem descoberto.

Eram duas as caravelas partidas, sob os comandos de Solis e Pinzón, vindo em rumo de sudoeste, alcançando o cabo de Santo Agostinho a 8º 20’ 41” de latitude e 37º 16’ 57” de longitude ocidental; dobraram-no em rumo de sul, costeando toda a terra abaixo no mesmo rumo até 40º, desembarcando em alguns portos e enseadas, erigindo cruzes, e tomando posse de quase toda a nossa costa para a coroa de Castela e Aragão.

Felizmente para nós, entre os dois comandantes se deram tais dissensões, que viram-se obrigados a voltar sem quase nada ter-se aproveitado desta viagem; resultou ainda, em sua volta, ser examinado com o maior escrúpulo o proceder e conduta de ambos pela Casa da Contratação, que absolveu Yáñez Pinzón e condenou à prisão a João Dias de Solis.

Querem alguns historiadores que esta expedição tocasse em terras desta província, o que não duvidamos; mas também a esse respeito nada há de positivo, nem vem destruir que fosse Cristóvão Jaques o primeiro que tocasse e reconhecesse as costas da província e seus portos.

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2019

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