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Eurico Rezende

Eurico Rezende

Transcorria o ano eleitoral de 1954 e, em meio à ebulição política de época, o recinto da Assembléia Legislativa do Estado mostrava-se em certo dia tão agitado e tenso que o ar parecia carregado de eletricidade. A explosão poderia dar-se a qualquer momento. As galerias superlotadas, nervosismo por parte dos deputados, apreensão notória do circunspecto presidente dos trabalhos, deputado estadual Jeferson de Aguiar, do PSD. Ele seria o Juiz de uma luta em que as palavras ribombariam como tiros de pesada artilharia. Ou os golpes seriam desferidos por hábeis pugilistas do vernáculo. Numa tribuna EURICO VIEIRA DE REZENDE, da chamada “UDN esparadrapo”; na outra, o fogoso “quebra louças de Muqui”, o deputado pelo PSD, DIRCEU CARDOSO.

No plenário, o zumbido de uma platéia de notáveis representantes do povo: Otaviano Santos, Judith Castelo Leão Ribeiro, Oswaldo Zanello, Clóvis Stenzel, José Cupertino Leite de Almeida, Floriano Lopes Rubim, Custódio Tristão, Benjamim de Barros, dentre outros.

O embate entre estes dois gigantes da palavra jamais foi esquecido. Passado o vendaval das brilhantes e empolgantes atuações, a assistência prorrompeu em palmas. Os dois oradores, Eurico e Dirceu desceram de suas tribunas empatados, mas não vencidos, lembrando o momento em que o notável Mirabeau, em plena Assembléia Revolucionária da França, deixava entre delirantes aplausos o recinto da Casa da Nação, depois de ter proclamado que a força da opinião pública penetrava pela caverna escancarada pelos ventos do medo, para tentar ferir como um punhal o coração sagrado de uma vítima inocente e indefesa.

Depois, ao longo do tempo, em outro cenário, em Brasília, novamente defrontavam-se os dois gigantes capixabas: DIRCEU CARDOSO do alto da Tribuna da oposição, senador pelo MDB, a gritar que “O maior partido do Ocidente, continuava pretendendo exterminar a pobreza com sua tirania amaldiçoada”. Do outro lado, líder da ARENA no Senado, seu velho rival, EURICO REZENDE, o aparteia proclamando: “A nobre oposição age às cegas, com o notório e condenável propósito de se fazer de única defensora do povo, como se do seu seio tivesse nascido, sendo que é a este mesmo povo que acaba ferindo com suas catilinárias cheias de intrigas e de venenos”.

Finalmente, mais recentemente, já consagrado por uma vida pública rica de relevantes episódios de fidelidade política e partidária, de serviços prestados e de dever cumprido, EURICO REZENDE, como Governador do Estado, surpreendendo até mesmo seus mais ferrenhos adversários, usando a tribuna do povo em praça pública, prometeu: “Não há força na terra que me faça mudar a rota de defesa dos dispositivos constitucionais contra a mácula, a improbidade e a orgia da corrupção que possa haver em qualquer lugar da administração pública. Nesta batalha, lembrou o Governador, “não tenho amigos, nem parentes, nem correligionários”. Uma atitude corajosa que define o político que começou sua juventude na oposição, que atravessou o fogo cruzado de difíceis batalhas contra a vida e que chegou ao clímax de sua carreira, com o mesmo ideal, de peito aberto, em defesa da “eterna vigilância da UDN, o preço da liberdade”, da qual todos, então dependiam.

EURICO VIEIRA DE REZENDE, filho de Leôncio Vieira de Rezende (falecido) e ACEDÁLIA CARNEIRO DE REZENDE, nasceu no dia 22 de agosto de 1918, na cidade de Ubá, Minas Gerais, radicando-se com sua família no Espírito Santo desde os quatro anos de idade.

No ano distante de 1930, época em que EURICO tinha então 12 anos, veio a Revolução. O coronel Leôncio, seu pai, que exercia a função de coletor estadual em Alegre perdeu o emprego. Sem outro meio de vida, chamou os filhos e lhes disse que teriam que deixar os estudos. EURICO mesmo consciente das dificuldades e dos motivos justos alegados pelo pai, não se conformou. Não abdicaria do desejo de continuar estudando. Era essencial para quem, como ele, obstinado farejador do destino, prosseguir seguindo aquele caminho. Procurou então o padre Júlio Billot e pediu sua ajuda, pois não queria interromper o seu curso ginasial. O sacerdote amparou-o, ensinando-lhe o ofício de sacristão e, como os pequenos ganhos provenientes de batizados ou casamentos, conseguiu continuar estudando. Os demais membros de sua família se transferiram para Santa Bárbara do Caparaó, hoje distrito de Ibitirama. Para EURICO REZENDE, este episódio traçou definitivamente o curso do seu futuro, pois não houvesse superado tal período crítico, não teria depois colhido as oportunidades que se descortinaram diante dele. Assim, graças à ajuda do padre Júlio Billot, do qual ele lembra até hoje com saudades, terminou seus estudos no Ginásio de Alegre.

Com 21 anos de idade, casou-se com a Sra. Maria Ribeiro de Rezende, tendo com ela os seguintes filhos: Egle Rezende valente, advogada, casada; Rezende Ribeiro de Rezende, casado, reitor da Universidade do Distrito Federal; Marília de Rezende Scarton Coutinho (falecida); Eduardo Ribeiro de Rezende, casado, comerciante; Solange Ribeiro de Rezende, casada, escriturária; Eurico Rezende Filho, estudante e Andréa Ribeiro de Rezende, estudante.

Na época do casamento, sua mulher, Maria, tinha 19 anos e era pobre, órfã de pai e mãe, enquanto que ele secretariava o Ginásio Irmãos Carneiro, em Guaçuí, ganhando 30 contos de réis por mês. Nas vésperas de casar-se, EURICO, mandou para sua futura casa, a grande mala onde guardava seus pertences que, na época, os antigos chamavam de “canastra”. Maria, sua noiva, resolveu abrir o grande artefato na esperança de encontrar ali muita coisa de valor. Pura decepção: só havia no interior da mala uma grande quantidade de livros e, de roupas, somente um terno, dois pares de meias, duas camisas, três lenços e duas cuecas.

A rotina nunca entrou nos planos de EURICO REZENDE. Assim ele ingressou na Faculdade e formou-se em Direito, dando preferência a advocacia criminal. Mas teve que misturar a profissão com a política (exercendo o mandato de deputado estadual) e, paradoxalmente, embora tendo uma das maiores bancas de advocacias do Espírito Santo, a renda era quase nenhuma, em face de, como político, ser forçado a advogar gratuitamente. Realizou, então, 149 júris, ampliou seu relacionamento com a opinião pública, muito atenta na época aos Julgamentos do Tribunal Popular. Candidato em 1958 ao Governo do Estado não se elegeu. Em 1962 tentou novamente o confronto com as urnas, elegendo-se senador. Mesmo antes de iniciar seus trabalhos parlamentares em Brasília, montou seu escritório de advocacia, onde lhe foi possível cobrar o que merecia por seus serviços. E levou uma vantagem muito grande no seu entender: era o único criminalista no Senado naquela época. Daí ser constante seus colegas senadores, quando procurados por amigos do Estado, encaminharem para o escritório de EURICO muitos clientes. Sua atuação transportou-se para o Supremo Tribunal Federal, para o Tribunal de Recursos e para o Tribunal de Justiça. Realizou no país, como advogado de defesa, júris de realce, sendo contratado também, para formular petições de habeas corpus e pareceres no setor penal. Graças a esta transformação, a partir de então começou a alcançar estabilidade econômica, que para ele, pessoalmente, teve importância relativa, mas propiciou a oportunidade de satisfazer os anseios de conforto de sua família.

Quando se é político, se chegou a percorrer os mais duros e difíceis caminhos, se lidou com tanta gente, é comum guardar recordações de pessoas, de amigos, de conhecidos, de simples eleitores. É o que acontece com EURICO REZENDE que se orgulha de possuir pelo menos 200 mil amigos de sua vida pública, contados na população das urnas eleitorais. Quanto a amigos, na verdadeira e autêntica concepção de afeto, não são muito numerosos, motivo por que EURICO prefere não citá-los nominalmente, coagido pelo natural constrangimento de fazê-lo, ou por pensar como São Francisco de Salles: “É preferível que em nosso jardim haja espinhos, pelo fato de haver rosas, do que não haver rosas, para que não haja espinhos”.

Mas quando alguém lhe pergunta quem ele considera muito importante em sua vida responde de pronto: “Minha mãe, uma heroína de 94 anos de idade, de lutas e sacrifícios”.

De que modo EURICO VIEIRA DE REZENDE começou a se tornar conhecido na Sociedade do Estado? Ele diz que foi através do jornalismo e do magistério, este último exercido a partir dos 17 anos de idade, o grande orgulho de sua vida e que se sublimou quando criou a Universidade do Distrito Federal sem qualquer auxílio do Poder Público e em decorrência do maior esforço de sua experiência, Foi o primeiro Instituto particular de ensino superior fundado na Capital da República, sempre conceituado e agora plenamente consolidado, atualmente entregue à competência do seu filho Rezende Ribeiro de Rezende, seu Reitor, provavelmente o mais jovem Reitor do país. Antes, dois mandatos de deputado estadual e depois, senador duas vezes consecutivas, obviamente, tornaram EURICO uma pessoa amplamente conhecida.

Profissionalmente, na sua concepção de como vencer na vida, acredita ser buscando os caminhos da competência, da exação no cumprimento do dever, da dedicação e da eficiência. Na vida pública, fazendo a lealdade e franqueza conviverem com a cordialidade e o calor humano. Mas, sobretudo, quando se é detentor de mandato eletivo, proceder com austeridade e, em casos de ofensa ao patrimônio coletivo, agir com extrema severidade, sem vacilações de espécie alguma e sem discriminar pessoas: finalmente, ser fiel, rigorosamente fiel, ao juramento constitucional. EURICO acrescenta ainda: conquista permanente do apreço e do respeito da opinião pública, pois esta sim é que decide a sorte dos políticos e não os partidos, simples mecanismos administrativos de organização, de arregimentação e de propaganda ideológica eleitoral, os quais, via de regra, não contam sequer com a filiação, em seus quadros, de 20% do eleitorado.

A vida de EURICO VIEIRA DE REZENDE tem duas raízes adentradas na chamada “Cidade Alta” de nossa Capital. Uma área geograficamente pequena, mas de imensa e decisiva importância para sua carreira política. Nos três históricos prédios ali existentes, a Escola Normal Pedro II, o Fórum (hoje modernizado) e a Assembléia Legislativa, um pertinho do outro – desenvolveram-se as ações mais relevantes do seu destino. Lecionou oito anos na Escola Normal, tornando-se conhecido de algumas gerações. Militou no Fórum longamente, realizando julgamentos populares de ampla repercussão. Em ambos casarões, o seu trabalho profissional tornou-se amplamente conhecido. E agora, está no velho prédio do Governo, cumprindo outra missão. Por esta razão, a “Cidade Alta” é para EURICO REZENDE uma espécie de retrato falado de sua caminhada pela vida pública, Ali estão as suas raízes mais fortes.

Para os curiosos, EURICO define o que seja status. Para ele, na acepção verdadeira, não porque o destaque, sob este ponto de vista, reside exclusivamente num enfoque de artificialismo. Prestígio sim, pode dar, na medida em que a pessoa cultive a desambição, traduzida pelo pensamento e pela ação voltados para um destino de utilidade social ou de amor ao próximo.

Vitorioso, realizado, certo de que pouca coisa terá ainda que acrescentar aos seus anseios pessoais, EURICO VIERA DE REZENDE, acredita que a esta altura da vida, quando Deus e os homens já lhe deram mais do que esperava ou merecia, o seu maior objetivo é envelhecer bem, prosseguindo com a mesma correção de sempre e buscando os horizontes da conciliação.

No silêncio do seu quarto, quando está só, medindo as graves e altas responsabilidades que recaem sobre seus ombros, EURICO REZENDE talvez adormeça repetindo a famosa oração do Almirante Hart, tão oportuna a esta altura de sua vida: “Dai-me força, Senhor, para aceitar com serenidade tudo o que não possa ser mudado. Dai-me coragem para mudar o que pode e deva ser mudado, e dai-me sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

EURICO VIEIRA DE REZENDE possui os seguintes títulos, distinções e condecorações nacionais e estrangeiros: Grande Benemérito da Faculdade de Direito de Colatina – ES; Sócio Benemérito da Santa Casa de Misericórdia de Vitória – ES; Cidadão Honorário dos Município de Vitória, Cachoeiro de Itapemirim, Guaçuí, Alegre, Colatina, Serra, Ecoporanga, Jerônimo Monteiro, Vila Velha, Barra de São Francisco, Itaguaçu, São José do Calçado e Baixo Guandu; Patrono dos Representantes Comerciais do Brasil; Medalha do Mérito Santos Dumont; Medalha General José Pessoa; Medalha de Serviços Prestados ao Projeto Rondon; Grande Oficial da Ordem do Rio Branco; Grande Medalha da Inconfidência, MG; Grande Benemérito da Orla Marítima do Brasil e Portuário Honorário; Grande Oficial da Ordem do Mérito do Congresso Nacional; Comenda Jerônimo Monteiro e Governador do Espírito Santo.

EURICO VIERA DE REZENDE exerceu durante sai vida profissional e política diversos cargos e funções, inclusive privadas, desde Professor e Secretário do Ginásio Irmãos Carneiro, em Guaçuí, ES; até Líder das Convenções nacionais da Aliança Renovadora Nacional – ARENA, como Membro do seu Diretório Nacional, sendo hoje organizador do PDS (Partido Democrático Social) no Espírito Santo.

Foi autor de diversos projetos que se tornaram leis, ostentando o título de maior apresentador de emendas ao projeto de Constituição de 1967 (70 emendas); com 34 aprovadas (igualmente o maior número), tendo publicado os seguintes trabalhos: Abutres da Habitação; A Revolução e o Brasil; A Revolução e o Ensino; A Revolução em Debate (Temas e Teimas); O Vereador, Esse Injustiçado; O Espírito Santo e a Constituição; O BID e o Brasil; O Professor de Direito e Debate Nacional.

Seu maior orgulho: Os netos: Liane, Renata, Walter Jr., Fábio, Cláudio, Gustavo, Danielle, Rodrigo, Renato, Victor, Pablo, André, Adriana, Janaína e Luana e o fato de já estar escalado para ser bisavô, cujo bisneto vem por aí, através de Liane e Marco Antonio Monjardim.

Os descendentes, dirá EURICO, são tesouros que damos orgulhosamente a nós mesmo.

 

Fonte: Personalidades do Espírito Santo, 1980
Autora: Maria Nilce e Juarez Magalhães
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2012 

 

 

 

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