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Excertos das Memórias de João Punaro Bley

Punaro Bley e a cúpula da Igreja

Transcrição das páginas 85 a 95 das Memórias de João Punaro Bley, a partir de fotocópia obtida junto ao CPDOC/FGV, onde o documento se encontra arquivado com a notação JPB d 00.00.00/2. Foram corrigidos os erros ortográficos e acrescentadas as palavras entre colchetes. A transcrição do “pacto de honra” foi cotejada com aquela existente em Marchini, Plínio. Bley, o último caudilho. Revista Capixaba, jun. 1968, ano II, nº 16 p. 20.

Com a eleição prevista para governadores, senadores, deputados federais e estaduais, a política passou novamente para primeiro plano.

Em agosto [de 1934] fui convidado para passar 3 dias em Cachoeiro do Itapemirim quando receberia grandes homenagens, que nada mais seriam que os pródomos do lançamento da minha [candidatura] ao governo constitucional do Espírito Santo.

Para lá seguimos com grande comitiva, realizando intenso programa: lançamento da pedra fundamental do edifício dos Correios e Telégrafos e da Maternidade da Santa Casa, inauguração do novo abastecimento de água e do grupo escolar “Quintiliano de Azevedo”, instalação de escola normal destinada a preparar professoras para a zona sul do Estado, etc.

No último dia da nossa estadia foi-me oferecido um banquete, a rigor, de 250 talheres, tendo falado levantando minha candidatura ao governo constitucional do Estado o prefeito Brício de Mesquita. Falei, agradecendo e fazendo longa prestação de contas do que já havia realizado. O brinde de honra a Getúlio foi feito por Dr. Francisco Gonçalves, já indicado deputado federal.

Em seguida ao banquete foi-nos oferecido um banquete [sic, baile] que reuniu toda a sociedade local.

Terminadas estas festas, realizei com Alzira verdadeira maratona. Viajamos de automóvel durante 10 dias percorrendo todos os municípios do sul do Estado, sem qualquer descanso, almoços, jantares, recepções, bailes, etc. se sucedendo. Só a mocidade permitiu-nos realizar esta façanha. Foi quando comecei a admirar a perícia dos motoristas que geralmente nos serviam, o Octavio, o Pedro, o Juca. Jamais tivemos qualquer acidente, nem mesmo um pneu furado.

Ao voltar à Vitória urgia tomar todas as providências para que o nosso partido se apresentasse coeso e com uma representação capaz de empolgar o eleitorado, de vez que o mesmo já estava novamente trabalhado por caravanas do nosso tradicional adversário o Partido da Lavoura.

Reuni nossa Comissão Executiva, secretários e prefeitos quando francamente expus o que pensava da futura governança do Estado.

Disse que não sendo espírito-santense, passada a fase da interventoria, achava mais natural que o Espírito Santo fosse governado por um dos seus filhos; que me achava largamente compensado pelas provas de carinho e de solidariedade que sempre recebera de todos. Terminei por dizer que ia retirar-me do recinto a fim de que os convencionais resolvessem com plena liberdade. Maior sinceridade, desprendimento e até ingenuidade não poderia haver. Bastaria que um dos convencionais pegasse na minha palavra e a situação seria outra, para felicidade minha. Tivesse deixado o governo após as eleições, teria voltado para o Exército, seguido minha carreira normalmente e não teria caído na compulsória como generalde-brigada.

Chamado, novamente, à sala, foi-me comunicado debaixo de palmas e vivas que a Convenção, por unanimidade, isto é sem um voto contra, havia homologado meu nome para futuro Governador do Estado, em consideração aos serviços que já havia prestado, bem como para manter a continuidade da obra que estava realizando. Aduziram, ainda, que o fato de não ser espírito-santense não tinha a menor importância, de vez que o estado, em épocas anteriores, já havia sido governado por fluminenses e mineiros.

Agradeci a prova de confiança que havia recebido, mas devia ter insistido nos meus propósitos originais, isto é de não aceitar a indicação do meu nome. Ainda pouco afeito a tricas políticas, acreditei na sinceridade de propósitos de muitos que me aclamavam, quando, na verdade, apenas acompanharam a maioria, como mais tarde foi dado verificar, porque precisavam do meu prestígio para se elegerem.

Em seguida, com relativa facilidade foi organizada a chapa completa, senadores, deputados federais e estaduais, com a qual o partido disputaria a eleição.

Como a eleição para governador e senadores fosse indireta, eleição pelos futuros deputados estaduais, ficou combinado, com extrema boa-fé, que o meu nome, os de Fernando de Abreu e Carlos Lindenberg, escolhidos para o Senado, seriam excluídos da chapa de deputados estaduais.

Contra esta decisão ingênua e até estúpida, protestou, muito acertadamente, Mário Freire, Secretário da Fazenda, o menos político dos presentes. Ponderou que ambos deveriam compor a chapa de deputados estaduais, eleitores que seriam deles próprios, providência acauteladora que não afetaria a composição da futura representação estadual, de vez que [com] a eleição de ambos para o Senado, as vagas seriam aproveitadas pelos suplentes. Proposta absolutamente certa e sensata foi unanimemente repelida, até pelos próprios interessados, que, afinal, acabaram por perder a senatoria, com adiante veremos.

Assim, no manifesto, que [foi] redigido por Jair Tovar, um dos futuros traidores, meu candidato pessoal a deputado federal, ficou bem claro que sendo a eleição para governador indireta, a escolha antecipada do meu nome para esse cargo seria uma espécie de plebiscito, pois se os eleitores dessem a vitória ao nosso partido, implicitamente estariam elegendo-me, através de um mandato imperativo conferido aos deputados estaduais.

Realizadas as eleições, na mais absoluta ordem e liberdade, tivemos uma magnífica e significativa vitória. Dos 4 deputados federais, elegemos 3: Francisco Gonçalves, Asdrúbal Soares e Jair Tovar e dos 25 deputados estaduais elegemos 16 e a oposição apenas 9.

Desse modo, minha eleição, como a de Carlos Lindenberg e Fernando de Abreu estavam mais que asseguradas e garantidas. Mas, assim não aconteceu, como veremos.

Logo que proclamada nossa vitória, viajei para o Rio, quando aceitei o convite de Odilon Braga, Ministro da Agricultura, para, em sua companhia e de vários parlamentares visitar a Escola de Agricultura de Viçosa, Minas Gerais, visita aliás bastante proveitosa, interessado que sempre estive em modificar a estrutura agrícola do Estado, sabidamente rotineira.

Quando reassumi o governo já começavam a circular os boatos de graves defecções no nosso partido.

Em dezembro, Alzira sempre interessada em obras sociais, realizou mais um Natal dos pobres e crianças de Vitória, desta vez com a afluência de 3.000 pessoas, as quais receberam roupas, agasalhos, gêneros alimentícios e brinquedos.

O ano de 1935, até minha eleição para governador, foi de intensa atividade política, com artigos dos mais soezes contra minha pessoa, tanto na imprensa de Vitória como na do Rio.

Logo em janeiro os boatos se confirmaram, com o rompimento espetacular de Asdrúbal Soares, logo apresentado como candidato ao governo do estado pelos deputados do Partido da Lavoura e por outro do Partido Proletário, Gilbert Gabeira, nome de triste memória pelas vezes que se vendeu, criando até na gíria popular o verbo “gabeirar”, ou seja, mudar de partido.

No manifesto que lançou, Asdrúbal Soares, torcendo verdades incontestes, assim explicou sua despudorada atitude:

“O interventor, na sua alta sabedoria política de dividir para reinar com a facilidade que a posição de comando lhe proporcionou, desde logo cindiu em dois campos distintos a agremiação partidária a que nos filiamos, estimulando rivalidades, criando divergências, como já vinha operando desde o início de sua investidura na direção do governo, sacrificando os melhores companheiros, a quem devia o posto que lhe confiamos”.

[...].

“Baldados todos os esforços, coerente com o programa do PSD, contrário a reeleições e com a diretriz da minha atuação política na vida pública do Estado, submissa apenas aos compromissos de servi-lo patrioticamente, divirjo hoje, publicamente, da candidatura do Sr. Capitão Bley à Presidência Constitucional do Estado” (Diário de Notícias, 8 [de] janeiro de 1935).

Quem era Asdrúbal Soares?

Era engenheiro da Prefeitura de Vitória quando do governo Aristeu Aguiar.

Tornou-se “revolucionário” porque foi buscar de automóvel na estação de Viana José Lindenberg, Wolmar e Pio Borges, que vinham do Rio para levantar o 3º B. C., em outubro de 1930.

José Lindenberg foi preso e recambiado para o Rio pelos seus parentes, sobrinho que era do então senador Florentino Avidos. Wolmar e Pio Borges, como já vimos, fugiram e foram se homiziar na casa de um pescador, até a fuga de Aristeu Aguiar.

Ele, Asdrúbal, filho do desembargador aposentado Josias Soares, comensal de todos os governos, nada sofreu, mandado para o município de Anchieta, onde o pai havia sido juiz e tinha parentes. Lá ficou até a formação da Junta Governativa, quando apareceu em Vitória.

Por esta “proeza” foi nomeado pela Junta Governativa prefeito de Vitória, quando o conheci. Ao assumir a interventoria, confirmei-o neste cargo.

Exerceu o cargo de prefeito por algum tempo, passando para a Secretaria de Agricultura a meu convite. Nesta ocasião obteve a nomeação de Laertes Brígido, seu diretor de obras, para Prefeito de Vitória, apesar de Laertes não ser capixaba, o que prova que seu capixabismo era muito relativo.

Viajou comigo em várias viagens que fiz ao interior do estado, inclusive a São Mateus. Sua irmã Iná, então solteira, era íntima de Alzira e seu pai era freqüentador assíduo do palácio.

Na convenção do partido foi escolhido para deputado federal, com a vantagem de ser cabeça-de-chapa, tendo, assim, garantida sua eleição.

No manifesto que foi dirigido ao povo espírito-santense, assinou com “restrição ao seu nome”, o que significa que concordara com tudo que havia sido combinado.

[...].

Sua traição foi severamente criticada pelo Correio da Manhã, jornal que não morria de amores pelos revolucionários de 1930, quando, em final de artigo afirmava: “um sistema eleitoral que procura estimular os partidos, mas reconhece aos seus eleitos a liberdade de traí-los, não é um sistema, não é lei, não é nada”.

Com as defecções se sucedendo, 6 deputados estaduais passando para o lado de Asdrúbal, foi que verificamos os erros que havíamos cometido, erros insanáveis, como se vai verificar.

Dentre estas defecções miseráveis as que mais indignações causaram foram as de Augusto Lins e José Aires, ambos deputados estaduais. Augusto Lins era advogado em Cachoeiro de Itapemirim quando foi incluído na chapa de deputados estaduais. Estranhando esta indicação, fiz ver a Fernando de Abreu, seu padrinho, que ele era ligadíssimo aos Vivacqua, nossos adversários, deles dependendo até financeiramente. Respondeu-me que Augusto Lins era uma expressão intelectual do seu município e que respondia pela sua conduta, como se fosse a dele próprio.

Daí sua tremenda indignação quando Augusto Lins anunciou pela imprensa seu rompimento e sua adesão à candidatura Asdrúbal Soares, acabando por agredi-lo a coronhadas, fato largamente explorado pela imprensa do Rio em letras garrafais: “Não criarás teus filhos”; “Da tribuna ao ring”; “Luta entre deputados”; “Política do terror”; “Deputado agredido por outro de maneira barbaramente violenta”; “Mais um escândalo na política do Espírito Santo”, etc.

Há um fato curioso neste caso. Augusto Lins estava no Rio, quando inesperadamente veio à Vitória. Conversamos longamente até meia-noite, nada notando de extraordinário na sua conduta. Num dos intervalos, Alzira pediu-me para conversar com ele sozinha. Quando Augusto Lins saiu ela foi logo dizendo “Vai trair você”. Discordei, mas o fato é que logo que regressou ao Rio, lançou manifesto rompendo.

José Aires é outro caso. Negociante fraco em Vitória foi incluído na chapa quase a última hora por solicitação de Alzira, amiga de sua mulher, que na residência particular acompanhava o resultado da convenção. Logo depois do rompimento do Augusto Lins, avisaram-me que José Aires, companheiro de pôquer de Asdrúbal e João Tovar, só estava esperando receber 30 contos que o Estado lhe devia para formalizar seu rompimento. Chamei Mário Freire, Secretário da Fazenda, [e] expus-lhe o que havia sabido e solicitei que mandasse pagar a José Aires o que o Estado lhe devia. Depois de relutar um pouco acabou concordando. Já com o dinheiro no bolso, José Aires foi ao meu gabinete para agradecer o favor que lhe havia feito e, meia hora depois, anunciava o rompimento.

A atitude de Gilbert Gabeira, pela sua vocação para venalidade, ficou célebre nos anais da política do Espírito Santo. Filho de uma família de súcios sírios conseguiu se eleger, com as sobras de outros partidos, deputado estadual. De início, filiou-se à oposição, mas, precisando de dinheiro, por intermédio de Carlos Marciano de Medeiros, ofereceu-se passar para o nosso lado, por 50 contos, pagos com repugnância. Ficou conosco até que por 100 contos passou-se para o Partido da Lavoura. Nesta ocasião para tapear sua vergonhosa atitude simulou até um seqüestro pelos seus adversários.

A fundação, em Vitória, de um jornal para defender a candidatura Asdrúbal Soares, veio acirrar ainda mais os ânimos, pelos ataques soezes e até infamantes que, diariamente, publicava.

Seria por demais longo relatar todos os episódios e peripécias desta luta suja, que perdurou por espaço de 4 meses.

O fato é que com a defecção de 6 deputados estaduais: Lins, José Aires, Sólon de Castro, Ataíde e mais dois cujos nomes não me ocorrem, ficamos reduzidos a 10 deputados, por conseqüência, em minoria, cujos nomes declino, como um preito de gratidão e homenagem pelas suas condutas leais: Astolfo Lobo, de Calçado; José Marques Soares, de Itapemirim; Carlos Marciano de Medeiros, de Vitória; Mário Rezende, de Cachoeiro de Itapemirim; Cristiano Vieira, de Vila Velha; Francisco Clímaco Feu Rosa, de Mimoso; Ciro Duarte, de Muqui; Feliciano Garcia, de Anchieta; Paulino Muller e Álvaro de Castro Mattos, de Vitória.

Em janeiro de 1935, quando Asdrúbal Soares, já rompido, havia conseguido uma única adesão, a de Jair de Freitas, recebi um telegrama do tenente-coronel Gustavo Cordeiro de Farias, que havia sido meu instrutor na Escola Militar, propondo-me oferecer a presidência do Estado ao grupo Jerônimo Monteiro, constituído de 3 deputados: Jerônimo Monteiro Filho, Carlos Sá e Luiz Tinoco, todos da oposição, em troca da minha eleição para o Senado. Consultada a Comissão Executiva do nosso partido e os deputados estaduais deliberou-se rejeitar a proposta Cordeiro de Farias, de vez que “era pensamento unânime no seio do partido que nenhuma modificação do que havia sido resolvido quanto à presidência do Estado e senatoria, poderiam ser aceitas, pois tais modificações poderiam ocasionar graves inconvenientes e afetar os altos interesses do partido”.

Note-se que esta resposta, que, afinal, era a reafirmação da minha candidatura e dos senadores, havia sido assinada por José Aires, Augusto Lins e Sólon de Castro, que afinal acabaram traindo seus compromissos, como vimos.

Reduzido a 10 deputados, impunha-se uma decisão, fosse qual fosse, para impedir a eleição de Asdrúbal Soares.

Foi quando, em março, reuni novamente o partido expondo-lhe o seguinte: Minha candidatura é insustentável, como a dos senadores, diante das traições que sofremos. Nossa derrota, além do fator moral, nada significa para mim. Voltarei para o Exército e prosseguirei na minha carreira. O mesmo não acontecerá com todos aqueles que estão radicados no estado, sujeitos que ficarão a perseguições e humilhações do governo Asdrúbal Soares, sedento de vinganças.

Assim, não há outra solução senão retomar a fórmula Cordeiro de Farias, isto é, oferecer a governança do Estado ao grupo jeronimista do Partido da Lavoura, na pessoa do seu chefe Jerônimo Monteiro Filho. Caso aceita minha sugestão, promoverei uma visita coletiva a Getúlio, para expor-lhe a solução encontrada e solicitar o seu apoio.

Porque agi assim. Desde a Junta Governativa sabia da luta acérrima entre jeronimistas e anti-jeronimistas, os primeiros interessados na volta do seu “pajé” e os segundos dispostos a impedir sua volta, fosse porque preço fosse.

Ora, no Partido da Lavoura pontificavam Atílio Vivacqua, Abner Mourão, Nelson Monteiro, Asdrúbal Soares, João Tovar, ferozes anti-jeronimistas. Josias Soares, pai de Asdrúbal Soares, foi a pessoa que mais me alertou contra a penetração jeronimista no meu governo, fornecendo-me farta documentação contra a administração do já citado ex-presidente do Estado.

Entre outros documentos, deu-me, colocado num papel com sua assinatura, o famoso discurso “O Homem de Pata”, libelo arrasador, proferido no Senado por Moniz Freire, no qual este ex-senador e presidente do Estado acusava frontalmente Jerônimo Monteiro de desonesto. Dizem que com este discurso, Moniz Freire havia impedido que seu adversário fosse nomeado Diretor dos Correios e Telégrafos, decreto já assinado por Hermes da Fonseca.

Morto Jerônimo Monteiro, como vimos, seu herdeiro presuntivo era, efetivamente, seu filho mais velho, Jerônimo Monteiro Filho.

Por mero acaso guardei este documento. Como sabia que Oswald Guimarães, cujo pai foi jeronimista extremado, mantinha relações de estreita amizade com a família Monteiro, solicitei-lhe que mostrasse o discurso pronunciado por Moniz Freire, com a chancela “Josias Soares” à viúva de Jerônimo Monteiro e lhe perguntasse se seu filho poderia apoiar a candidatura do filho do mais acérrimo inimigo do seu marido.

O efeito foi terrível e abriu margem à negociação que pretendia realizar, isto é, abrir uma brecha nas fileiras do Partido da Lavoura.

Assim, em Petrópolis, apresentei a Getúlio meus 10 deputados, dizendo-lhe que para não entregar o governo do Estado aos decaídos de 1930, só havia uma solução, marchar para a candidatura Jerônimo Monteiro Filho. Getúlio concordou e após a saída dos deputados, disse-me que não me preocupasse pois logo depois da eleição providenciaria minha promoção ao posto de major.

Antes tivesse perdido a eleição. Teria voltado para o Exército e hoje estaria na reserva como marechal e não como general-de-exército.

Após estes entendimentos, Getúlio chamou Jerônimo Filho, dando-lhe seu apoio.

Desligando-se do seu antigo partido, Jerônimo Filho lançou o seguinte manifesto:

“Aceito a indicação do meu nome à presidência de minha terra natal, levantada pelos elementos do Partido Social Democrático. E, como tenho o apoio dos meus correligionários, não pode haver dúvida sobre o triunfo dessa solução, que trará a paz ao Espírito Santo, de vez que serei eleito sem oposição”.

Enganou-se redondamente; seus “correligionários”, com exceção de Carlos Sá e Luiz Tinoco, o abandonaram imediatamente.

Mas, o fato é que havíamos restabelecido a maioria de 13 deputados, enquanto Asdrúbal Soares ficava com 12.

Terminada minha missão, regressamos à Vitória no navio Afonso Penna, do Lóide, viagem péssima, navio adernado e acomodações só para Alzira.

Assumi o governo e mandei preparar uma manifestação monstro para a chegada de Jerônimo Filho, coisa que jamais fiz em interesse próprio. Com as providências que a meu pedido Oswald Guimarães tomou, a manifestação ao futuro presidente do Estado foi, de fato, magnífica. Jerônimo, saltando na Praça 8, distante cerca de 1 quilômetro do Palácio, levou mais de duas horas para lá chegar, cercado por imensa multidão.

Quando julgava tudo resolvido, eis que surge nova dificuldade, desta vez gravíssima, pois deixava-me aos olhos do povo do Espírito Santo e até da Nação, como traidor, atraindo Jerônimo para as hostes do meu partido, com intenção oculta de não elegê-lo, pela volta da minha candidatura. É que o meu colega, Carlos Marciano de Medeiros, intensamente trabalhado pela oposição e pelo pai, um crápula, exigia que o partido voltasse atrás e com os votos dele Jerônimo e dos seus dois deputados sufragassem o meu nome.

Por mais que me esforçasse para convencê-lo de manter a palavra dada, tendo em vista a situação dificílima em que ficaria, nada consegui. Até a intervenção de Alzira à minha revelia redundou inútil. Assim, não tive remédio senão expor a Jerônimo e seus assessores leais [?], inclusive o professor Jorge Kafuri, que acabou sendo meu Secretário de Agricultura, o que estava acontecendo.

Jerônimo, no começo não deu muita importância até [à] atitude deste deputado, chegando a dizer que prescindia do seu voto, de vez que contava com os votos de Nelson Monteiro, seu primo; Sólon de Castro, seu colega na Politécnica e de outro deputado.

Fiz-lhe ver que estava redondamente enganado. Não contaria com nenhum destes votos, principalmente com o do Nelson Monteiro, cujo pai faleceu inimigo do irmão Jerônimo Monteiro, o velho.

Para demonstrar minha sinceridade e empenho que tinha pela sua eleição, propus-lhe, e que foi aceito, uma fórmula complicada e arriscada de eleição, consubstanciada no chamado “Pacto de Honra”, que vai transcrito mais adiante.

A fórmula era a seguinte: num primeiro escrutínio os meus deputados e os dele, Jerônimo, votariam para presidente do Estado em Jerônimo Monteiro Filho e Carlos Marciano de Medeiros, o Carlito, votaria em branco. Duas alternativas poderiam se dar: se ele, Jerônimo, como pensava, tivesse os votos que ele contava (Nelson Monteiro, Sólon de Castro, etc.) estaria eleito. Caso contrário o resultado seria o seguinte: Jerônimo 12 votos, Asdrúbal 12 votos e um voto em branco.

Com a eleição empatada haveria necessidade de outro escrutínio, quando eu receberia os 13 votos, vencendo a eleição por um voto.

Eis, na íntegra, o “Pacto de Honra” (Continua em: Ata da reunião realizada no Palácio do Governo do ES)

  

Autor: Fernando Achiamé
Título: Elites Políticas Espírito-Santenses e Reformismo Autoritário (1930-19378)
Fonte: Trabalho de Pós-Graduação em História - Mestrado em História Social das Relações Políticas, 2005 
Nota: Em 2010, foi lançado o livro “Espírito Santo na Era Vargas  1930-1937”. Em 2012, o  professor e historiador capixaba Fernando Achiamé foi o vencedor do Prêmio Pedro Calmon, concedido  pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O Instituto, fundado em 1838, é considerado a mais antiga instituição cultural do país.  


 

 

  

  

  

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