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Fé na gente, bairrismo neles – Por Marien Calixte

Revista Instituto Jones dos Santos Neves, Ano 4 – nº 1 - 1985

O que se propõe chamar cultura capixaba mais se parece com o político Paulo Maluf: exceção feita aos poucos diretamente interessados, ninguém a quer. Lançar um livro, abrir uma exposição de quadros, apresentar uma peça de teatro ou um espetáculo musical, fica mesmo na gloriosa noite de autógrafos, no vernissage e na estreia. A iniciativa cultural só existe se houver uma festa. Há casos em que até mesmo com alguns comes e bebes o autor sai frustrado. Lembro-me de um lançamento em que o artista bebeu pelos convidados, tão vazio estavam o salão e sua própria alma. Dali saiu amargurado e endividado, jurando mudar-se de Vitória.

Mas tanto faz uma estreia com muitos convidados, quanto aquela em que não vai ninguém, o fato cultural não passará daquela noite, extinguindo-se ali. E claro, existe uma exceção: se o autor ou artista tiver prestígio pessoal, algum colunista social publicará sua fotografia ao lado de alguém importante e ele poderá dar por satisfeita a sua vaidade. Alguém o cumprimentará na rua por causa do "efeito social" da sua iniciativa cultural, mas é quase certo que quem o cumprimente não comprou seu livro, não viu seus quadros, não foi à sua peça, etc. etc. Até hoje ainda saboreio o prazer de ouvir elogios ao bom vinho servido durante minha primeira exposição individual, numa alegre noite de junho de 1982, confundindo-se com a recente exposição, em agosto deste ano. Mas poucos arriscaram fazer uma comparação sobre a evolução do meu trabalho como artista plástico. Posso afirmar que tive sucesso de vendas e público, mas não obtive uma resposta sensata, à respeito da minha proposta.

Uma sociedade sem hábitos culturais não tem como formar opinião. Uma sociedade sem opinião não está apta a formar sua própria cultura. Uma sociedade sem cultura é apenas um bando lamentavelmente alegre. Patética interrogação percorre velhas e antigas gerações capixabas: o que há com a cultura do Espírito Santo?

Curto e grosso: acho que faltam imaginação e iniciativa.

No Espírito Santo - talvez fosse melhor dizer: em Vitória - tem-se o costume de reclamar das coisas, sem que haja sido feito um esforço conjunto e definitivo no sentido de melhorá-las. É comum o capixaba falar tão mal de sua terra como se aqui fosse o pior lugar do mundo. Conheço inúmeros capixabas que residem fora do seu estado e fazem questão de negar a sua naturalidade. Os que aqui permanecem sonham com as vitrinas de Ipanema e os que têm um pouco mais de dinheiro pagam a prestação de uma passagem a Europa ou aos Estados Unidos e com essas lembranças percorrerão o resto dos dias. Mas é possível que a grande maioria desses viajantes não tenha contemplado o exuberante conjunto de montanhas que a natureza exibe, gratuitamente, ao longo das rodovias que cortam Boa Esperança, Barra de São Francisco, Mucurici e Montanha.

Dos capixabas famosos que hoje vivem no Rio de Janeiro ou em São Paulo, cabe exceção ao cronista-maior Rubem Braga, a paixão pelo Espírito Santo e, em especial pelo seu Cachoeiro de Itapemirim, é uma marca registrada ao longo de sua vida de jornalista e escritor. Os demais, ou não se lembram da sua terra ou a exploram com o sentimentalismo mercantil, como é o caso Bob Carlos, o cantor, ou Jece Valadão, com repentino amor por Vitória se acendeu graças ao fato do seu dileto amigo Gerson ser o governador do Estado.

Mas é certo também que o poder público a mais inteligente iniciativa privada não terão feito qualquer esforço em resgatar o capixaba, que se foi daqui e avaliar-lhe a memória em torno de sua terra-mãe. Agora mesmo, o Governo do Estado promoveu, no Rio Janeiro, em lugar privilegiado, uma Semana Capixaba. Evento inédito, um belo esforço, uma oportunidade rica de possibilidades. Mas entre os inúmeros defeitos de sua organização (sequer o Banco do Espírito Santo lá estava) não havia um espaço destinado às manifestações culturais capixabas. Como exemplo: os artistas plásticos exibiram seus trabalhos numa loja, em local diferente da Semana, numa promoção estritamente comercial. O nosso jovem governador sua bonita mulher não abriram a Semana, e por ele muita gente esperava, desejosas de conhecer os mandatários de um Estado que conseguiu renovar seus líderes. Os capixabas ausentes ainda reclamam que não foram convidados para rever as coisas de sua terra. A Feira Rio comportou-se como se estivesse em qualquer cidade do Espírito Santo. O tamanho do Espírito Santo, no mapa do Brasil, parece impressionar definitivamente os capixabas. Nos discursos de políticos ou de intelectuais fala-se sempre em "nosso pequenino Estado”. Mas isto é apenas um dado geográfico e nele está incrustrado o terrível fantasma da timidez.

Onde estará a identidade cultural do capixaba?

Influenciado pelos poderosos vizinhos territoriais - baianos, mineiros e cariocas - o capixaba parece não haver ainda encontrado sua própria personalidade. Quem sabe o caos do seu comportamento territorial, esse massacre cultural ao sul, a oeste e norte, não o beneficiariam se aqui fosse adotada uma política cultural adequada? Certamente teríamos que criar um plano e arregimentar em torno dele a participação do Governo, das prefeituras, entidades de classe, associações de todo tipo, o jornal, o rádio e a televisão locais. Há inúmeras formas de se fazer isso, sem que se tenha de se submeter a verbas grandiosas. Um pilar da faraônica Terceira Ponte pagaria por isso e ainda sobraria para colocar o sistema aquaviário em atividade.

Timidez, eis o nosso principal defeito.

É comum aqui raciocinar-se como se estivesse na sala de visita de sua própria casa. Por que não ir para a rua? Para compensar a timidez, usamos a ironia. Quando não se sabe e não se quer, ri-se ou cala-se. Numa sociedade que se adaptou eticamente à estreita geografia ou se deixou enclausurar pelo espírito de ilhéu (caso do habitante de Vitória), temos fortes exemplos da falta de senso das coisas. Assim, lê-se nos jornais sobre a existência de mansões na ilha de Vitória. Mas nem nesta ilha e nem no Espírito Santo existiram ou existem mansões conforme exige o termo. Trata-se de um apelido social para beneficiar o complexo de inferioridade que carregamos. Da mesma maneira que um simples comerciante é chamado de empresário, qualquer mulher bonita e todo autor e artista é um sucesso. A falta do hábito e da informação cultural são responsáveis pela ausência de senso crítico e do bom senso. Por isso, todos, nessa sociedade capixaba, estamos igualados no mesmo nível: não sabemos certamente o que é melhor entre nós por que não assumimos nossos defeitos e muito menos nossas qualidades. Não sabemos superar aqueles e nem privilegiar estas.

É a timidez que leva o capixaba a ter horror pelo mito. E a ignorância cultural e a falta de uma visão aberta do Mundo e do Homem que nos leva aqui a temer o sucesso do concorrente ou de qualquer outra pessoa. Veja-se o caso dos meios de comunicação de massa. Há mais espaço nos jornais e na televisão para artistas estrangeiros ou nacionais do que para iniciativas locais. Um exemplo: na semana que estreava no Teatro Carlos Gomes uma peça aqui premiada, e de muito boa qualidade, o principal jornal cobria de elogios a obra do cineasta alemão Fassbinder, certamente um artista digno do nosso respeito e paixão artística. Mas por que não o mesmo espaço para o talento do autor premiado, também ator e produtor, Alvarito Mendes?

Ainda recentemente, Samir Hilal exibiu uma nova técnica em artes plásticas, criando sua própria matéria prima de trabalho. Jovem e talentoso, Hilal não conseguiu mais que pequenos registros na imprensa, mas o seu talento já é, reconhecido no Rio e em São Paulo. Breve, como tantos outros, daqui irá embora, movido pela necessidade de discussão crítica em torno do seu trabalho, ouvir o eco da repercussão do seu trabalho, a irrecusável necessidade do artista de aprender, debater e submeter-se à opinião pública. A opinião pública evoluiu com a arte e vice-versa. Este é um dos segmentos da cultura social.

Dizia De Gaulle que era difícil governar um país com tantas qualidades de queijos. E como governar um Estado com tantas praias?

Em janeiro de 1983 o Governo, que ia tomar posse, promoveu uma semana de debates em torno da necessidade de se criar um Programa Cultural. Boa iniciativa, iluminada pelo espírito democrático que se abateu sobre nosso inquieto país. Lá estive. Mais de mil pessoas, principalmente de jovens, discutiram o que fazer nos próximos quatro anos do Governo do PMDB. Desse saudável encontro, na Casa da Cultura, resultou um documento de nove laudas. Nada de novo e nem de excepcional, até porque o que se precisa aqui é fazer alguma coisa, sem necessariamente, ter que ser original ou exótico. Mas o Programa deixou a todos que vivem direta ou indiretamente ligados à cultura com uma esperança maior. Decorridos quase dois anos da proposta, não foi cumprido uma linha sequer do tal Programa pelo Governo do Estado através de qualquer um dos seus órgãos ligados à cultura. Ao contrário, tem-se visto um atroz definhamento nesse setor. Para espanto geral, o Programa Cultural começou a ser torpedeado quando se descobriu um quadro pretensamente valioso, no Palácio Anchieta e, com sua possível venda, pensou-se em pagar as dívidas do Estado. Pura heresia. Total ignorância. Enquanto isso, o Teatro Carlos Gomes, principal polo das iniciativas culturais, dilui-se em abandono. Uma casa confortável e competente, para artistas e público tornou-se mera repartição pública.

Mas a deformação e a destruição de iniciativas não é coisa nova. Foi no Governo de Eurico Rezende, por inspiração dele próprio, que se extinguiu a Fundação Cultural do Espírito Santo, para dar lugar ao humilde e inexpressivo Departamento Estadual de Cultura, Apenas um apêndice da politizada Secretaria de Estado da Educação e Cultura. No próprio nome da SEDU continuamos a produzir antiga desinformação, ou seja, a mistura de Educação com Cultura. Eurico acabou com a Fundação porque decidiu que o Estado não podia pagar uma folha de empregados celetistas e os transferiu para a folha oficial. Recentemente, um Juiz do Trabalho restituiu aos antigos celetistas o direito adquirido. Quer dizer: a burrice de Eurico ampliou o prejuízo do Estado e conseguiu atrasar de forma irrecuperável nosso programa cultural, já que a Fundação Cultural do Espírito Santo cumpria seus objetivos. O retorno da FCES está previsto no Programa Cultural do PMDB. Mas decorridos dois anos da gestão de Gerson Camata, nem a Fundação voltou e nem seu substituto, o DEC, consegue andar com as próprias pernas. Com isso, a cultura capixaba anda para trás e se prova mais uma vez que "Vitória já teve de tudo", como diz o povo, do alto de sua milenar sabedoria.

Ao invés de estimular um programa cultural adequado, o Governo abre agora curiosamente as portas do Palácio Anchieta para noites de autógrafos. Mais uma vez a cultura só tem importância por causa de falsos fatores de apoio. Por que não se utilizar a Biblioteca Estadual, o Arquivo Público, a Biblioteca Municipal, o Instituto Histórico e Geográfico do ES? Outro equívoco. Essa "perturbação" cultural já teve exemplos exóticos, como a apresentação de um grupo de Ticumbi, de Conceição da Barra, na Praça Costa Pereira. Isso foi no Governo de Arthur Carlos. Dava pena ver o velho preto, pescador, rodopiando sua fantasia diante de incrédulos e apressados passantes, enquanto sua música não conseguia vencer a batalha contra as descargas e as buzinas de carros.

Recentemente, ocorreu importante seminário sobre Literatura Infanto-Juvenil, no auditório do Colégio do Carmo. Uma iniciativa isolada, pioneira, com bom crédito profissional e apoiada por professores de primeiro e segundo grau, e até universitários, além dos escritores dessa área. Não vi lá, para debater, apoiar e sugerir, representantes de quaisquer das nossas entidades culturais. Tratou-se de excelente oportunidade para se desenvolver ideias. Uma delas, a necessidade de se apoiar a literatura infantil e juvenil de autor capixaba, através de recursos que o Estado possui, como as gráficas do Departamento de Imprensa Oficial, do Deares, a Fundação Ceciliano Abel de Almeida, todas do setor público.

Uma literatura destinada a crianças, assim como o teatro e as artes plásticas, desde que ativadas por uma iniciativa programada, conjunta, a longo prazo, criaria o público do futuro. Por que não começar tudo de novo, abandonando de vez o masoquismo de nossas frustrações culturais? Em 1970, através da extinta Fundação Cultural do ES, criou-se o Teatro Infantil do Teatro Carlos Gomes. A sucessão de governos sepultou o Projeto, que alcançou sucesso e deixou heranças ainda vivas no teatro que ainda temos, resistindo aos desencantos, com os prometidos apoios governamentais.

Melhor que debater a existência dos nossos fantasmas de identidade cultural é começar de novo. Começar, simplesmente. A Escola de Teatro, de Artes Plásticas e a edição de literatura infantil são caminhos a abrir, em favor de uma cultura regional com público assegurado. Mas estariam os governantes interessados na criança, se criança não vota?

Os nossos governantes parecem não conhecer a História da Civilização. Nela certamente encontrariam o apoio e o estímulo às artes como forma de desenvolvimento através do registro de cada época. Tem-se falado em cultura popular e até virou setor burocrático do Estado. Os pais dessa estranha criança não sabem que a cultura do povo é espontânea. Que apenas podemos e devemos estimular os hábitos como forma de sedimentar uma civilização inteligente e atualizada.

A existência da Universidade e de tantas escolas de nível superior criou uma nova sociedade capixaba. Uma sociedade científica. Mas este aprendizado elitista está longe de prestar serviços à motivação e sedimentação de uma cultura plenamente regional. Temos agora uma sociedade diplomada, ma: chocada pelo contraste entre o quartel universitário que o robotizou e o fenômeno permanente da cultura espontânea.

Assim, o Espírito Santo é capaz de possuir o maior complexo portuário da América Latina, de movimentar mais de 30 por cento das cargas de todo o país, de produzir perto de dez por cento da receita cambial do país, de ser um dos três maiores exportadores de café do mundo, de ter o maior terminal de minérios do mundo, de produzir celulose de alta qualidade, de possuir amplo parque siderúrgico, somos até capazes de brigar pela construção de uma ponte inútil. Mas não temos iniciativa, nem realização prática, num campo de custos baixos, como a música, o teatro, as artes plásticas e a literatura. A nova sociedade capixaba, que está se formando, com a vinda de jovens técnicos e suas famílias para atender às grandes indústrias vai gerar outra sociedade, através de seus filhos. Para esses e aqueles nada temos que oferecer ao seu espírito. Somente a oportunidade de emprego qualificado e a esperança de sofisticação que os anúncios de imóveis oferecem diariamente nos classificados.

Essa nova sociedade comporta também o estrangeiro. Perigosamente acolhemos orientais, com seus costumes e tradições milenares. Aqui, para manterem sua cultura própria, organizaram escolas de idiomas para seus filhos e comunidades familiares onde não é permitida a presença do brasileiro (o capixaba, nesse caso). Aceitamos isso sob a desculpa de que "trazem dinheiro".

Num país com tantas moedas e vícios bancários, nada melhor que o mercantilismo com espírito ideal. Afinal, somos hoje uma Nação de poupadores...

Para identificar-se culturalmente, o capixaba tem que ter bairrismo. O bairrismo é como religião: exige fé. Aqui não entra a lógica. Para se ter fé é necessário a existência de deuses e demônios.

Governantes, parlamentares, jornalistas, intelectuais, artistas, professores, trabalhadores, estudantes todos: bairrismo neles.

 

Calendário dos fatos mais importantes da cultura capixaba

Década de 10:

- Funda-se o Instituto Histórico e Geográfico do ES.

Década de 20:

- André Carloni constrói o Teatro Carlos Gomes.

Década de 30:

- Balbino Quintaes Junior e outros pioneiros criam a futura Rádio Espírito Santo, "A Voz de Canaã".

Década de 50:

- O Governador Jones dos Santos Neves cria a Escola de Belas Artes e convida Homero Massena para dirigi-la. Santos Neves promove a vinda de importantes pintores nacionais a Vitória para pintar a paisagem capixaba (ver acervo do Palácio Anchieta, Prefeitura de Vitória e Cia. Docas do ES).

- O ator Sady Cabral ensina teatro a jovens capixabas.

Década de 60:

- Instala-se a Universidade Federal do Espírito Santo. - O matutino "O Diário" publica trabalhos literários no "Suplemento Social" e depois “Domingo É Dia".

- O Governador Christiano Dias Lopes Filho cria a Fundação Cultural do Espírito Santo.

- Reforma do Teatro Carlos Gomes.

Década de 70:

- A Fundação Cultural do ES lança os projetos "Noites Capixabas", "Muqueca" e "Música para Jovens".

Década de 80:

- Governo Eurico Rezende extingue a Fundação Cultural do ES (este é o fato importante-negativo).

 

Fonte: Revista Instituto Jones dos Santos Neves, Ano 4 – nº 1 - 1985
Autor: Marien Calixte
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2018

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