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Festa de Italianos e capixabas - Por Rubem Braga

Crônicas do Espírito Santo de Rubem Braga - capa

O engenheiro e escritor Luiz Derenzi alertou a comunidade capixaba: este ano o primeiro centenário de imigração italiana no Espírito Santo. Foi lá para os lados de Santa Cruz que essa primeira leva se plantou. Os contratempos foram muitos, e a certa altura o governo italiano resolveu proibir a emigração para o Espírito Santo; o relatório então feito por um enviado a Roma é um dos documentos que agora devem ser publicados. [1]

No sul do Estado, pelo que me contou Derenzi, os imigrantes italianos se instalaram, a princípio, às margens do rio Benevente, e ali plantaram café, com fraco resultado: as terras eram, como se costuma dizer, frias. Foram depois para o alto Itapemirim e seus afluentes, onde prosperaram.

Quando eu era menino, em Cachoeiro, uma boa parte da gente da lavoura era italiana. As mulheres de pano na cabeça e vestidos longos, de feitio antigo, vinham vender, de porta em porta, as coisas da roça. Quase nunca falavam português, pois as famílias viviam muito isoladas no mato. A gente se entendia na meia língua da boa vontade, e quando ela pedia um fiorino por alguma coisa, já se sabia que estavam querendo dez tostões.

Lembro-me de uma brincadeira qualquer em que a gente cantava: una, duna tena, catena, saco de pena e os mais velhos garantiam que era assim que se contava em italiano...

Hoje não há, provavelmente, uma só família de Cachoeiro que não tenha algum membro com sangue italiano; famílias altamente prolíficas, ou pródigas em homens inteligentes e  mulheres bonitas como a dos Vivacqua – para citar apenas esta – cruzaram-se desde a primeira geração e se multiplicaram fartamente.

A festa da colônia italiana é, assim, uma festa profundamente Capixaba. Luiz Derenzi prometeu-nos um livro sobre a colonização[2], e estou seguro de que será interessantíssimo; mas o assunto é muito vasto e seria bom que fossem instituídos prêmios animadores para monografias sobre os vários aspetos da colonização. Um deles, que está a desafiar os estudiosos de arquitetura, seria a casa do imigrante italiano, principalmente a rural, a casa de colono ou sitiante que, devido a essa influência, ficou no Espírito Santo tão diferente de casa da roça de Minas.

Há mil coisas a pesquisar, a começar pela contagem: una, duna, tena, catena...

 

 

Fonte: Crônicas do Espírito Santo. 1984
Autor: Rubem Braga
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2011
Obs.: Este livro foi doado à Casa da Memória de Vila Velha em abril de 1985 por Jonas Reis
Nota do Site [1]: O Estado do Espírito Santo e a Imigração Italiana - Carlo Nagar – 1895, vindo o Arquivo Publico do Estado do Espirito Santo disponibilizá-lo de forma digital, em novembro/1995
Nota do Site [2]: DERENZI, Luiz Serafim. Os italianos no Estado do Espírito Santo, Rio de Janeiro, 1974

 

 

 



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