Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Frei Pedro Palácios e a Virgem Ss. da Penha - Por Orminda Escobar Gomes

Artista: Benedito Calixto, pintada no ano de sua morte em 1927

POEMA

 

O TEMPORAL

 

Polida, a superfície imensa do oceano!

O tempo vai... Do sol, os raios osculavam —

Suavemente, a quilha do navio. Estavam

— Tomados de alegria, os nautas. Soberano

 

Orgulho dominava o pobre ser humano!

Porém, alteia as ondas, o tufão, e... travam

Os elementos, luta. Incautos, não contavam

Com a fúria da matéria, a raiva do tirano.

 

Blasfêmias, gritos, ais.. terríveis, lancinantes...

Ressoam pelo espaço... Os vagalhões, constantes

Estouram, vergastando aquela gente brava!

 

Palácios ajoelha... Humilde, eleva o olhar

Ao céu... e arroja, após, a capa sobre o mar...

O temporal passou... Ardentemente, orava!...

 

II

A GRUTA

 

Ufana, entrava a nau, na barra de Vitória

ao longe, a serrania; e, perto... graciosas

Esparsas — emergindo — as ilhas. Espumosas,

As vagas, num vai-vem contínuo... A trajetória,

 

Traçada de além-mar, chegava ao têrmo... e a glória

Do Lusitano audaz, se expande em belicosas

Canções que faz ouvir, nas plagas luminosas...

— Narrando, com ardor, seus feitos... sua história...

 

Um firmamento azul, sem nuvens, refletindo

na limpidez do espelho da enseada... Lindo

cenário, a marujada exausta, deslumbrava!

 

Saltando, do reinol, encontra a porta aberta...

E o frei vagando, só, na praia — já deserta —

Distante vê, na gruta, o abrigo que buscava.

 

III

O QUADRO

 

— Poético... ideal!... Estrelas pontilhavam

O pálio azul safira desta terra. A brisa

Ao impelir, de manso, a barca que desliza

Cicia, brandamente. A tiritar pescavam

 

Praieiros, na restinga ou no alto mar. Cuidavam

Tenazes, enfrentar a vida rude. Frisa

A face da baía, quase sempre lisa

Veloz gaivota ou garça. As aves pipilavam

 

Alegremente. Afim de esquadrinhar a praia

Risonha — onde a gemer o vagalhão desmaia —

Saiu da furna, o frei, ao despontar da aurora.

 

Depois galgou o monte a pesquisar... e, atento,

De assombro cheio — olhando o pico, no momento...

Entre as palmeiras, viu — O Quadro da Senhora!

 

IV

O PANORAMA

 

— Palácios se prostrou, em pranto, soluçando...

Foi esta a vez primeira em que se deu tal fato;

Mas, deram-se outros mais, a lenda o diz. No mato,

Angustiado, então, errava procurando

 

O corpo castigar — o espírito elevando...

Porque razão a Santa, a Virgem-Mãe, com este ato

Sua alma torturava? Era, ele, um insensato?!

Não! Não! Era um devoto... eterno, suplicando!...

 

Depois, surpreso... o frei, de pé, sobre o rochedo

Extasiado... olhava — as franças do arvoredo

E o horizonte, o espaço, o sol que tudo inflama...

 

A serra, o vale, o rio — em curvas — caprichoso...

A gleba, a planta, a flor... O céu maravilhoso

Soberbo, sem rival! Sublime — o Panorama!

 

V

A ESCOLHA

 

"Somente aqui, eu sei, a Virgem quer ficar!"

Suave, tênue luz, o dia anunciava...

Também a nuvem de ouro, a gota que brilhava.

E a orquestração dos sons dispersos pelo ar...

 

Levanta-se ondulando, em fúria, o torvo mar!

Nesta hora matinal, um barco navegava

Mercê do abismo hiante... o vendaval soprava...

Horrível transe! irá a nave soçobrar!

 

"Senhora! Ouvi... ouvi! Deveis servir de guia

A quem — vagando incauto — o pego atrai... Seria

Um grande, imenso, bem — a Vossa permanência

 

No cimo desta escarpa!... Aqui o peregrino

Virá com fé e ardor — a Deus cantar um hino

E a Vós, Mãe! suplicar — amor, graça e clemência!”.

 

VI

A CAPELA

 

Palácios concebeu um plano: deveria

Perseverante e calmo um culto iniciar

No cume da montanha... E, logo, foi rezar

Curvado, ante o Painel da Virgem-Mãe, Maria!

 

O povo, curioso, ouvindo o que dizia

O frei; e vendo-o, após, as pedras carregar

Ao ombro já crestado... o bom exemplo dar ...

Se aproximava, humilde e o braço oferecia

 

Batendo a mata — a fim de preparar caminho

No monte -- transformado em singular cadinho —

Primava cada qual em bem servir. Só Ela,

 

Com a proteção de Deus podia conceder

Tal graça, tal favor... e, muito mais, prover

O que preciso foi... Assim, fez a Capela.

 

VII

O ÊXTASE

 

— Entusiasmo intenso, estranho, irreprimível!

O nobre coração do frade sublimava!

Da Virgem, Mãe de Deus, a festa celebrava

Com toda a devoção e pompa indescritível!

 

Em tudo agia alegre e prestimoso. Incrível

Atividade a sua. A todos exortava

Da Penha, na igrejinha, à súplica... Exultava

De unção, de crença e amor — sincero inextinguível!...

 

O quanto conseguiu, pasmava! E os que o viam

— Semblante iluminado! — apenas suporiam

Que a santa aspiração do frei chegara à meta...

 

Depois... do altar, em frente... um leigo, consternado.

Palácios encontrou, inerte... ajoelhado!...

N'um êxtase infinito... Ah! se extinguira o Asceta!

 

Fonte: Lendas e Milagres no Estado do Espírito Santo (Poesias 1551-1950) – Prêmio Cidade da Vitória, 1951
Autora: Orminda Escobar Gomes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2021

Convento da Penha

A Voz do Povo – Por Norbertino Bahiense

A Voz do Povo – Por Norbertino Bahiense

D. Pedro Maria de Lacerda, em 14 de abril de 1879 expediu uma Pastoral proibindo as Festas da Penha fora do templo

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Cerração (Poesia) - Convento da Penha

Um dia esplendoroso. O sol quente, escaldante / Suave azul do céu. O esmeraldino mar / Oscula, brandamente, a praia. Singular / Beleza e alacridade em torno... Mas, distante...

Ver Artigo
Terremoto em Vitória e em Vila Velha (Poesia) - Por Orminda Escobar Gomes

Agosto. Quase findo, o seu primeiro dia. / Dezoito século... Sim!... Sessenta e sete ou nove?! / Das lides descansando, a gente adormecia...

Ver Artigo
Fonte Milagrosa do Convento da Penha

Localizada no terraço inferior do Convento de Nossa Senhora da Penha

Ver Artigo
O Milagre da Seca - Poema de Orminda Escobar Gomes

Chegados ao Cais Grande — Praça Oito, agora.../Compacta multidão se comprimia, à espera/Da excelsa Padroeira; — a fidalguia era/Presente, como o clero e as irmandades... Chora

Ver Artigo
Frei Pedro Palácios e a Virgem Ss. da Penha - Por Orminda Escobar Gomes

Saltando, do reinol, encontra a porta aberta... E o frei vagando, só, na praia — já deserta — Distante vê, na gruta, o abrigo que buscava

Ver Artigo