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ÁGUA-COM-AÇÚCAR E ÁGUA SALGADA

Rua General Osório

Que seria da paisagem se a ela não estivessem vinculadas as nossas reminiscências?

Sei de cor esta indagação que li, há anos e noutras palavras, no romance O Amor, de Dino Buzzati, que morreu em Milão em 1972, com 66 anos, numa paráfrase: que valeria o túmulo se não despertasse a lembrança? Um cenotáfio desconhecido é a tumba sem nada; não desperta nem recordação.

A paisagem não mais existe; só me resta a reminiscência: o nome da rua é General Osório, se bem me lembro. Pode ser outro militar. Rua enviesada e torta. Nela há, na época, a sede de A Gazeta, cujas páginas naquele dia dão conta da enchente que quase cobre a ilha. Fala-se em calamidade pública na capital do Espírito Santo.

Subo a escada do Cento-e-Vinte, tão gasta e forte quanto a alma das mulheres que fingem alegria, antes, durante e depois da batalha. Sabem simular o gozo, acompanhado de ofogos e gemidos. São as profissionais do amor. Pretendo escrever um capítulo de Mentira dos Limpos, meu primeiro romance, que se possa em terras capixabas. Faz mais de trinta anos. O livro está na 3ª edição pela editora Mercado Aberto.

Sinto o odor de mofo; tateando o corrimão, vejo as mulheres oferecidas, que se julgam protegidas pelo São Jorge no alto da parede, iluminado por pequena lâmpada, vermelha e sempre acesa, dia e noite; a fumaça dos cigarros me incomoda, ouço o barulho de vozes dos marinheiros e demais fregueses, estes nacionais  e estrangeiros como aqueles. Desço a escada, com falta de ar, para subir a do Cento-e-Trinta, logo adiante, onde tomo água mineral. Não demorou muito. Desguio de novo, ganho a rua.

A chuva cai, fujo das goteiras, piso em poças, procuro marquises.

Compro um exemplar de A Gazeta para proteger minha cabeça; até minhas idéias úmidas e cabeludas. Vitória vai morrer afogada. Vou junto, de cambulhada. Catecúmeno, julgo-me batizado, sem sal na moleira. Na primeira página do jornal dou de cara com o editorial assinado por Mesquita Neto; o título é o mesmo todo dia: Hoje. O doce jornalista comenta um livro de ficção lançado pela Saraiva. A amarga trama se passa no século XVIII.

Mesquita Neto já esta alheio a tudo que se passa ao redor da ilha que se afunda.

Só me lembro disso: a paisagem, apenas água. Água de chuva e água do mar. A água doce quer competir com a água salgada. É minha acre-doce lembrança capixaba.

 

Fonte: Escritos de Vitória 12 - Paisagens, 1995
Autor: Manoel Lobato
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014

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