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Harald Dietze - Entrevistado do mês pelo informativo do Banco do Brasil

Harald Dietze

Faz parte da política do nosso jornalzinho preencher este cantinho, sempre que possível, com entrevistas de colegas mais antigos de posse no Banco, visto que eles, por motivos que se evidenciam fáceis de entender, têm, no baú das recordações, muito o que contar.

Por aqui já passaram vários associados que preencheram totalmente tais “requisitos”, cujos depoimentos nos deixaram, a todos, imensamente satisfeitos e, por que não dizer? -, orgulhosos dos seus desempenhos na então acalentada carreira de funcionário do Banco do Brasil. A presente edição acolhe mais um desses antigos colegas, que gentilmente acedeu na concessão desta entrevista.

Estamos nos referindo ao associado Harald Dietze, colecionando, hoje, 69 anos de posse no BB. No desfiar de sua entrevista, há passagens de desafios, de vitórias, de erros e de acertos. O acerto de maior significação está na opção que fez, no ano de 1943, de procurar um emprego que lhe oferecesse condições de, como arrimo, manter a subsistência de seus pais, obrigados a um intempestivo regresso ao interior de Itaguaçu, depois do triste episódio por que a família passou durante a segunda guerra.

E esse acerto teve um nome: prestar concurso para o Banco do Brasil. Depois de tudo que viu e conquistou no nosso Banco, acossa-lhe um desejo: o de tentar passar aos funcionários mais novos um retrato de como era o Banco do Brasil de antigamente, especialmente na época em que o nosso Banco funcionava como o caixa geral do Tesouro, com domínio sobre a chamada “conta de movimento”, de onde eram apartadas reservas para – coisa quase impossível na época por razões de locomoção e comunicação – levar recursos aos lavradores das terras mais longínquas deste país.

É com satisfação, portanto, que a partir de agora conferimos a palavra ao associado Harald Dietze.

 

“Nasci no dia 20 de abril de 1925, na Fazenda Pontal, interior do município de Itaguaçu/ES, filho de Otto Dietze e Emma Helena Dietze. Meus passos escolares tiveram início na precária escola primária mantida na citada fazenda, de propriedade do tio Ricardo Bucher e, pela descendência germânica, tanto dele quanto de meus pais, as aulas eram ministradas na língua alemã. Habituado com o diálogo diário dentro da nossa modesta casinha, não me foi difícil recolher os primeiros ensinamentos escolares.

O curioso corre por conta do aprendizado na matéria matemática: como aprendi a tabuada em alemão, até hoje, se tiver de mentalizar uma conta, o resultado sai mais ou menos assim: 3 x 9 é igual a %-&*¨#$, ou seja, 27.

A segunda parte do chamado curso primário, de cinco anos, foi feita na então Academia de Comércio de Vitória, depois que minha família aportou em Vitória, no ano de 1937, na ânsia por melhores dias e por estudos complementares para o único filho.

Guindado ao chamado intermediário ou secundário, frequentei, na mesma Academia, o curso propedêutico, que tinha como prioridade os ensinamentos voltados para a contabilidade e ainda as matérias datilografia, estenografia, noções de Direito Civil, Comercial, Estatística, História do Brasil, História Universal, inglês, francês e principalmente aritmética.

Vencida essa etapa, com dificuldades de toda ordem, bateu-me o desejo de dar continuidade aos estudos, desta feita com objetivo de conquistar um título equivalente ao curso superior.

E ele veio, quatro anos depois, firmado pela mesma Academia, com o nome de “Contador”, equivalente, hoje, ao grau superior de “Ciências Contábeis”.

Por desnecessário enumerar, tenho agregados ao meu currículo vários cursos e seminários promovidos por entidades ligadas a gestões financeiras.

Enquanto a sorte não batia à minha porta, e por força de necessidade imperiosa, procurei e encontrei o meu primeiro emprego, como auxiliar de escritório, na saudosa Casa Pan-Americano, onde depois, por muito tempo, funcionaram as Lojas Helal.

Enquanto isso, alojamo-nos no final da Rua General Osório, onde meus pais montaram, ao lado do consultório do Dr. Carl B. Schröder, uma modesta pensão para acolher descendentes alemães que procuravam tratamento médico em Vitória com o Dr. Schröder, que era também grande benfeitor da Santa Casa de Misericórdia, onde atuava. Mal sabíamos ou imaginávamos, o que viria a nos acontecer no fatídico dia 17 de agosto de 1942. A imprensa deu conta do que ocorria no resto do Brasil em matéria de vandalismo contra os alemães e italianos ou seus descendentes, sob o pretexto de que o afundamento de navios brasileiros, na nossa orla costeira, era coisa do comando militar alemão.

Analistas das nossas forças armadas arriscaram o palpite de que esses atos ignominiosos tinham por objetivo provocar a ira do povo brasileiro e, por via de consequência, incitar o Brasil a entrar na guerra. Prognóstico, aliás, que mais adiante se consumou.

A baderna instalada em capitais como o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e outras, foi o sinal verde para que também se alastrasse pelo resto do país. E em Vitória não foi diferente. Firmas de descendentes alemães como Arens & Langen, Theodore Wille, Chocolates Garoto, de H., Meyerfreund & Cia., Bayer do Brasil, Bar Hamburgo, Escola de Datilografia Olympia, e outras, passaram a se constituir em alvos preferidos da sanha dos pseudonacionalistas.

Dos citados, apenas a fábrica de chocolates se livrou dessa fúria indômita, graças à ação protetora imposta pelo então 3º Batalhão de Caçadores do Exército sediado em Vila Velha. Os mais humildes, entretanto, não tiveram a mesma sorte.

Instalada ao lado do consultório de um médico alemão e tendo como proprietários um casal de alemães, meu saudoso pai, seu Otto – cego a partir dos meus cinco anos – e dona Emma, a nossa modesta pensão foi saqueada e praticamente reduzida a cinzas, tal a fúria dos implantadores do terror, da época.

O percentual de destruição não atingiu 100%, porque, pendurado a uma boa altura, esteve a salvo o meu uniforme verde-oliva, de uso obrigatório na EIM – Escola de Instrução Militar (Tiro de Guerra 277), que se situava junto ao Clube Saldanha da Gama.

Estava decretado o fim da esperança de meus já idosos pais. Orientados por advogado de renome, a ação judicial por nós impetrada contra o estado resultou infrutífera, diante da impossibilidade de apresentação de documentos que provassem os danos sofridos, para aferição do seu valor, ante a sua total destruição. Horrorizados e atemorizados com esse verdadeiro massacre, pois do modesto patrimônio não havia sobrado pedra sobre pedra, meus pais serviram-se da benevolência do tio Ricardo e voltaram a residir na Fazenda Pontal.

Restou a mim, filho arrimo, com 19 anos de idade, não mostrar destemor diante da vida. Sob o beneplácito de duas primas, filhas de tio Ricardo, que estudavam em Vitória, passei a residir na companhia delas, numa casa da Escadaria da Piedade 53, no final da Rua Sete de Setembro.

Estudando e batalhando no emprego modesto, não esmoreci frente à minha vontade de “subir na vida”. Tornei-me reservista de segunda categoria, no ano de 1942, pela EIM – Escola de Instrução Militar – conforme certificado expedido pelo então Ministério da Guerra. Esse documento, em tempos de guerra, constituía-se no mais importante “passaporte” para fazer a inscrição a qualquer concurso público. E, com o Banco do Brasil, não foi diferente.

Encorajado pelo sucesso de amigos meus – José Alves de Oliveira, Magid Saade, Basílio Lobo Leal, Silas Leão, Gilson Monteiro Wanderley, Fausto Vieira Estelita Lins e outros – que lograram êxito no concurso de 1942, considerado, na época, o mais rigoroso e o de temas mais difíceis até então conhecidos, inscrevi-me entre os candidatos a um novo concurso para Escriturário contratado do BB – de modelo diferente, voltado para as vagas decorrentes de funcionários convocados para a guerra – que veio a ser realizado no mês de agosto de 1943, cujas condições de inscrição iam da limitação de idade, entre maiores de dezoito e menores de vinte e um anos, além do indispensável certificado de reservista. Poucos candidatos inscritos aqui no ES, cerca de quinze ou dezesseis, e graças à minha classificação em primeiro lugar numa lista de apenas sete aprovados, coube-me o direito de escolher para a posse a cidade onde foram realizadas as provas, por isso que meu ingresso no BB, deu-se em Vitória, no dia 14 de dezembro de 1943, sob a promessa, a mim mesmo, de tentar fazer uma boa carreira no Banco. E carreira no Banco não se faz sentado numa só cadeira por muito tempo.

Atento a isso, tratei de “ganhar o mundo”. Como o meu mundo era o Banco do Brasil, o primeiro passo foi vencer uma concorrência para a função de Caixa em Comissão, com designação para atuar na agência de Santa Teresa/ES, o que efetivamente aconteceu entre abril de 1948 a maio de 1950. Ainda nessa mesma agência, em comissões superiores, desempenhei a função de Chefe de Serviço da CREAI e, mais adiante, a de Contador, esta última entre janeiro de 1951 a agosto de 1954.

Época feliz, essa vivida em Santa Teresa. O esporte, na cidade, estava intimamente ligado aos funcionários do BB. Enquanto eu, Pasolini, Ary, Heldy e outros nos esforçávamos por bem representar o time de voleibol da agência, os craques do futebol eram os mais festejados. Não é sem razão que o forte esquadrão do Teresense Futebol Clube não abria mão de escalar os colegas Manoelito, Eck Moreira da Fraga, Aloir Aquino Gimenes, José Oliveira Xavier, não apenas por serem funcionários do Banco do Brasil, mas sobretudo, pelas virtuosas qualidades de verdadeiros craques do gramado.

Vale registrar, pela lembrança que me ocorre – e por que não dizer, da saudade daquele tempo – das cadernetas coloridas das contas correntes de pessoas físicas e jurídicas, sobre cujos saldos, monitorados pelo sistema hamburguês de contagem de juros, eram aplicadas taxas que variavam de 2% ao ano até 5% ao ano.

Dia destes, deparei-me com uma crônica escrita por uma colega daquele tempo, sob o inspirado título: “Hoje acordei com saudades do Banco do Brasil”. Certamente ela também deve ter lidado com as bonitas cadernetas coloridas do BB.

Nas diversas funções comissionadas que exerci, tive a sorte de contar com a colaboração de diletos e competentes colegas como Eck Moreira da Fraga, Arlindo Ricardo Pasolini, Ary Lopes Ferreira, Aloir Aquino Gimenes, Nyder Barbosa de Menezes, José Lugon, e outros.

Do mesmo modo, fui privilegiado em ter companheiros de administração como Homero Ferro Valle, Sebastião Carneiro Lopes, Amaro Silva, Heldy Dias Maciel, Orlando Sgarbi e tantos mais. Casei-me, em setembro de 1949, com a minha esposa atual Elza Damm Dietze, de cuja união vieram quatro filhos: Renzo, Reinaldo, Carla e Daniela, todos casados e donos de suas próprias vidas.

Este meu relato estaria descolorido se eu não fizesse uma homenagem a essa grande companheira. A sua grandeza não está mensurada apenas na estatura. Está envolta por dotes muito mais significativos, que são os da nobreza, da altivez, da firmeza de decisões e do seu acendrado senso de companheirismo. Ela é credora de uma boa parte da vitoriosa carreira que julgo ter feito no Banco, porque, em momento algum, deixou de me incentivar e de me apoiar em situações delicadas e desafiadoras.

Mesmo antes da criação da MOVEC – Unidade Móvel de Crédito Rural – no governo Jânio Quadros, os administradores de então, da agência de Santa Teresa, à revelia da Direção Geral, “inventaram” o chamado “mutirão do crédito”, para levar, até o produtor, recursos para a agricultura. Sebastião Carneiro Lopes, o Gerente, Harald Dietze, Chefe de Serviço da CREAI, um motorista e um Fordeco 1929 estiveram em Afonso Cláudio e, em alguns dias, atenderam, “in loco”, grande número de agricultores, por ocasião da entressafra do cultivo do feijão.

O dinheiro da primeira parcela era “sacado”, na hora, no escritório do nosso correspondente na cidade, a firma G. Giestas & Filhos. No regresso, a contabilidade da agência cuidava dos respectivos lançamentos, para acerto final.

A vontade de fazer uma boa carreira no Banco estava sempre presente na minha memória. Fui “freguês” constante da “mula mecânica” – os antigos devem se lembrar dessa expressão – e, como tal, arvorei em me candidatar a uma das recém-criadas agências de Guaçuí (ES), Pouso Alegre (MG) e Monte Carmelo (MG), isso por volta de 1954. As duas primeiras falavam de perto aos meus anseios, mas foram, logo, preenchidas.

“Harald, sobrou Monte Carmelo, interior de Minas, mas você tem de decidir isso hoje”, foi o ultimato do amigo Sebastião Carneiro Lopes, a essa altura no desempenho de importante função na Direção Geral, no Rio de Janeiro. Diante da falta de outra alternativa, aceitei a indicação, e desabafei:

– “Elza, Monte Carmelo deve ser o fim do mundo. Que você acha?”

Ela não achou nada, apenas disse:

– “Ora, se você desistir, outro virá para o seu lugar”.

E lá fomos nós para uma cidadezinha desconhecida, que fica a um montão de quilômetros de BH, sem estradas asfaltadas, péssima conservação, cerca de doze horas de viagem por ônibus, poeira e lama em épocas distintas. Na condição de gerente-instalador e com autorização da Direção Geral, as viagens eram feitas de avião, nos então famosos DC-3 Douglas, que operavam na região e sempre em pistas de terra batida.

Instalada a agência em tempo relativamente curto de oito meses, o seu crescimento superou as expectativas. E com ele também começaram a surgir os problemas. Um deles se ligava à ganância de aventureiros inescrupulosos, que tentavam a compra de diamantes na região com ofertas de preços muito elevados. Certa feita, um lote de pedras estava sendo negociado por um preço muito acima da média e, na lista dos vendedores, constava o nome do senhor prefeito de Estrela do Sul. Nesse dia, a transação chamou a sua atenção tanto pelo valor muito elevado e também pelo pagamento à vista. Desconfiado, e já na agência do Banco do Brasil, ouviu do caixa que contava as cédulas:

– “Tudo dinheiro falso!”.

Diante disso, o senhor prefeito solicitou imediatamente a presença do delegado de polícia, que deu voz de prisão aos falsários, causando uma forte reação por parte deles, inclusive com agressões físicas. O processo instaurado teve sentença prolatada em 08/11/1957 pelo Juiz de Direito de Monte Carmelo, condenando os acusados a uma pena de reclusão de oito anos.

Ainda na função de gerente de Monte Carmelo, recebo instruções da Direção Geral para realizar estudo de viabilidade de instalação de uma agência na praça de Estrela do Sul, onde eram encontrados, em passado distante, os diamantes mais valiosos da região. A fase do garimpo passou e Estrela do Sul entrou em total decadência. O meu parecer, louvado em dados técnicos, concluiu pela não criação de agência em Estrela do Sul. Isso não obstante, a Direção Geral, por duas vezes, recomendou à agência que reexaminasse o assunto, mas o parecer inicial foi mantido.

O que eu não podia imaginar, em meio ao estudo, era que a cidade de Estrela do Sul constituía-se na terra natal do então presidente do Banco, Dr. Sebastião Paes de Almeida. Certa vez, em visita à região, o senhor presidente esteve na agência de Monte Carmelo e, sabedor de que o gerente havia dado parecer contrário à criação de agência em Estrela do Sul, foi educado em esclarecer que o Ministro da Fazenda já havia autorizado a instalação da agência, o Banco iria ajudar na sua instalação, cabendo à Direção Geral providenciar a construção de prédio próprio, casas para o gerente e o contador, além de alojamentos para os funcionários, visto que a cidade não dispunha de qualquer infraestrutura habitacional.

Depois de quatro anos e dois meses em Monte Carmelo, fui designado para assumir a gerência de Lavras, isso a 27/10/1958. Na época, já havia o prenúncio da grande preocupação do Governo Federal com a produção do café do país, não só com a sua qualidade, como também com a baixa produtividade, visto que os agricultores tinham abandonado grandes áreas dos velhos plantios.

Urgia portanto uma nova política para o setor. Concluiu-se, assim, pela “erradicação” dos cafezais em baixa produtividade e pelo incentivo a um novo plantio, especificamente em áreas mais apropriadas (altitude, por exemplo e novas espécies adaptáveis ao clima do país).

A EMATER – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – teve um papel importante na parte das pesquisas. Foi como transferir ao Banco a grande responsabilidade de conceder financiamentos aos produtores, na forma de indenização pela plantação erradicada.

Era pressão de todo lado, cabendo aos gerentes cuidados especiais a fim de que os financiamentos fossem feitos na exata dimensão dos valores pleiteados. Nesse particular, coube ao grupo de fiscais da CREAI a delicada tarefa de aferir, com total isenção de ânimo, as reais necessidades de cada postulante, não cedendo às pressões para financiamentos de plantações abandonadas há muitos anos. Quanto a isso, tinha plena convicção de que podia confiar na lisura e na competência dos meus fiscais.

Nesse contexto, a Direção Geral autorizou uma reunião em Lavras, com uma equipe especializada, cujo evento esteve voltado para toda o do Sul de Minas, onde se produzia o melhor café dessa importante região.

Muito não tardou e coube-me a tarefa de instalar uma agência na cidade de Bom Sucesso (MG), sem prejuízo de minhas funções na gerência de Lavras. Ainda em Lavras, recordo-me de dois episódios que, descontando o lado hilário, poderiam terminar em tragédia e que marcaram a minha passagem por lá. Nos finais de semana, enquanto praticava tênis no clube local, eu deixava o meu “Aero-Willys” zero quilômetro entregue à guarda de um conhecido flanelinha, mas sempre com a chave no meu bolso.

Certo dia vi aproximar-se do campo um amigo, todo esbaforido, que soltou, meio ofegante: “Seu Harald, tem um Aero-Willys igualzinho ao seu, de “barriga” pra cima, lá no valão perto da linha do trem”. De igualzinho, ele não tinha nada. Era o próprio. Perda quase total, sem seguro, vi-me “no pau da goiaba”, como diz o bom mineiro, o mesmo bom mineiro que me ajudou a remover rapidamente o veículo danificado, evitando um possível incêndio, no perigo da gasolina derramada.

Boa vontade na concessionária não faltou e, em pouco tempo, a preço de custo, a fábrica enviou uma carcaça nova, permitindo-me o aproveitamento da parte mecânica do carro sinistrado.

O segundo episódio ocorreu numa tarde de sábado, quando, refestelado em poltronas recém-reformadas, assistia a um dos maiores clássicos do cinema – “Ben Hur”, estrelado por Charlton Heston, no papel de um judeu distribuidor de bondades nas terras pisadas por Jesus –, quando atendi a uma “futucada” nas costas e um aviso do gerente do cinema:

– “Seu Harald, aquele incendiário maluco que botou fogo nos dois prédios centenários, na mesma praça, tá querendo incendiar a loja de móveis que fica ao lado da sua casa”.

Larguei o conforto da poltrona e saí em disparada, à procura de socorro. Nem cheguei a tanto porque a alma boa do mineiro antecipou-se, e, quando lá cheguei, a minha casa já tinha sido evacuada, a extensa varanda foi derrubada para facilitar a fuga, antes que as chamas invadissem a residência. Enquanto isso, a loja de móveis foi toda destruída e reduzida a um monte de cinzas.

Até então, ninguém na cidade conhecia a identidade do misterioso incendiário. Como não existe crime perfeito, segundo o velho ditado, o simpatizante do Imperador Nero passou a ter os seus dias contados. Numa patrulha noturna pelas ruas da cidade, um pelotão do tiro de guerra local defrontou-se com uma situação suspeita, quando divisaram um indivíduo escalando o muro de uma residência, com certeza para assaltá-la. Soldados do Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte, que estavam a serviço na cidade, foram acionados e efetuaram a prisão do malfeitor.

Corria o ano de 1965, quando, a 02 de julho, fui alçado à condição de gerente principal da agência de Uberaba (MG). Nessa cidade maravilhosa do triângulo mineiro, terra do gado zebu com matrizes importadas da Índia, pude, realmente, viver um período glorioso de minha carreira.

Primeiro, em razão da alavancagem que empreendi na agência, até então deficitária, trazendo-a da quinta para a categoria de terceira classe.

Segundo, pelo carinho da sociedade uberabense para comigo e família, levando-me a citar aqui pequenos motivos que me fazem um eterno devedor de gratidão para com o povo que me foi tão generoso, a contar do honroso título de “Personalidade do Ano” a mim outorgado pelo jornal “Lavoura e Comércio” de 31/12/1968.

Na mesma linha, outra outorga de extraordinário valor me foi conferida numa sessão solene da Câmara Municipal de Uberaba, ao conceder-me o também honroso título de “Cidadão Uberabense”.

Dos meus arquivos pessoais, retiro uma das mais gratas recordações de Uberaba: um “Livro de Ouro” com mais de 70 assinaturas de figuras da sociedade local e de firmas comerciais e industriais clientes do Banco, em razão de bons serviços prestados à coletividade uberabense, durante a minha gestão.

A fidalguia do povo de Uberaba não tem vistas somente para com pessoas físicas. As jurídicas, quando merecedoras, também são alvo de homenagens por este ou aquele motivo, tal como aconteceu com o nosso Banco do Brasil.

Na oportunidade em que a agência de Uberaba completou o seu cinquentenário de existência – 10/08/1916- 10/08/1966 –, foi-lhe prestada uma justa comemoração na Câmara Municipal, numa sessão solene que contou com a presença do seu representante, o ilustre Superintendente de então, senhor Luiz de Paula Figueira.

Uma das marcas da minha gestão em Uberaba está ligada à construção da sede própria da agência, prédio de dez andares, em pleno coração da cidade, a cuja inauguração – que contou com a honrosa presença do Presidente Dr. Nestor Jost – tive o prazer de comparecer, como convidado de honra, já que, há dois meses do término da obra, deixei Uberaba para assumir nova função comissionada em outra agência.

Por decisão superior do Banco, e como que a atender reivindicação de autoridades do município, o prédio velho foi doado à Prefeitura Municipal.

Por um dever de fé e gratidão, não posso me furtar ao registro, neste pedaço de papel, de uma das mais gratas recordações daquela boa terra mineira; o inusitado prazer de ter conhecido e convivido com a mais simplória e cativante pessoa humana chamada Francisco Cândido Xavier.

No longo tempo que por lá passei, dei-me por gratificado em ter estado muitas vezes ao seu lado, aprendendo e fazendo coisas que só um Chico Xavier era capaz de fazer. Candura – do seu próprio nome – honestidade, dignidade, humildade e sobretudo capacidade para distribuir bondade, são alguns dos adjetivos que lhe caem tão bem, num perfeito enquadramento de “justa causa”.

Aprendi o alto sentido da caridade, na distribuição roupas e sopa aos necessitados. Médium respeitado em todo o país, pude avaliar o grau do seu trabalho espiritual, ao contemplar as belas mensagens psicografadas nas concorridas sessões mediúnicas a que compareci. E quem lá comparecia com grande frequência, mesmo sozinha, dando vazão ao seu dote espiritual, era a esposa Elza, que participava das sessões e se sentia muito bem na convivência diária com os frequentadores da casa, na maioria pessoas humildes.

Na hora do cafezinho, Chico Xavier mostrava o seu lado descontraído, ao contar histórias curiosas, que sempre terminavam com as suas já habituais gargalhadas. Por conta disso, o nome de Uberaba me deixa intrinsecamente ligado a uma das maiores figuras humanas que conheci, e que responde pelo nome de Chico Xavier.

Do lado hilário, destaquei apenas este: O japonês Toraichi Hori era dono de uma fábrica de balas doces em Uberaba, cuja marca levava o seu nome T. Hori.

Cliente da agência, e dos bons, certo dia ele próprio quis fazer o depósito da féria diária e foi a mim apresentado, como novo gerente da agência. Após os apertos de mãos e com os olhinhos apertados, saiu-se com esta, sorrindo: – “Nome gerente complicado, nom?”.

O dele não tinha nada de complicado. Por força do agravamento de saúde de um parente muito próximo, abandonei a ideia de tentar voos mais altos na minha carreira. Tinha o propósito de “bandear” para o estado de São Paulo, na tentativa de conseguir a gerência em cidades como Campinas, Santos, Ribeirão Preto e até mesmo alguma agência metropolitana na capital. Entretanto, a necessidade de me manter próximo aos parentes aqui no Espírito Santo inibiu-me de alcançar novos horizontes, colocando, então, Vitória como prioridade número um.

Com uma boa dose de sorte – no curso da minha carreira, sempre dizia para meus botões que o fator sorte é o grande aliado de qualquer sucesso na vida –, e, vencida a concorrência na mula mecânica, fui designado para a gerência de Vitória, cuja posse se deu no dia 14/07/1969.

Agência grande, uma das mais antigas, grandes também eram os seus problemas. Na medida do possível e com a ajuda de companheiros de administração, as coisas foram chegando aos devidos lugares. Priorizei o setor de câmbio, cujas operações mostravam-se incompatíveis com o grande movimento do porto de Vitória. A maioria dos contratos de exportação e importação era fechada junto aos bancos da rede privada. Aos poucos, com o empenho dos encarregados de câmbio e funcionários e benefícios fiscais como os do Fundap, o setor cresceu de produção, levando-me ao orgulho de anunciar que a agência de Vitória foi classificada entre as dez primeiras do país, com destaque para o setor de câmbio.

Dois fatos deixaram-me marcas indeléveis quando gerente de Vitória.

O primeiro, em fins de 1969, quando o Banco, na esteira de outros eventos que vinham sendo realizados nas principais capitais, implantou o uso do cheque-ouro aqui no Espírito Santo, em ato solene levado a efeito no Palácio Anchieta, na administração do governador Christiano Dias Lopes Filho.

O outro, de sabor extremamente desagradável, por volta de 1972, prendeu-se ao lamentável episódio no qual o prédio Martinho de Freitas, vizinho ao nosso, na Praça Pio XII, apresentou fissura na sua construção, ameaçando desabar em cima da nossa principal agência. Tivemos de agir rápido junto à Direção Geral, que não mediu esforços em nos atender, enviando imediatamente uma equipe de engenheiros para evitar uma possível catástrofe. Num curto espaço de tempo, removemos, por inteiro, toda a agência centro – à exceção da tesouraria geral – para um armazém cedido pela administração do porto de Vitória, onde se instalou a parte administrativa e passamos a atender o público de modo muito precário, enquanto a Gerência e os setores Câmbio, Cacex e Fiban foram para o Edifício Santa Mônica.

Nesse triste episódio todo mundo colaborou, mas, por dever de justiça, faço créditos especiais ao Dr. Jacob Ayub, Superintendente do Porto que não mediu sacrifícios para ceder as instalações da autarquia e, de modo especial, o Subgerente da agência Edinaldo Miranda Cerqueira, o Chefe de Serviço José Alves de Oliveira, o Administrador Genaro Queiroz de Araújo (in memorian), e o colega Guilherme Abaurre Sobrinho, pelo desprendimento com que se entregaram à ingente e ingrata tarefa.

A engenharia capixaba, assessorada pelos técnicos da ENGEN, houve por receber aplausos nas obras de reforço no edifício Martinho de Freitas, que felizmente continua de pé até os presentes dias.

De resto, e como que a dar um fecho alegre a esta entrevista, menciono o fato de a réplica da Taça Jules Rimet, arrebatada em 1970 nos campos do México, ter ficado exposta na agência de Vitória por vários dias, quando foi homenageado o capixaba tri-campeão mundial José de Anchieta Fontana.

Antes do fecho destas notas, quero registrar a felicidade que tive, quando gerente de diversas agências, de ter trabalhado com colegas da mais alta competência, que muito me ajudaram na conquista de boas gestões, entre os quais cito José Ribeiro (Monte Carmelo), Paulo José de Abreu (Lavras), Dam Índio Brasil (Uberaba), José Rodrigues, Edinaldo Miranda Cerqueira, Hernani Ribeiro de Souza, Ary Lopes Ferreira, José Alves de Oliveira (Vitória), e muitos outros.

Após a aposentadoria por tempo de serviço, ocorrida no dia 30/12/1977, no último posto da carreira de Contabilidade, só não pendurei as chuteiras em definitivo, porque acedi ao convite do então presidente do Banestes, o colega Rudy Maurer, com a anuência do Governador Eurico Rezende, para desempenhar funções de mando no Banco do Estado do Espírito Santo.

Passando por Assessor Especial da Diretoria, Diretor Financeiro até a AGO de 1982, Diretor de Relações com o Mercado, Diretor-Presidente das subsidiárias Banestes Financeira, Banestes Crédito Imobiliário, Banestes Seguros e Banestes Distribuidora de Títulos e Valores, Diretor Vice-Presidente do Banco até a AGO de 1982, alcancei, finalmente, o posto de Diretor-Presidente Interino do Banco por força de renúncia do titular, permanecendo nesse cargo até 26/04/1982.

Estes, meus amigos, os traços profissionais de minha vida simples, da qual apartei 34 anos para dedicação ao nosso Banco. Nesse longo período, pude assistir, com orgulho, a vitoriosas investidas profissionais de muitos colegas, ora no desempenho de altas missões no Banco, ora cedidos, por requisição, a órgãos do governo federal para importantes funções dentro e fora do país. Sobra-me a impressão de que o plantel de funcionários desta grande Casa, desde os mais antigos até os que ainda se encontram em atividade, continua a ostentar o rótulo da competência e da dignidade.

Dou-me feliz por isso e injeto neste relato o meu desejo de que os colegas mais novos continuem na construção deste templo que já completou duzentos anos de existência, e que ainda pode orgulhar-se de ser um dos maiores empregadores deste país.

Abraços a todos.

 

Fonte: Informativo da Associação Dos Funcionários Aposentados e Pensionistas do Banco do Brasil no Estado Do Espírito Santo – Ano XVI – Nº 34 • Abril 2012
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2020

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