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Hermógenes - Amor pela Barra

Conceição da Barra - Rio Cricaré

Hermógenes tinha grande admiração pelo folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, com quem andou pelos lados do Sapé do Norte e de quem lia e voltava a ler obras como Civilização e Cultura. Em entrevista para a edição comemorativa aos seus 70 anos de idade e 50 de atividade literária, Cascudo fala sobre um ponto que tem muito a ver com a trajetória de Hermógenes: “Nunca pensei em deixar minha terra. Queria saber a história de todas as coisas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios e analfabetos, sabedores dos segredos do mar, das estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço. Percepção medular da contemporaneidade... Impossível dividir conterrâneos em cores, gestos de dedos, quando a terra é uma unidade com sua gente... tudo tem uma história digna de ressurreição e de simpatia. Velhas árvores e velhos nomes, imortais na memória. Foram os motivos de minha vida expostos em todos os livros”.

Aos 12 anos, Hermógenes embarcou com a mãe e o irmão Ivo no navio de cabotagem Lud e, após longa viagem, aportaram em Vitória. Foi morar em Paul, município de Vila Velha. A vida de menino livre do sertão seria bruscamente mudada com a nova realidade da capital.

O panorama era completamente diferente das paisagens bucólicas do sertão de Itaúnas e das ruas de Conceição da Barra. Todavia, não deve ter lhe causado grande estranhamento, senão perplexidade, mesmo porque sempre se declarou um apaixonado por Vitória. É certo também supor que essa paixão só teria aflorado plenamente quando as dificuldades se amainaram.

Assim que chegaram à “Cidade Presépio do Brasil”, como Vitória era divulgada, sua mãe começou a trabalhar como empregada doméstica e se arranjou como podia com as crianças. Não muito tempo depois, conseguiu outro emprego e, sem ter com quem e nem onde deixar os meninos, viu-se forçada a tomar uma decisão dolorida: internou os garotos no Orfanato Cristo Rei, que funcionava na Cidade Alta sob a direção do padre Leandro Dell’Uomo,

Nesse orfanato havia uma “tropa” com 40 escoteiros e dois lobinhos. Acompanhado por uma banda de música, o padre percorria o interior do estado com a tropa buscando donativos para o orfanato. Hermógenes tornou-se um dos integrantes desse grupo.

Sempre franzino Ivo não demorou muito ali. Tendo contraído uma doença grave, sua mãe o resgatou, levando-o para tratamento e depois o mantendo junto dela. Hermógenes agüentou por uns tempos, mas não era feliz longe da mãe, do irmão e, claro, do mundo aberto lá fora.

Um dia, em uma das visitas que sempre fazia no orfanato, sua mãe apareceu com um homem, que lhe apresentou, dizendo: “Meu filho, este é Terêncio Costa, o Capitão, e quer falar com você”. Sem muito rodeio, Terêncio o cumprimentou dizendo: “Venho aqui pedir a mão de sua mãe em casamento. Você concede? Como não havia muito que dizer, Hermógenes, surpreso, balançou a cabeça afirmativamente respondendo com timidez: “Sim”. Mal sabia que aquele homem – que à primeira vista lhe inspirava receio – seria um verdadeiro anjo. O anjo que viera com a missão de resgatar, amparar, dar um lar e unir os laços daquela família.

Do tempo que ficou no orfanato, conforme contou mais tarde, os piores momentos eram durante as visitas aos domingos. Ouviu muito “coitadinho”, dito repetidamente pelas senhoras que costumavam fazer essas visitas, que dessa forma agravavam o sofrimento dos meninos. Tanto que Hermógenes aboliu do seu dicionário essa palavra.

Naquele período, entretanto, nem tudo parece ter sido ruim. Teve contato com os clássicos da literatura – fora autodidata e lia bem antes de ir para a escola – trabalhou na alfaiataria e na sapataria da instituição e gostava do escotismo. Contudo, havia um desalento que persistia. Após um período de férias em que sua mãe e Terêncio o levaram para conhecer sua casinha e de passar com eles uns dias, Hermógenes, ao voltar para o orfanato, caiu doente. Teve febre, ficou de cama. Aparentemente, “não era nada”. O médico o examinou no orfanato e chegou à conclusão que não se tratava de doença física, era coisa de emoção, um mal que, aliás, tenderia a piorar se ficasse ali. Diante disso, Rosa e Terêncio o retiraram do orfanato e o levou para morar junto deles na mesma casinha que estavam ainda construindo no Morro da Fonte Grande. Terêncio, como ficou sabendo, tinha o apelido de Capitão. Era baiano de Alagoinhas e trabalhava no Porto de Vitória.

Hermógenes sarou logo e se tornou um grande ajudante de Terêncio e da mãe, assumindo os serviços da casa, lavando, varrendo o terreiro, buscando lenha na mata, cortando com machado e com facão, acendendo o fogão, ajudando na construção e ampliação da casa, levando marmita para Terêncio. “Era bom de serviço o moleque”, elogiava Terêncio. Felicidade de todo lado. Terêncio e Hermógenes tinham se afeiçoado.

Um dia, Terêncio chegou com uma novidade: arranjara um serviço para Hermógenes em uma “birosca”, lá mesmo na Fonte Grande. Contente, Hermógenes foi trabalhar, ajudando nos afazeres daquela pequena venda. Mas foi por muito pouco tempo. Sucedeu que houve lá uma reclamação de um cliente por conta de um troco que ele atestava que estava errado e Hermógenes ficou entre os suspeitos de alguma culpa. Chateado com o fato, e mesmo temendo a reação de Terêncio, Hermógenes contou tudo em casa. Para sua surpresa, imediatamente Terêncio o tomou pelo braço e desceu a ladeira. Chegou à birosca e disse para o dono. “O menino não tem culpa alguma. Ele não apanhou nada. Eu confio nele. Mas, agora, eu é que não quero que ele trabalhe aqui!” Pronto. Estava suprida a falta que tanto sentia do pai. Com a estima elevada, agora sabia que era gente, de novo.     

Algum tempo depois, num dia 1º de abril que ele nunca esqueceu, Terêncio anunciou: “Hermógenes, arranjei um emprego pra você no Western Telegraph!” Alegria geral.  Meio acreditando, meio não – afinal aquele era o “dia da mentira” e Terêncio era um tremendo brincalhão – foi até lá. Não é que era verdade? Hermógenes estava empregado. Ocupou a função de estafeta, passando em seguida a praticante, galgando após o posto de telegrafista e outros cargos na empresa, onde permaneceu trabalhando até sua formatura como contador, em 1944.

Segundo sua filha Angélica, Hermógenes nunca se esqueceu do dia em que recebeu, em primeira mão, a mensagem telegráfica que no dia seguinte seria manchete de todos os jornais do mundo: “Roosevelt is death”, noticiando a morte do presidente norte-americano.

Terêncio e Rosa tiveram filhos, mas, por conta de gripes, epidemias, sarampos, somente Amélia Costa Silva escapou.

Desde que viera para a cidade, Hermógenes não havia retornado a Conceição da Barra, o que veio a fazer em companhia de Terêncio, que logo se enturmou com todos e conseguiu reatar os laços daquela família.

Terêncio nunca falou da família dele. Era um segredo. Somente mais tarde sua neta Angélica descobriu em Salvador (BA) que ele era de família bem conceituada e bem estruturada economicamente. Tendo se desentendido com o pai, por motivo desconhecido, resolveu fugir de casa ainda adolescente para jamais retornar.

Sua casa na Fonte Grande fora para os netos que viriam mais tarde “um verdadeiro oásis”, cheio de plantas e flores por todos os lados. Terêncio dedicava-se ao cultivo de plantas medicinais e, reunindo profundo conhecimento no assunto, gostava de preparar chás e xaropes para a família.

Ivo, o irmão de Hermógenes, era estudioso e espiritualista. Dele pouco se soube, apenas que trabalhou na Imprensa Oficial. Porém, com a saúde sempre frágil, morreu antes dos 50 anos de idade, ainda solteiro.

Hermógenes logo se adaptou a seu novo ambiente. Sentia-se feliz e, literalmente, em casa. Na Fonte Grande moravam também inúmeras famílias com histórias parecidas com a dele. Muitas vieram do interior do Estado em busca de trabalho e sobrevivência na capital, trazendo costumes de diferentes tradições culturais. Ali surgiram amizades sinceras, considerações afetivas, convívio harmônico e de ajuda mútua nas inúmeras dificuldades.

Depois de passar pelo orfanato, e de ali estudar, Hermógenes concluiu os estudos na Escola da Cruzada Nacional de Educação e no Ginásio do Espírito Santo. Sempre que ouvia o Hino à Bandeira ele se emocionava. Na Escola Superior do Comércio de Vitória, formou-se em Contabilidade. Foi com essa profissão e com o ofício de professor que, durante toda a vida, ele garantiu o sustento da família e teve o apoio que precisou para desenvolver suas outras atividades. Como contador também teve o primeiro lastro necessário para transitar entre as figuras proeminentes da sociedade da época.

“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”, dizia Paulo Freire.

Hermógenes não só pensava nessa direção como também praticava esse sentimento no contato com as pessoas. Em Vitória, ele criou profundos laços de amizade, tornando-se figura amada e respeitada por todos. No seu livro Contos do Pé do Morro, expressa a ternura que sentia pelos moradores do Morro da Fonte Grande, de outros morros e também por moradores de rua, atestando conhecer amiúde a condição de vida de cada um, os aspectos de suas moradias, suas lutas e dificuldades. Era um freqüentador assíduo dos morros, não só da Fonte Grande e Piedade, de suas escadarias e becos, assim como de botecos boêmios como o Britz Bar, do Mercado da Vila Rubim, do Porto, da pensão da Aurora Gorda, das casas de meretrício da Volta de Caratoíra, das praças Oito de Setembro e Costa Pereira.

Flanava pelas ruas da cidade, anotando assuntos para as crônicas, falando com um e outro, independente de posição social. Quando não conhecia a pessoa, puxava assunto começando sempre: “O senhor é de onde mesmo?”, a resposta, fosse qual fosse, seria o gancho para o início de uma prosa, um causo, e uma nova amizade.  Era o que gostava de fazer, comentando um fato, ouvindo ou contando um ‘causo’; assistindo a muitos nas suas diversas necessidades. Pois, como frisa a filha Luiza, “papai não sabia dizer não”.

Hermógenes tinha paixão por Vitória: "Se me fosse possível casar com uma cidade, de papel passado, de comunhão, na igreja, faria isso com Vitória, e me deitaria em suas ruas, seus morros, suas praças, fazendo-lhe juras de amor pelo resto da vida". 

Foi no Morro da Fonte Grande que Hermógenes começou a travar contato com as bandas de congo de Vitória, começando pela Vira Mundo, de lá mesmo. Depois, conheceu a Amores da Lua, do bairro Santa Martha, e a Panela de Barro, de Goiabeiras. Também se entrosou com os blocos de batucadas, como o Chapéu do Lado, da Fonte Grande, que animavam o carnaval, ganhando a confiança e a amizade de todos os seus integrantes, participando das suas atividades e contribuindo para a organização e valorização desses grupos

Hermógenes viveu o morro, estudou a vida no morro, desenvolveu pesquisas, levantou e escreveu a história daquelas comunidades, geralmente carentes de recursos materiais, mas ricas na arte da boa convivência, na amizade sincera, na religiosidade e devoção, nas suas tradições culturais, a exemplo dos folguedos do congo, dos reis e do carnaval.

Encantado com o carnaval, e graças à sua habilidade em organização, reuniu os grupos dispersos que animavam a festa de momo e fundou a União das Batucadas e Escolas de Samba (UBES). A entidade foi importante até para preservar os blocos de eventuais proibições por parte da polícia ou de autoridades da igreja Católica. A criação da UBES constituiu-se no passo fundamental também para o advento das Escolas de Samba de Vitória.

 

Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo - Hermógenes Lima Fonseca, 2013
Texto: Bartolomeu Boeno de Freitas
Coordenação: Antônio de Pádua Gurgel

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