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Hermógenes - Menino Livre

Menino livre

 

Hermógenes nasceu a 12 de dezembro de 1916 no Sítio José Alves, localidade de Palmeiras, distrito de Itaúnas, município de Conceição da Barra e viveu 79 anos, falecendo a 15 de maio de 1996, em Vila Velha, no mesmo Estado do Espírito Santo.

Ganhou esse nome por conta do santo do dia: Santo Hermógenes. Mas, conforme registra o amigo e escritor Maciel de Aguiar, por conta de um vacilo do tabelião da época, carregou o nome de Hermógenes até os 20 anos, quando se corrigiu o equívoco. Era filho do lavrador Manoel Fonseca, cujos pais eram de origem portuguesa mestiçada com índios. Sua mãe, Rosa de Lima Fonseca, era filha de Honorato, um sobrevivente da tribo dos índios botocudos da Serra dos Aimorés (MG) com uma descendente de escravos. Desse choque de etnias e múltiplas culturas nasceu Hermógenes. Dos filhos que o casal teve, só escaparam ele e o irmão Ivo.

Conforme seus próprios escritos atestam, fora um menino que viveu livre, sempre ativo, curioso, que cresceu solto junto à natureza, pelos matos, tomando banho nos córregos, pescando, convivendo e aprendendo tudo com as pessoas simples do lugar que, diga-se de passagem, de várias etnias que ali se harmonizavam, com suas culturas diferentes, e que, como ele registrou, “tiveram plasmados esses sentimentos ao desabrochar da vida nesse magnificente cenário de alegria estonteante, de infância despreocupada correndo na praia, rolando na areia, pescando no rio, apanhando siri, chupando caju, procurando gagirus, tirando pitanga, colhendo cambucás e saboreando mangabas”.

Teve com o pai uma relação de profunda afeição, conforme costumava relatar, não se esquecendo das histórias que lhe contava, do prazer em andar com ele na garupa do cavalo para um ensaio de reis, para uma festa, uma visita a parentes ou outra função pelos caminhos do sertão barrense. Seu pai cultivava mandioca, fabricava farinha, era brincante no reis de boi.

Desde cedo Hermógenes também se integrou aos folguedos populares, participando do elenco da bicharada do grupo de reis, no qual seu pai atuava como vaqueiro. Tomou gosto, entronizando-se aí na obra de folclorista, à qual dedicou especial atenção pelo resto da vida. Quem sabe, talvez tenha prometido também aos Santos Reis, a São Benedito e a São Sebastião, como o fez Chico Danta, tornar-se cativo deles, trabalhando até o fim da vida pela preservação de seu culto e devoção.

“O rio era tudo de maior importância para minha vida nos primeiros dias da minha infância”, declara Hermógenes. Suas reminiscências de criança estão registradas aqui e ali em muitos ‘causos’ em seus livros, especialmente em Curubitos (que na tradução dele significa aqueles pedacinhos de coco que quem rala não consegue mais ralar porque fere os dedos). Na crônica Martim Pescador, ele desvenda o misterioso comportamento do curioso pássaro que habita os rios, inclusive o Angelim e o São Domingos, onde suas idas e vindas, ao som de “guapo, guapo, guapo” de suas asas, sempre o intrigava. Para isso, fez pesquisa de campo e até colheu depoimento com o homem da venda e conseguiu as informações que queria.

É junto ao rio também que se desenrola a história dos filhotes de siricora que, compadecido compra na feira para salvá-los da morte iminente. Mas, acaba tendo um trabalho tremendo para cuidar deles até poderem ser liberados para viverem por conta própria na natureza.

No texto Meu primeiro bodoque, ele conta em prosa muito agradável, com detalhes, como construiu seu primeiro bodoque. Bodoque vem a ser um artefato usado para caçar passarinhos, parecido com o arco dos índios. Narra também como era o processo de produção das pelotas de barro para serem atiradas com o bodoque nas caçadas e ainda registra as suas primeiras e únicas vítimas: uma casa de temidos marimbondos e uma coruja. Troféus bastante festejados a princípio. Mas sentiu que, de algum modo, essa arte de matar não lhe agradava, sendo logo abandonada. Nota-se neste texto o espírito brincalhão do autor, como no ponto em que se vendo na condição do criador daquela obra, no caso o bodoque, faz uma alusão à Criação no texto bíblico: “Em toda a obra gastei seis dias e no sétimo descansei, porque era domingo”.

Aos seis anos de idade, Hermógenes mudou-se com a família para o Sítio dos Caixeiros, na localidade de Angelim, no próprio distrito de Itaúnas, quando da morte do seu pai. Sozinha com as crianças, Rosa não viu alternativa senão mudar. Preparou umas quartas de farinha, alguns outros mantimentos, umas mudas de roupa e outras utilidades, pôs Hermógenes, Ivo e o garoto Drísio numa canoa e romperam pelo Angelim afora, revezando-se no remo até chegar ao cais de Conceição da Barra. Rosa vendeu o que pôde, conseguindo uns trocados e um lugar pra ficar na cidade. Daí, Hermógenes foi ganhando noções de urbanidade e do mundo à sua frente para andar nele “como um cachorro do pé queimado”, como diziam os mais velhos lá da roça.

Apesar da vida profissional séria que teria pela frente, seu espírito brincalhão e festeiro denunciava que jamais perdera o contato com as lembranças da infância e, frisa-se, aquela liberdade infantil foi um traço destacado de sua vida. Fora um homem livre, na condição possível de se exercer a liberdade, à sua época. Até porque estava traçado que por várias vezes enfrentaria o cerceamento ou o patrulhamento deste direito humano inalienável, marca daqueles “anos de chumbo”, aos quais resistiu à sua moda serena, quase contente.

 

Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo - Hermógenes Lima Fonseca, 2013
Texto: Bartolomeu Boeno de Freitas
Coordenação: Antônio de Pádua Gurgel/ 27-9864-3566 
Onde comprar o livro: Editora Pro Texto - E-mail: pro_texto@hotmail.com - fone: (27) 3225-9400

 

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