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Humor, Vergonha, Coragem e Tragédia - Por Álvaro José Silva

16 de dezembro de 1968. A Seleção Capixaba de Remo está em Porto Alegre para o XXXVII Campeonato Brasileiro.

O rapaz sentou-se na cadeira do barbeiro e pediu a ele que lhe fizesse a barba. O barbeiro olhou, viu que se tratava de um jogador adversário, e perguntou:

— "Ocê" é do Espírito Santo, cabra?

— Sou — respondeu o outro.

— Pois então trate de voltar para sua terra, depois do jogo, com o rabo entre as pernas. Os capixabas só vão ganhar dos baianos aqui em Salvador no dia em que nascer cabelo em bola de bilhar.

Não houve discussão. O jogador pagou a barba, foi embora e encontrou-se com os demais companheiros no hotel onde a Seleção Capixaba estava hospedada para o jogo contra a Seleção Baiana, pelo Campeonato Brasileiro de Seleções estaduais que se disputava naquela época, lá por meados das décadas de 30/40. À noite, foram todos para o acanhado estádio — nem se sonhava ainda em construir a Fonte Nova — onde seria jogada a partida. Ao final dos noventa minutos, uns poucos milhares de baianos pasmados olhavam para o placar onde se via escrito: Bahia 0 x 1 Visitante.

Os capixabas dormiram bem aquela noite. No dia seguinte, antes do embarque de volta a Vitória, um dos jogadores saiu cedo do hotel para ir à barbearia. Entrou, como havia entrado naqueles lugares todas as vezes anteriores, e sentou-se na cadeira do barbeiro.

— Barba, por favor.

— Sim senhor.

Esperou tranquilamente que o trabalho terminasse, perguntou o preço, pagou e então virou-se para o barbeiro:

— Tem salão de bilhar por aqui por perto?

— Tem, sim senhor.

— Então vá lá barbear as bolas. Eu pago. E, ato contínuo, foi embora. O ônibus já esperava a delegação para levá-la ao aeroporto, onde um moderno DC-3 da Aerovias Brasil a traria de volta a Vitória. A equipe que, com aquela vitória, chegava à fase final do Campeonato Brasileiro, não foi campeã. Jamais seria, mas sempre faria bonito.

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Numa outra ocasião, a Seleção Capixaba jogava contra a de Minas no Estádio Independência, em Belo Horizonte, e de repente um jogador mineiro entrou sozinho na área. Em condições normais, aquela não seria uma situação desesperadora. Afinal, estava no gol nada menos que Dias III, para grande parte dos torcedores, jogadores, dirigentes e demais esportistas, o maior goleiro da história do futebol capixaba. Ele saiu do gol e preparou-se para defender a bola.

De repente, o acidente. Dias havia apertado demais o cordão do calção que vestia e, no retesar dos músculos da barriga, com o corpo pendido para a frente, esse quebrou. A vestimenta escorregou pernas abaixo, deixando-o com as "partes" de fora. Pobre goleiro!

Dias III era um caboclo. Caboclos raramente usam cuecas. Ou ceroulas. Ou coisas parecidas. Mas têm muita vergonha, sobretudo de se mostrarem em público. A reação imediata foi a de se abaixar tão rápido como o vento, pegar o calção e vesti-lo com a velocidade do raio. Infelizmente, não havia mais tempo para Dias pegar a bola chutada pelo mineiro, e que passava por ele. Os locais comemoraram entusiasticamente o gol e a vitória do seu time. Os capixabas saíram de campo agastados.

Vermelho como pimentão, agarrando forte o calção com as duas mãos, o mais triste e envergonhado era o goleiro. Todos os demais estavam derrotados. Só ele, justamente o melhor, saía derrotado e humilhado.

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Essas acima são duas das muitas histórias do velho futebol capixaba. Foram contadas por protagonista e testemunha. O rapaz do episódio da bola de bilhar jogou pelo Rio Branco e pela Seleção Capixaba durante anos. Trabalhou na Vale e, como jornalista, em A Gazeta. Morreu em 14 de dezembro último. Chamava-se Francisco Oliveira Neves, mas todos o conheciam por Carlota. O gol sofrido por Dias III foi visto a pouca distância pelo meio-campo Darly Santos, craque do Vitória e da Seleção Capixaba. Depois de encerrar a carreira, foi radialista na Rádio Espírito Santo e jornalista em A Gazeta, onde todos o conheciam como Mickey. Morreu em 21 de maio de 1985.

O futebol não é o único esporte rico em histórias. Elas existem aos montes em todos os demais. E a maioria aconteceu em Vitória, ou então envolvendo gente nascida ou que atuava nas equipes escolares e clubísticas de nossa cidade.

Houve época em que o esporte colegial era grande por aqui. Havia até as Olimpíadas Escolares, envolvendo estudantes dos diversos estabelecimentos. Foram famosos os duelos entre alunos do Americano e do Estadual.

Com o passar dos anos, o eixo de direção das modalidades amadoras deslocou-se devagar das escolas para os clubes. Elas passaram a promover cada vez menos competições, e eles cada ano mais. O esporte federado, aquele ligado a uma federação, tomou conta do Estado. Os clubes, então, viraram fornecedores de atletas para os colégios, em vez de o inverso, como seria melhor.

O que houve? Um fenômeno que atingiu o país todo. O golpe responsável pela queda do presidente João Goulart, em 64, além de outras medidas, procurou castrar as lideranças estudantis. Grêmios culturais e esportivos foram perseguidos e extintos. O cerco em torno das atividades políticas nas escolas, fossem elas quais fossem, refletiu-se negativamente em todas as áreas. Caiu o nível do ensino. Foram restritas a um mínimo quase intolerável as atividades culturais. Minguaram e quase morreram as promoções esportivas.

Os clubes sociais salvaram o esporte. Saldanha, Álvares, Praia, Iate e, mais recentemente, o Ítalo, todos de Vitória, passaram a promover mais modalidades. A eles somaram-se outros, de municípios da Grande Vitória e do interior. O futebol amador sobreviveu graças à grande quantidade de pequenos clubes de bairros e de várzea, que continuaram arregimentando jogadores e disputando torneios, oficiais ou não. Também "alimentando" as equipes profissionais.

O fim da ditadura militar fez surgir outra realidade. Mas a recuperação do esporte estudantil não podia ser conseguida de uma hora para outra, porque muitos colégios construídos após 64 simplesmente foram projetados sem uma única área destinada a lazer.

O esporte comunitário também sobreviveu. E cresce. Nesse caso, graças principalmente a instalações públicas destinadas à prática esportiva, localizadas em praças. Vitória as tem em bom número. E ainda desenvolve projetos que visam a incrementar mais esse tipo de atividades entre membros de comunidades. Ou entre diversas comunidades de bairros.

Hoje, o poder público contribui para a melhoria do nível de equipes e esportistas. Exemplo dessa contribuição: a lei Jayme Navarro de Carvalho. Desde sua criação, vem sendo alvo de estudos, aperfeiçoamentos, críticas, e ajuda no desenvolvimento das mais diversas modalidades.

O futebol, embora profissional, vez ou outra conta com algum auxílio. Rio Branco e Vitória, ambos da capital, são a própria essência desse esporte no Estado. Clubes mais antigos ainda em atividade têm vidas que dariam livros. O Rio Branco, por exemplo, é dono da maior coleção de títulos regionais do Brasil.

Dessa forma o esporte vai percorrendo seu caminho, procurando a afirmação. E, como todos os setores da vida, vive de suas vitórias — os desafios vencidos — e das histórias, muitas hilariantes, do passado — a herança histórica.

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16 de dezembro de 1968. A Seleção Capixaba de Remo está em Porto Alegre para o XXXVII Campeonato Brasileiro.

Moribundo, o esporte que passaria uma década sem competir prepara-se para a despedida nacional. A delegação havia chegado três dias antes, numa penúria de fazer dó. Os barcos eram todos emprestados. No Congresso Técnico, o chefe da delegação, Alberto Monteiro, pediu para a equipe correr com o uniforme do Grêmio. A autorização foi dada.

As dificuldades dos remadores (no Espírito Santo, à exceção da Desportiva, o remo está todo sediado em Vitória) eram muitas. No dia da regata, o "oito" começou a fazer água pouco depois da largada. Quando cruzou a linha de chegada, em quarto lugar, naufragou. Mas os remadores haviam prometido ao chefe da delegação que correriam todos os páreos. Houvesse o que houvesse. E houve.

No dia 15, véspera da disputa, os atletas subiram as escadas do Rahel Hotel, onde a delegação estava hospedada, brincando com as janelas tipo guilhotina que davam para a rua. Soltavam cada uma das que iam atingindo, para vê-las fechar. Luís Carlos, o Orelhinha, skiffista do Saldanha da Gama, resolveu fazer o mesmo, mas esqueceu o polegar direito no parapeito da janela. Quando a "guilhotina" caiu, atingiu-o em cheio. O sangue jorrou enquanto o remador, que gritava, era atendido pelos companheiros. O dedo estava quase esmagado.

O médico que o examinou pouco depois vetou-o. Mas o rapaz chamou Alberto Monteiro, e fez um pedido: queria ser anestesiado para correr. Discutiu-se o assunto, e ganhou o pedido de Orelhinha.

No dia seguinte ele foi à raia com o polegar enfaixado, sangrando e anestesiado. Mas a anestesia aplicada não conseguia evitar a dor. Orelhinha optou por remar mesmo assim. Todos os dois mil metros. Com dores atrozes no dedo, que a cada instante inchava mais. Cruzou a linha de chegada em quinto lugar e precisou ser retirado no skiff. Estava praticamente desmaiado.

O Espírito Santo ficou em quarto lugar no Brasileiro (o campeão foi o Rio), e a delegação voltou a Vitória sabendo que os clubes, sobretudo Álvares e Saldanha, sem condições de man-tê-los, iam encerrar as atividades. Só não sabiam por quanto tempo. Desconheciam que a tempestade passaria, e tudo voltaria a ser como antes. Na bagagem, a delegação trazia, dada pelos gaúchos, uma camiseta de remo, preta, azul e branca, suja de sangue.

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Os maiores campeões do remo capixaba formaram o trio Harry Mosé (já morto), João Arruela Maio e Chiquito Furtado. Era o "dois com" do Álvares Cabral, com Chiquito de "patrão". Foram campeões sul-americanos em Valdívia, no Chile, e na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Isso, na década de 50.

Mas não são os únicos grandes nomes do remo no Estado. Outro frequenta a mesma constelação de estrelas: Wilson Freitas, do Saldanha. Invencível por aqui quando remava, representou o Brasil nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, e virou lenda. Hoje é nome do ginásio de seu clube, no Forte São João.

Wilson de Freitas Coutinho nasceu em 1910 e, em 1945, aos 35 anos, era um atleta em fim de carreira. Tinha uma "cachaça": gostava de voar, e havia se brevetado em 1942. No dia 25 de março de 1945, precisou fazer um vôo até Campos, Estado do Rio, onde sua filha Wilze, sete anos, iria ser operada para tentativa da correção de um quadro de paralisia. Wilson decolou às 6 horas do Aero Clube (na época funcionava no aeroporto, em Goiabeiras) para Campos, com escala em Barra do Itapemirim. Viu a filha, ficou mais aliviado, e iniciou retorno com outra escala no mesmo balneário capixaba. Lá encontrou amigos, conversou, comprou uma melancia, colocou-a no "General Mallet", o Piper Club de prefixo PP-TRF que pilotava, despediu-se das pessoas e decolou.

Mas antes de vir embora, resolveu fazer uma brincadeirinha. Viu alguns amigos indo embora num jipe, e decidiu dar um "mergulho" sobre o veículo, para um "susto". Brincadeira melhor que essa não existia...

O "General Mallet" embicou, e a melancia soltou-se de onde estava presa, parando entre o banco de Wilson e a coluna do manche (espécie de volante). Quando o remador tentou trazer o avião para a horizontal, o fruto impediu o movimento do comando. Ele fez força, realizou a manobra, mas era tarde. A ponta da asa esquerda bateu no jipe, o Piper chocou-se contra o chão, capotou e virou uma bola de fogo. O remador saiu de lá andando, em chamas, caiu e foi socorrido. Eram 14 horas.

O maior ídolo da história do Saldanha morreu às 22 horas, oito após o acidente, na Santa Casa de Cachoeiro de Itapemirim. Foi sepultado no dia seguinte às 16h30m, saindo o enterro da sede do clube, no Forte São João. Milhares de pessoas acompanharam o trajeto. Levaram uma lenda para o cemitério de Santo Antônio. Uma lenda de glória e tragédia.

Eis o esporte. Aqui em Vitória e em qualquer lugar do mundo. Ele é bom humor diante da vitória inesperada, vergonha pela derrota menos aguardada ainda, coragem que vence a dor e o medo, e tragédia capaz de parar uma trajetória de glórias.

Tudo isso e muito mais.

 

Foto: Equipe do "4 com" do Saldanha da Gama em um campeonato em Porto Alegre - RS em 1968.
Meu irmão, João Everaldo Simor, foi um grande remador do clube nos anos 60, onde era conhecido como "Alemão" ou "Manga Rosa". Para a família e demais amigos era também conhecido como "Filinho". Da esquerda para direita:
O primeiro não lembro o nome; Alemão (meu irmão); Budi; Varejão (pai do famoso jogador de basquete) e o "patrão" (leme), que também não lembro o nome.
Quem souber, complete os nomes!

Post de Elcione Simor.

 

ESCRITOS DE VITÓRIA — Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Diretor do Departamento de Cultura - Rogerio Borges De Oliveira
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Conselho Editorial - Álvaro Jose Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Bibliotecárias - Lígia Maria Mello Nagato, Elizete Terezinha Caser Rocha, Lourdes Badke Ferreira
Revisão - Reinaldo Santos Neves, Miguel Marvilla
Capa - Remadores do barco Oito do Álvares Cabral, comemorando a vitória Baía de Vitória - 1992 Foto: Chico Guedes
Editoração - Eletrônica Edson Malfez Heringer
Impressão - Gráfica Ra
Fonte: Escritos de Vitória, nº 13 – Esportes- Prefeitura Municipal de Vitória e Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, 1996
Autor: Álvaro José Silva
Nascido em Vitória (ES). Jornalista, esses textos de Álvaro José Silva estão publicados neste volume por decisão dos demais membros do Conselho Editorial.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2020

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