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Identidade(s) capixaba(s) – Por Francisco Aurélio Ribeiro

Francisco Aurélio Ribeiro em Café Literário da Academia de Letras Humberto de Campos (atual ALVV), 2012

O conceito de "Identidade" é complexo, pouco desenvolvido e pouco compreendido, na contemporaneidade, visto que vivemos um período de fragmentações, de deslocamentos e de descentramento do sujeito, conforme Stuart Hall em A Identidade cultural na Pós-Modernidade (2001). Se considerarmos identidade como um "conjunto de características e circunstâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa e graças às quais é possível individuá-la, conforme a conceitua o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, e capixaba como o "que nasce no Estado do Espírito Santo", temos de convir que existe uma "identidade capixaba", que se define pela diferença de outras identidades de grupos sociais como a "mineira", "baiana", "carioca", "paulista" ou "gaúcho".

A identidade só pode ser concebida como uma construção ideológica e a representação simbólica dessa construção engloba um sistema específico de referências, que só podem ser vistas no demarcar de limites entre o eu e o outro, um processo que está sempre em construção. No entanto, o sujeito pós-moderno não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. Um adolescente brasileiro tem os mesmos ídolos, no mundo todo, haja vista o fenômeno Justin Bieber, faz as mesmas leituras das obras de Sthefanie Meyer, veste as mesmas roupas Nike ou Adidas e torce pelo Barcelona do Messi. Não há como reconhecer um adolescente "capixaba", seja ele de Mucurici seja de Apiacá, em oposição a qualquer outro do mundo inteiro.

O Espírito Santo tem realidades específicas, se compararmos sua transformação histórica do século XVI, quando surge como unidade política, ao século XXI. No primeiro século de colonização, nasceu como capitania promissora, a "mais bem dotada de todas as da terra", conforme Gandavo, um "Vilão Farto", segundo seu primeiro donatário, Vasco Fernandes Coutinho.  Aqui, o aparelho ideológico dos jesuítas criou as bases da cultura capixaba, com a catequização dos nativos. A exploração da madeira nativa, até sua quase extinção, no século XX, do açúcar, em que foi necessária a mão-de-obra escrava de origem africana, e a busca ininterrupta das riquezas minerais formaram os alicerces da capitania dos Coutinho.

Do século XVII ao XIX, por 300 anos, o Espírito Santo ficou abandonado, servindo de escudo natural de proteção às riquezas das Minas Gerais, o que permitiu a existência de inúmeros grupos indígenas nas matas nativas, até o final do século XIX, quando se incentivou a imigração de colonos europeus e asiáticos, para as terras antes ocupadas pelos silvícolas. O Espírito Santo, a partir do século XIX, torna-se um caldeirão étnico, com uma diversidade cultural inexistente em qualquer estado brasileiro, vivendo em pequenas ilhas no interior, alicerçado na cultura do café, base de sua economia por mais de cem anos.

No século XX, com a industrialização, o desmatamento progressivo dando lugar às lavouras de café e pastagens, o Espírito Santo teve mudado seu perfil de rural para urbano. O êxodo rural, a implantação dos "Grandes Projetos" de industrialização, o aumento da população com a emigração de outros estados, a massificação e a popularização da "mídia" provocaram no povo capixaba, uma transformação jamais vista em seu processo histórico de desenvolvimento. A população dobrou, em cinqüenta anos, passando de pouco mais de um milhão, na década de 1950, para três milhões e meio, na atualidade. A maioria nunca estudou a história do Espírito Santo, nada sabe de seus personagens e de seus atores históricos e jamais experimentou uma moqueca ou torta capixaba como os antigos habitantes de Vitória.

Não se pode, portanto, falar de uma identidade capixaba, mas de "identidades". Muitos dos habitantes capixabas, hoje, sequer se identificam com uma "cultura capixaba", se é que ela existe. Há pouco tempo, assisti a uma dança "country" de jovens de Ibiraçu, num Seminário de Cultura Capixaba, na Assembléia Legislativa. Nos 78 municípios capixabas, subsiste um estado cultural remanescente dos nativos da terra, que se reflete na alimentação, no artesanato, na linguagem, na postura afável e tranqüila das mulheres, desconfiada e brincalhona dos homens, na hospitalidade, na religiosidade, traços da população já descritos por jesuítas e visitantes desde o século XVI. A esse enorme contingente se juntou a cultura africana, em seus diferentes matizes, ambas amalgamadas ao colonizador português e espanhol, no período da União Ibérica. Maria Ortiz, a mulher guerreira, é dessa origem e época. Italianos e alemães, sírios e libaneses, pomeranos e poloneses, belgas e luxembrugueses, austríacos e prussianos, espanhóis e japoneses, todos os que procuraram no Espírito Santo um pouco do sonho da "terra prometida", o mesmo que trouxe, também, para aqui, os guaranis, na década de 1970, em busca de sua ‘Aua ‘mbae Porã’, a "terra sem males".

Não é possível falar de uma identidade capixaba sem enfocar as suas diversidades culturais, étnicas, sociais, dialetais, sem conhecimento de seu passado histórico, das diferentes alteridades que buscaram, no Espírito Santo, o sonho de Canaã. E não foi por acaso que Graça Aranha localizou esse espaço idílico bíblico em nosso estado. É o Espírito Santo a terra do aporte, da chegada, mas, também, o da saída, pelos seus oito portos de exportação, por onde escoam as riquezas minerais do Brasil e pelos que buscam fora daqui a realização de seus sonhos, sobretudo artistas e atletas, que não encontram, em sua terra, o palco de suas realizações.

É o Espírito Santo um estado de contrastes, onde surgiram grandes ecologistas como Augusto Ruschi, Maria Stella de Novaes, Paulo Vinhas e Roberto Kautsky, mas a terra, também, de Rainor Grecco, o maior desmatador das florestas nativas brasileiras, do Espírito Santo à Amazônia. É um dos estados que mais contribuem para a riqueza nacional e um dos que menos recebem, pois estamos na lanterna dos investimentos nacionais.

Como na cultura bizantino-romano-árabe do mosaico, cuja beleza só pode ser vista na união das diferenças e na diversidade, o amálgama que permitirá a construção da imagem simbólica e midiática da identidade capixaba passa, necessariamente, por uma política educacional e cultural de busca, conhecimento, afirmação e divulgação dessas diferenças. É necessário que governos estaduais e municipais, juntamente com a sociedade civil e as empresas, apóiem as manifestações culturais e locais, criem ou revitalizem espaços de pesquisa e de memória como arquivos, bibliotecas e centros de memória; dêem visibilidade às manifestações culturais populares; incentivem pesquisas de estudos regionais, concedendo bolsas a artistas e a produtores de cultura, reforçando, estimulando e valorizando as manifestações culturais locais, sejam elas fruto de um saber popular sejam de cunho erudito. Com isso, estar-se-á afirmando uma identidade cultural capixaba. construindo-se uma imagem simbólica e inserindo a "cultura capixaba” e suas "identidades", pela afirmação de suas diferenças, nas outras culturas nacionais e transnacionais.

 

Referências

BITTENCOURT, Gabriel. História Geral e Econômica do Espírito Santo. Vitória: Multiplicidade, 2006.

FREIRE, Mário Aristides. A Capitania do Espírito Santo. Vitória: Flor&Cultura, 2006.

HALL, Stuart. A identidade Cultural na pós-modernidade. 5ª ed. Rio de Janeiro: DPOA, 2001.

OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. 3ª ed. Vitória: APEES/SEC, 2008.

PACHECO, Renato. A Cultura Capixaba: uma visão pessoal. Vitória: IHGES, 2004.

RIBEIRO, Francisco A. Os povos que formaram a minha terra. São Paulo: Nova Alexandria, 2009.

 

Fonte: Espírito Santo - Um painel da nossa história II, ano 2012
Autores (organizadores): Gabriel Bittencourt, Luiz Cláudio M. Ribeiro
Autor deste texto: Francisco Aurélio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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