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Igreja de Santa Luzia – Por Elmo Elton

Capela de Santa Luzia, 1940

Assim se explica a construção da igreja de Santa Luzia, a mais antiga da cidade: — Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário do Espírito Santo, doara ao fidalgo Duarte de Lemos, em 1537, a ilha de Santo Antônio (denominação primitiva da ilha de Vitória), recebendo a mesma, a partir de então, o nome de seu novo senhorio. Duarte de Lemos viera da Bahia, em companhia do donatário, com o propósito de ajudá-lo na colonização do solo espírito-santense, sendo que a doação só lhe foi confirmada, doze anos depois, isto é, a 8 de janeiro de 1549, por Carta Régia de Dom João III.

Em 1550 desinteligenciaram-se o donatário e Duarte de Lemos, em razão deste último, homem sabidamente ambicioso, "querer que a doação em seu nome fosse ampla, e Vasco Coutinho haver declarado que tal doação era limitada à sua própria fazenda", que se assentava na parte alta da ilha, onde se construiu a capela de Santa Luzia, em terreno vizinho à residência do beneficiado. Daí supor-se que a mesma teria sido erguida logo após a chegada de Duarte de Lemos ao Espírito Santo. Os colonos, portugueses trazidos da Bahia, findo o trabalho nas lavouras de cana e mandioca, ai se reuniam, todas as tardes, à hora do Angelus, para a recitação do terço.

Duarte de Lemos, após muito infernizar a vida do donatário, deixou a capitania em 1550, sendo que a ilha, que lhe tinha o nome, conforme dito acima, só passou a chamar-se Vitória a partir de 1552.

Transcrevo, de Basílio Daemon, à falta de melhores documentos sobre a história da capela ou igreja de Santa Luzia, o seguinte episódio:

"Houve neste ano (1813), nesta hoje cidade de Vitória, nos dias 20 e 30 de maio, um grande alvoroço em conseqüência de terem o escrivão da Ouvidoria e o escrivão do Ordinário, José Bernardino, acompanhados de dois oficiais da Justiça, dado voz de preso, em próprio quartel, ao tenente do Regimento de Milícias, José Rodrigues de Amorim, a mandado do Ouvidor José Freire Gameiro, citando-o a falar num auto sumário de injúrias contra o mesmo Ouvidor, quando este estava no governo interino da Capitania; fardado saiu o oficial com os que lhe intimaram a ordem, a fim de ser conduzido à prisão, mas, ao passar defronte à porta do Ouvidor, pediu o oficial para falar-lhe, o que lhe foi negado pelo Ouvidor, e continuando a caminhar, ao chegar em frente à Igreja de Santa Luzia, que estava aberta, isto pelas sete horas da manhã, desvencilhou-se dos que o conduziam e entrou na igreja, seguido dos oficiais de Justiça até o altar-mor; aí o escrivão Lobo apontou-lhe ao peito um estoque para que saísse e o acompanhasse, ao que se negou o tenente Amorim, dizendo que estava em lugar sagrado e portanto garantido; vendo aqueles que o não podiam arrancar dali saíram e fecharam a porta da igreja, mas ficando alguns a guardar o preso com as espadas desembainhadas. Tendo logo o Governador da Capitania ciência do fato esperou que o Ouvidor requeresse ao então vigário da Vara padre Francisco da Conceição Pinto, a ver se o caso era ou não de imunidade; deu-se, porém, o contrário, porque requereu o Ouvidor que lhe fosse entregue o preso contra a ordenação expressa em seus artigos, o que lhe foi negado pelo vigário. A noite, pelas 7 horas, requereu o Ouvidor ao Governador auxílio militar para tirar o preso e pô-lo em custódia até averiguar-se se o caso era de imunidade, ao que respondeu o Governador Rubim, que desejava saber se o auto estava feito, para mandar por em custódia o dito tenente em uma fortaleza, ordenando que lhe enviasse cópia da formação da culpa para ser julgada segundo as determinações reais; respondeu o Ouvidor que o tenente não gozava de foro e que o auto tinha de ser feito depois da prisão. Este procedimento era contrário ao Decreto de 9 de outubro de 1812. Dormiram os oficiais de Justiça dentro da igreja com as portas fechadas na noite de 29, tendo fora da igreja aglomerado-se bastante povo que vociferava contra tais arbitrariedades. O escrivão Lobo, por ordem que recebera, não consentia abrir-se a igreja, nem mesmo quando os oficiais de Justiça o pediam por precisarem sair para suas necessidades, respondia-lhes que o fizessem dentro da igreja, o que de fato aconteceu. No dia 30, sabendo o vigário da Vara destes fatos e da falta de respeito ao templo, fez sair os oficiais de Justiça, pondo para fora da igreja a mesa e mais objetos para ali levados, declarando que só podiam guardar o preso do lado de fora, tendo ido para esse fim buscar as chaves da igreja na própria casa do Ouvidor, acompanhado pelo povo. Neste dia e noite ainda se conservou refugiado na igreja o tenente .Amorim, mas representando ao Governador no dia 30 que estava há dois dias sem comer, mandou este que um tenente e um cabo acompanhassem o escravo que ia levar-lhe sustento. A 31 compareceram o Ouvidor e o Vigário à porta da Igreja e lavrou-se o auto de imunidade, mas, fazendo-se inquirição sobre a culpa e tendo sido escolhidas testemunhas a bel prazer do Ouvidor, suscitou-se entre o Vigário e o Ouvidor uma altercação sobre a validade da imunidade, foi então o tenente recolhido em custódia a uma sala da cadeia; no dia 19 de junho, porém, tendo mandado o Ouvidor arbitrariamente recolhê-lo debaixo de chave, contra o expresso na Ordenação do Reino e garantias da Milícia, revoltou-se o povo, representando a El-rei todos os oficiais milicianos no dia 11 do mesmo mês, conservando-se todos indignados pelos excessos do Ouvidor, apesar da energia conservada pelo Governador Rubim, que, tendo feito de todo o ocorrido imparcial exposição ao governo geral, deu causa a que, mais tarde, em julho do mesmo ano, fosse o dito Ouvidor suspenso e chamado à Corte.

Mediante sanção da Lei Provincial nº 5, de 28 de julho de 1845, foi aprovado o Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios, que funcionava anexa à igreja de Santa Luzia, desde muito. Esta Irmandade, que contava com vários membros, de ambos os sexos, celebrava todos os anos, a 13 de dezembro, a festa de Santa Luzia, com missa solene e procissão concorridíssima. A procissão, cujo percurso se limitava à cidade alta, conduzia sempre dois andores: — o da virgem mártir e o de Nossa Senhora dos Remédios. Teria funcionado, nessa capela, também por muitos anos, a Irmandade de Santa Luzia, citada, de raspão, por alguns de nossos historiadores.

A igrejinha de Santa Luzia funcionou, normalmente, até 1928, embora precário seu estado de conservação, sabendo-se que, ainda em 1919, aí se celebravam missas semanais.

Em 1943, já o templo em ruínas, procedeu-se à sua restauração, ficando os serviços a cargo do empreiteiro André Carloni, visto seu merecido tombamento pelo SPHAN, nele se instalando, então, o Museu de Arte Sacra. Atualmente, as peças desse museu, pequenino mas altamente precioso, encontram-se no Museu Solar Monjardim, uma vez que resolveram transformar a antiguíssima capela em galeria de arte, dirigida pela Universidade Federal do Espírito Santo.

Das primitivas imagens da Igreja de Santa Luzia, e não seriam mais de cinco todas de tamanho médio, resta apenas a de Nossa Senhora dos Remédios, ora recolhida ao Museu Solar Monjardim, sendo que a da orago esteve, por algum tempo, no altar da Igreja de São Gonçalo. É possível que, a esta altura, já tenha sido roubada ou mesmo vendida, pois que não me recordo de tê-la visto junto às que foram levadas para o acervo do solar dos Monjardim...

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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