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Indicação de seis nomes de ruas – Por Elmo Elton

Vasco Fernandes Coutinho - Primeiro Donatário da Capitania do ES

Em 1925 o então Prefeito Municipal de Vitória, Dr. Otávio Índio do Brasil Peixoto, Solicitou ao presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo a indicação de nomes a serem dados a seis novas ruas da cidade, tendo sido encaminhado àquela autoridade a seguinte carta:

"Vitória, 9 de fevereiro de 1925:

Senhor Prefeito Municipal de Vitória:

Gratíssimo pela excelsa gentileza com que me distinguiu V. Exa., pedindo a indicação de nomes a serem dados a seis ruas desta cidade, venho lembrar o critério de homenagem à memória dos antigos batalhadores do progresso do Espírito Santo.

E, do mesmo modo que o devedor honrado, quando não pode pagar todo o seu critério, deve procurar solver primeiramente o compromisso mais antigo, assim também, penso que devemos pagar a dívida de gratidão póstuma, a começar pelos mais vetustos colaboradores da nossa grandeza.

O primeiro nome, que me ocorre lembrar a V. Exa., é o do alcaide mor de Ormuz, o Bravo de Goa, Vasco Fernandes Coutinho, iniciador do progresso espírito-santense e que foi, dentre os primeiros donatários das Capitanias do Brasil, aquele que mais esforços empregou para o desempenho de suas funções, vendendo tudo quanto possuía para colocar o produto na colonização do território, que lhe fora doado.

E hoje, passados 360 anos, aquele fidalgo rico e bravo, que desenvolveu o progresso de nossa capital a São Mateus, tentou a exploração sub-solar, iniciou a catequese e morreu desiludido e esmolando a caridade pública, deve merecer o nome em uma das principais ruas de Vitória.

Afonso Braz, o grande catequizador de tupiniquins e goitacases, o construtor da igreja de São Tiago e do antigo Convento, em que hoje se acha transformado o Palácio do Governo, faz jus a idêntica homenagem.

Credor de uma prova de reconhecimento da capital do Estado, é José de Anchieta, o grande literato, que viveu e morreu para os nossos índios e conseguiu, com a sua palavra, a submissão daqueles que se haviam levantado contra armas.

Talvez a ninguém deva mais o Estado.

O índio Araribóia, chefe dos temininós, que tão precioso auxilio prestou contra os franceses e na fundação da cidade do Rio de Janeiro, o cavalheiro da Ordem de Cristo, tem direito ao nome em uma das placas de Vitória.

Duarte de Lemos, que já deu seu nome à cidade, outrora de Duarte de Lemos, e Vitória depois que conseguimos a vitória de 8 de Setembro, contra os selvagens, deve ter a sua passagem assinalada.

Braz Alberto Rubim, o governador que abriu estradas, desenvolveu o comércio, a agricultura, navegação, colonização, criou hospitais e escreveu a história do Espírito Santo, merece um pequeno tributo de nosso apreço à sua memória.

São estes seis nomes os que parece-me devem ser dados de preferência.

Como vê V, Exa., com a escolha deles, homenagearia o município de Vitória aos nossos grandes nomes dos tempos coloniais. Somente depois de pagar essa velha dívida, é que, na minha opinião, deveremos prestar o nosso culto aos vultos da época imperial e aos da república.

Com os protestos de consideração e apreço apresento a V. Exa. minhas saudações atenciosas.

ass) Carlos Xavier de Paes Barreto."

 

O Prefeito Municipal atendeu, sem demora, a sugestão do presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, sendo este o resumo biográfico das figuras acima mencionadas:

 

a) JOSÉ DE ANCHIETA, nascido em São Cristóvão da Laguna, na ilha de Tenerife, arquipélago das Canárias, a 19 de março de 1534, entrou para a Companhia de Jesus em 1551, chegando ao Brasil, como noviço, em 13 julho de 1553. Da Bahia, ponto de seu desembarque, seguiu, em 1554, para São Vicente, sendo um dos fundadores e o primeiro mestre do Colégio de Piratininga, berço da futura cidade de São Paulo.

Quando os tamoios formaram sua terrível Confederação o padre Manoel da Nóbrega deliberou negociar o armistício de Iperoig, teve como companheiro a José de Anchieta, deixando-o, contudo, logo depois, como refém, entre os índios revoltosos, ocasião em que escreveu na areia da praia e decorou, verso por verso, extenso poema em honra da Mãe de Deus, a quem consagrara sua castidade, quando ainda estudante na Universidade de Coimbra.

Foi ordenado sacerdote em 1566, prestando, daí por diante, relevantes serviços a Mem de Sá na conquista e fundação do Rio de Janeiro. Exerceu cargos de grande responsabilidade na Companhia de Jesus, no Brasil, inclusive o de provincial.

Manifestou, sempre, predileção pela Capitania do Espírito Santo, onde esteve por várias vezes, tendo ocupado o cargo de superior do Colégio de São Tiago, em Vitória. Uma das aldeias fundadas por ele, nessa capitania, lhe mereceu afeição maior, a de Reritiba, ali se demorando na catequese dos silvícolas e na construção da igreja de Nossa Senhora da Assunção, monumento hoje tombado pelo SPHAN. Faleceu, nessa mesma aldeia, a 9 de julho de 1597. Teve sepultamento em Vitória, na, hoje demolida, igreja de São Tiago, de onde seus ossos foram retirados e levados para a Bahia, por determinação superior. O Espírito Santo conserva, no entanto, o primitivo local de seu jazigo, o santo jesuíta merecendo culto permanente por parte da maioria dos capixabas.

A Rua José de Anchieta dá frente para o Parque Moscoso, onde foram construídos belíssimos palacetes, agora demolidos, para edificação de prédios e apartamentos.

b) VASCO FERNANDES COUTINHO, o primeiro donatário da capitania do Espírito Santo, aqui chegou a 23 de maio de 1535, tendo falecido em fevereiro de 1561, sendo sepultado na igreja do Rosário, em Vila Velha (ES), após um governo pontilhado de peripécias e fracassos, embora o padre José de Anchieta, em seu auto Vila da Vitória, em que um dos personagens encarna o donatário, tacha-o de bom governante, ressaltando o padre Serafim Leite que a homenagem é merecida, porque Coutinho se mostrou "amigo dos padres e, naquilo que podia, protetor dos índios". Morreu pobre, desiludido, ele que, antes, tantos bens possuía em Portugal, uma vez que proprietário ali do solar de Alenquer, amparado nos seus rendimentos: "cem mil réis de moradia, na matrícula de 1449, e três mil réis, como fidalgo de uma tença que Dom João III lhe concedera. como prêmio de suas façanhas, na Índia", como militar.

A Rua Vasco Coutinho se situa nas imediações do Parque Moscoso, em área aterrada pela Companhia Torrens, quando do saneamento do Campinho, sobre o qual já me referi neste trabalho. Essa homenagem ao nosso primeiro donatário não me parece à altura de seus esforços, quando, em Vitória, avenidas têm recebido nomes de pessoas de pouca ou nenhuma expressão histórica.

c) AFONSO BRÁS, jesuíta, nascido em 1524, em S. Paio dos Arcos, antigo termo de Avelã de Cima, em Portugal, chegou ao Espírito Santo em começo de abril de 1551, vindo de Porto Seguro, acompanhado do irmão Simão Gonçalves. Chegara ao Brasil na segunda leva de Jesuítas, em 1550. Jovem ainda, com apenas 27 anos, na capitania do Espírito Santo se demorou pouco, isto é, de 1551 a 1553, mas, mesmo assim, aqui reanimou os colonos, intensificou a catequese dos índios, dando início à construção da igreja de São Tiago e do Colégio dos Jesuítas em Vitória. Faleceu no Rio de Janeiro, a 30 de maio de 1610.

Esse jesuíta, além das virtudes de catequista, tinha "qualidades de carpinteiro e arquiteto".

A rua Afonso Brás, tal como a Vasco Coutinho, se situa em área próxima ao Parque Moscoso, tendo nela residido o folclorista Guilherme Santos Neves. O Edifício Ceciliano Abel de Almeida, cuja entrada abre para essa artéria, foi construído no espaçoso terreno onde se erguia a casa do patrono do atual imóvel, aquele que foi o primeiro prefeito da cidade de Vitória.

d) ARARIBÓIA, índio da tribo dos temininós, possivelmente nascido na ilha de Villegaignon, embora alguns historiadores o considerem natural do Espírito Santo, teria vindo para esta Capitania, na migração de sua tribo. Em 1564 Estácio de Sá, chegado de Portugal, para combater os franceses, partiu da Bahia de Todos os Santos e, aportando na Vila de Vitória, para tomar reforço bélico, conseguiu, aqui, a colaboração de muitos índios flecheiros, então sob o comando de Araribóia. Esse silvícola, durante quatro anos, auxiliou os portugueses no combate contra os franceses, colaborando na fundação da cidade do Rio de Janeiro, daí agraciado com o hábito da Ordem de Cristo, com uma tença de 12$000. Em Niterói, cuja fundação se lhe deve, foi proprietário de uma sesmaria. Deram-lhe o nome, no batismo, de Martim Afonso de Souza.

Levino Fânzeres, notável pintor capixaba, é autor da tela Partida de Araribóia, datada de 1922. Esse quadro, de grandes proporções, encontra-se, atualmente, no Palácio Anchieta, pertencendo, contudo, ao acervo da Assembléia Legislativa.

A Rua Araribóia se situa entre a avenida Jerônimo Monteiro e a avenida Princesa Isabel, balizando-se com o prédio do antigo Mercado Capixaba, hoje desativado, tendo nela funcionado a PR 9, Rádio Canaã, que foi a primeira rádio da cidade.

e) DUARTE DE LEMOS recebera, a 15 de julho de 1537, por doação do donatário Vasco Fernandes Coutinho, a ilha de Santo Antônio, onde se implantaria, mais tarde, a Vila de Vitória. Diz um de seus biógrafos: "Entre os companheiros de Coutinho um se destacou com evidente superioridade: Duarte de Lemos. Ilustrou-se nas façanhas da Índias, forja que temperou o caráter de quase todos os capitães das terras de Santa Cruz. Não foi passageiro do Glória. Veio com Francisco Pereira Coutinho, donatário da Bahia, em 1536 e, poucos meses depois, se transferiu com "criados e colonos" para o Espírito Santo, atraído pela liberalidade de Vasco Fernandes, com toda certeza. Recomendou-se mal, para o juízo crítico da História, pois a deslealdade e o egoísmo são virtudes negativas. Sua valentia e dotes militares diluíram-se ante a desmedida ambição de poder. Era fidalgo de sangue, mas não tinha nobreza na alma. Todas suas atitudes escondiam interesses inconfessáveis. Foi providencial a Coutinho nos primeiros embates contra os indígenas. Lutou com bravura e destemor, mas não se satisfez com a recompensa de uma ilha forra. Queria um feudo independente, não o conseguindo, foi-se para o reino de onde voltará, na armada de Tomé de Souza, comandando o Nossa Senhora da Ajuda. (...) Duarte de Lemos desaveio com Coutinho devido a questão de tributo. Queria aquele que o redízimo recaísse só sobre a fazenda e não sobre a terra, que doasse ou desse à meia. Não se conformando o donatário, surgiu uma série de questiúnculas, que culminou com a saída de Duarte de Lemos."

A avenida Duarte de Lemos começa na Vila Rubim e vai até Caratoíra, sendo das mais movimentadas artérias da cidade.

f) BRÁS DA COSTA RUBIM, e não Brás Alberto Rubim conforme escrito, por engano, na carta do presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, jamais abriu estradas nem desenvolveu o comércio nem a agricultura, também não cuidou da colonização nem da navegação, assim como não criou hospitais: pois quem isso fez foi seu pai. Francisco Alberto Rubim da Fonseca e Sá Pereira, nascido em Lisboa, a 27 de novembro de 1768, terceiro governador da capitania do Espírito Santo, de 5 de outubro de 1812 a 1819, sendo autor do primeiro trabalho escrito na dita capitania sobre a história e estatística da região espírito-santense, intitulado Memória Estatística da Capitania do Espírito Santo (1817).

A Vila Rubim, bairro antes chamado Cidade de Palha, tem, atualmente, esta designação em homenagem a Francisco Alberto Rubim, — o governador Rubim, como era chamado por todos, homem de visão administrativa, enérgico e voluntarioso, que muito trabalhou em defesa do soerguimento do Espírito Santo, mediante iniciativas das mais oportunas, numa época difícil, quando a capitania vivia sem qualquer ajuda do Reino.

Durante sete anos, di-lo Maria Stella de Novaes, Rubim prestou valiosos serviços ao Espírito Santo. Não se limitou à parte administrativa. Espírito investigador e prático, realizou intensa propaganda da Capitania, de modo a atrair a atenção dos cientistas da Europa e despertar-lhes o interesse das viagens à Terra Capixaba. Isso porque, além de indicar a existência de minerais e plantas têxteis, enviou a Dom João VI, no Rio de janeiro, amostras de ouro, cristais, resinas, meadas de seda, ervas medicinais, corantes etc. A 4 de novembro de 1814, mandou ao Rio as primeiras amostras de trigo e linho, cultivados no Espírito Santo.

Francisco Alberto Rubim faleceu a 14 de novembro de 1842.

Um esclarecimento: Em junho de 1895, o Governo Municipal de Vitória cuidou do arruamento da Cidade de Palha, trecho seguinte à Vila Moscoso, então quase todo ocupado pelo sítio do Dr. Leopoldo Cunha. Chamava-se Cidade de Palha porque composta de casas cobertas de sapé, sendo seus moradores famílias oriundas do norte do país. A 16 de setembro de 1895 aprovou-se a planta de arruamento, nos morros anexos à Vila Moscoso, então pertencentes à Companhia Torrens, tendo Cleto Nunes composto, na ocasião, que a Cidade de Palha se denominasse Vila Rubim, merecendo a aprovação da Câmara. Esse conjunto de barracos teria sido a primeira favela de Vitória.

 

Fonte: Logradouros antigos de Vitória, 1999 – EDUFES, Secretaria Municipal de Cultura
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2017

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