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Informação Sobre a Navegação Importantíssima do Rio Doce

Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Nº 21 - Ano 1960

(Copiada de um manuscrito oferecido ao Instituto pelo sócio correspondente, o Sr. José Domingos de Athayde Moncorvo)

Sendo o Rio Doce um dos primeiros que se conheceu e navegou, logo depois do descobrimento do Brasil, subindo por ele Sebastião Fernandes Tourinho e Antônio Dias Adorno, no princípio do reinado do Sr. Rei D. Sebastião, até hoje se não tem franqueado a sua navegação; nem tão pouco se tem conhecido os muitos rios auxiliares, que o enriquecem; e tanto um como outros teriam decisivamente felicitado as ricas capitanias de Minas Gerais e do Espírito Santo. Mas o céu guardava para aumento da glória do nosso augusto soberano, depois que veio felicitar com a sua real presença este grande continente, o franquear-se a navegação de rios tão interessantes, por meio dos quais as cidades e vilas do centro do Brasil se comunicarão com os portos de todos os impérios e reinos do mundo.

Muitos e mui diferentes tem sido os pareceres daquelas pessoas que sem conhecimento ocular da navegação do Rio Doce, e dos obstáculos que a embaraçam, formavam planos para se removerem e destruírem as cachoeiras e obstáculos, fazendo-se diques e canais, já para se impedirem os ataques dos gentios; outros, ainda que tinham navegado aquele rio e visto as suas cachoeiras, contudo, não podiam conhecer os meios de remover obstáculo algum, pois lhe faltavam os conhecimentos precisos. Estas e algumas outras razões fizeram que, desde o ano de 1800, tempo em que se formaram os quartéis de Souza e Lorena e se fez a divisão das duas capitanias, estabelecendo-se destacamentos para servirem de registro, etc., o comércio das duas capitanias não tivesse até hoje aumento algum; nem tão pouco os estabelecimentos d’agricultura e mineração, os quais devem sempre marchar a par da navegação e comércio do mesmo rio.

O governo da capitania de Minas, sempre duvidoso de quais seriam os meios que adotaria para conseguir tão importante obra, ora estabelecia destacamentos, ora os levantava, faltando-lhe sempre o conhecimento ocular, ou de pessoa de confiança e inteligência, que cabalmente lhe fizesse ver os meios que se devia adotar; e assim tem decorrido quase dez anos sem que os povos de uma e outra capitania tenham recebido interesse algum de tão interessante navegação, despendendo, contudo, a real fazenda grossas somas em formar quartéis, fazer canoas, e já entretendo destacamento, fiéis, canoeiros, etc., existindo do mesmo modo, como talvez existissem há muitos séculos, os obstáculos que hoje existem e dificultam aquela navegação.

A navegação do Rio Doce, de sua barra até o Porto de Souza, é franca e boa, e pouco abaixo do dito Porto de Souza, admite barcaças, que podem velejar e mesmo bordejar. O tempo que se gastará nessa navegação não se pode calcular exatamente, pois a maior ou menor porção de água ou vento influi na maior ou menor velocidade das embarcações, e, por conseqüência, no espaço corrido em certo tempo dado. Mas regularmente uma canoa varejada gasta 5 a 6 dias, do Porto da Regência ao de Souza; e deste àquele, 2. A sua carga é de 90 a 100 arrobas, e de uma barcaça de 800 a 1000. Pouco acima do Quartel de Souza, até Natividade, é que existem as 5 cachoeiras, denominadas – As Escadinhas – as quais ocupam o espaço de duas, a duas léguas e meia. Estas de modo algum podem ser totalmente destruídas, e tão pouco se podem abrir canais, pois as rochas e montões de pedra que existem nas margens do rio, e de que é formado o seu leito, impedem a factura de qualquer obra, que o mais hábil hidráulico ali quisesse dirigir, pois o aumento do volume d’água de 30 palmos nas grandes cheias, o seu peso e velocidade adquiridos no plano inclinado por onde corre, destruiria e arruinaria os canais e diques que se formassem nas ditas cachoeiras; sendo preciso enormes somas pecuniárias para se formarem, e iguais despesas para se conservarem.

Mas, atentas as razões que vou a expor, a existência das ditas cachoeiras pouco ou nada podem influir no comércio das duas capitanias, o qual ganhará muito em se permutarem ali os gêneros; a navegação será mais fácil, e todos os mais estabelecimentos ganharão bem rápido progresso.

Se a navegação de todo o Rio Doce admitisse barcaças, as cachoeiras das Escadinhas lhe serviriam de um grande obstáculo; mas como muitos lugares do rio, que pertencem à capitania de Minas Gerais, só admitem navegação de canoas, sempre no último destes se deveriam baldear os gêneros para barcaças. Pois bem: se a natureza estabeleceu a navegação deste rio, bem como de cabotagem (por assim me exprimir) fazendo o comércio, de porto a porto, em embarcações costeiras, por que se não fará o comércio de tão rica capitania em canoas na parte do rio, em que estas podem navegar, e em barcaças naquela em que o rio as admite? O lugar mais conveniente para se poderem baldear os gêneros de uma para outra embarcação é sem dúvida nos limites das duas capitanias; e bandeando-se os gêneros, por que se não permutarão logo? Permutando-se, as grandes cachoeiras das Escadinhas ficarão como negativas a bem do comércio e navegação, de que resultará grandes vantagens à agricultura, mineração, povoação e extinção do gentio, e ao mesmo comércio a navegação.

Formando-se no Porto da Natividade, que fica acima das Escadinhas, armazéns para se receberem todos os gêneros de importação e exportação, as canoas de Minas, chegando aquele porto não terão demora alguma, senão em permutarem ou venderem os seus carregamentos. Nos armazéns que já existem no Porto de Souza se receberão igualmente os gêneros de importação ou os já permutados não tendo demora alguma as embarcações que ali navegarem até a foz do rio, senão a entregar as cargas nos armazéns, e receber aquelas que ali estiverem já permutadas ou vendidas. Feitos estes estabelecimentos, e concluída a estrada do Quartel de Souza para o de Natividade, pela qual possam andar bestas, carros ou carroças, estas de manhã conduzirão os gêneros que estiverem depositados nos armazéns de Souza; e de tarde, voltando, conduzirão aqueles já comprados ou permutados que estiverem nos armazéns de Natividade.

Posto isto, o comércio se aumentará mais e mais, pois a permuta dos gêneros se fará em menor tempo, e os riscos e despesas se dividirão entre os negociantes de Minas, que ali forem negociar com aqueles que, naquele mesmo lugar, formarem estabelecimentos. A navegação será mais fácil, por ser feita em menos tempo, em diferentes embarcações, e por canoeiros práticos das duas partes do rio, e adoecerem menos do que se fizessem toda a navegação.

A agricultura terá grande aumento no Porto de Souza e Natividade, não só pelo terreno ser muito produtivo, como pelos estabelecimentos, que imediatamente ali se farão para criação de bestas, bois, etc., e pela concorrência de comerciantes, fazendeiros, etc. Em poucos anos os dois quartéis serão grandes aldeias ou vilas. Do aumento da população vêm os estabelecimentos da mineração nos rios Guandu e Maia-Naçu, ricos em minas de ouro (como é constante); e todos estes estabelecimentos contribuirão muito para a civilização do gentio, ou serem afugentados daqueles produtivos e auríferos terrenos, ou para sua total extinção; e desta maneira fica obviado o grande obstáculo das cachoeiras das Escadinhas, resultando as vantagens acima ditas.

A navegação do Porto da Natividade até a barra do rio Cuietê, ainda que tenha a vencer as muitas pequenas dificuldades da Cachoeira do Inferno, e passagem do M., contudo, em toda estação do ano se pode navegar, sem ser necessário descarregar canoas, etc. Em duas horas, dez canoas passaram aqueles dois obstáculos, só com o trabalho de serem puxadas por cabos ou cipós. Três a três dias e meio é o tempo que regularmente se gasta da Natividade ao Cuieté. O aumento dos estabelecimento tanto do Arraial do Cuieté como do destacamento que existe na barra, será de mui grande vantagem à navegação e comércio do Rio Doce, como igualmente à agricultura, mineração e povoação, pois o seu terreno é o mais produtivo e aurífero que se conhece. Da barra do Cuieté à foz do rio Sussuí Grande se gasta dia e meio, sendo a navegação mais franca e boa. Este rio enriquecerá a comarca do Cerro Frio, até Minas Novas, donde se exportarão os seus belos algodões por muito menos preços do que hoje se exportam, como todos os mais gêneros de exportação, recebendo em troco e a melhor mercado os gêneros de consumo. A navegação interessante deste rio se deve animar o mais possível, fazendo-se quartéis, destacamentos e todos os mais estabelecimentos que se julguem precisos.

De Sussuí Grande à cachoeira do Boguari se gasta dia e meio, e em toda esta navegação se não encontra cachoeira ou dificuldade alguma que a interrompa ou dificulte, excetuando a passagem da Figueira, cujo pequeno obstáculo ficará removido tanto que se quebrem duas pedras, o que é de maior facilidade possível; e hoje mesmo é um obstáculo de tão pequena monta que dez canoas a passarem em meia hora.

A cachoeira do Boguari, ainda que fosse possível destruir-se (o que se não conseguiria sem despesas enormes e grandes dificuldades) nunca jamais se devia fazer, pois é bem de supor que se descobrissem outras cachoeiras, que igualmente impedissem a navegação; e para que se hão de fazer despesas pecuniárias e expor a novas dificuldades, havendo um meio bem fácil de se obviar aquele obstáculo; e vem a ser: mudar-se o quartel, que existe no ilhote Boguari, para terra firme, no lugar mais conveniente, fazendo-se franca a estrada, que ali se mandou abrir, de modo que possam andar carrinhos de mão ou mesmo carros ou carroças. Posto isto, as canoas que navegarem do Porto da Natividade até a dita cachoeira, logo que ali chegarem serão imediatamente descarregadas, e as suas cargas conduzidas nos ditos carrinhos ou carros até o cimo da cachoeira, aonde se embarcarão em canoas, que ali sempre devem existir. E como a distância do princípio da cachoeira ao fim apenas será de dois tiros de bala de mosquetaria, em muito pequeno espaço de tempo as cargas serão baldeadas de umas canoas para outras; e praticando-se o mesmo com as que descerem de cima, ficará desta maneira obviado o embaraço da cachoeira do Boguari, resultando ao mesmo tempo destes estabelecimentos grandes vantagens à agricultura e povoação do Rio Doce, e tanto uma como outra, por todos os modos se deve sempre animar.

Da cachoeira do Boguari à barra do rio Santo Antônio dos Ferros, se gasta pouco mais de um dia. A navegação deste rio se deve animar o mais possível; assim como todos os seus estabelecimentos, pois virá a ser um canal de riquezas para as duas comarcas de Sabará e Cerro Frio.

Da barra do rio de Santo Antônio à Cachoeira Escura se gasta menos de um dia, e toda a navegação de uma cachoeira a outra é a mais franca e boa, podendo mesmo navegar grandes barcaças. O obstáculo desta cachoeira será fácil destruir-se, com muito pequena despesa, abrindo-se um canal da parte do Leste, o qual terá a extensão de um tiro de bala de mosquetaria; e logo que se abrir o canal, o quartel da Cachoeira Escura deverá passar àquela parte, para proteger a navegação e comércio, etc. Mas enquanto se não abrir o dito canal, os mesmos estabelecimentos que se devem fazer na cachoeira do Boguari igualmente se devem fazer nesta.

Da Cachoeira Escura à barra do rio Piracicaba se gasta um dia, e subindo por este rio até o Porto das Canoas, dia e meio. Neste porto se deve estabelecer um destacamento, reedificando-se o quartel, que ali existe, e formar alguns armazéns.

Desta maneira, não só a navegação do Rio Doce e de todos aqueles que o enriquecem terão um rápido aumento, como o comércio, agricultura e mineração de todas as comarcas do interior do Brasil, pois é bem sensível a grande diferença da despesa que hoje se faz na importação de todos os gêneros, àquela que se fará pelo Rio Doce. Uma canoa conduz a carga de 10 a 11 bestas, e custa 16$000 a 18$ rs., não fazendo diariamente despesa alguma; e uma besta, custando 40$000 a 50$ rs., fará despesa diária de milho, ferragem, aparelhos, etc.; acrescendo que uma canoa dura muitos anos, e as bestas morrem e adoecem com muita facilidade nas grandes e dificultosas viagens, principalmente no tempo das águas.

Rio de Janeiro, 18 de julho de 1810.

(Transcrito por seu valor histórico, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, tomo I, 3ª edição, Rio de Janeiro, 1908, páginas 134 a 138)

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 21, ano 1961
Autor: Manoel Vieira de Albuquerque Tovar
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2013 

 

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