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Invasão Holandesa à Penha – Por Maria Stella de Novaes

Tela: A visão dos holandeses - Autor: Benedito Calixto - Ano: 1927

Existe no Convento da Penha, um quadro de Benedito Calixto: — "A Visão dos Holandeses". Recorda-nos a passagem histórica da segunda investida dos flamengos sobre a Capitania do Espírito Santo (1640), ponto sempre visado, no Brasil, pelos aventureiros e piratas, ávidos de suas riquezas decantadas pelos cronistas e viajantes.

Após a derrota sofrida, na Vila da Vitória, a 27 de outubro de 1640, fortificaram-se, em Vila Velha; no dia 2 de Novembro, foram atacados e desalojados, pelos Capitães Adão Velho e Gaspar Saraiva. Recolheram-se aos seus lanchões, deixaram o porto, no dia 6.

Lendas, trovas e poemas foram os troféus que os capixabas conservaram dessa luta para a defesa do seu domínio. Conta-se, por exemplo, que os holandeses tentaram escalar o Monte da Penha. Retrocederam, porém, porque se lhes deparou extraordinária visão: — o Santuário transformava-se em poderoso castelo defendido por esquadrão de soldados, enquanto, a pé e a cavalo, descia muita gente, "com armas luzentes e bem preparadas". Entretanto, a ermida estava deserta e a própria imagem de Nossa Senhora fora removida cautelosamente para o Convento de São Francisco, em Vitória.

E o povo começou a cantar: —

 

Nossa Senhora da Penha

tem um manto de alegria;

Deus lhe deu os seus soldados

pra defender a baía.

 

Nossa Senhora da Penha

tem soldados a valer,

que lhe deu Nosso Senhor,

pro seu povo defender.

 

Nossa Senhora da Penha

tem um manto de alegria;

foram os soldados que deram,

quando vieram da Bahia.

(Alusão aos que foram com Salvador Correa de Sá e Benevides e voltaram para a Capitania, protegidos pela Virgem da Penha).

No "Poema Mariano sobre a Penha do Espírito Santo", Domingos de Caldas declama: —

 

C X I

Aqui chega a nefanda companhia

e o vermelho estandarte levantando,

campos, bosques e montes desafia,

bombas, peças e balas disparando.

Anda o negro Plutão, nesta porfia,

os reforçados bronzes atirando;

e girando se vê, por toda a parte,

a Belona cruel, o fero Marte.

 

C X I I

Porém, essa pequena cidadela

que milagrosa praça se afigura,

com pouca força as naus muito atropela,

mediante o favor da Virgem pura.

Teme o fero holandês, chegando a ela,

no mesmo arrojo, achar a sepultura,

e das fúrias cruéis, deixando a ira,

infiel e medroso se retira.

 

Na Quinzena de Arte Capixaba, promovida, em Vitória, pelo Sr. Dr. Augusto Emílio Estelita Lins, em 1947, o Sr. Tosé Elesbão de Castro, recordando a passagem histórica de 1640, pronunciou, pelo rádio, o seguinte: —

Em 1640.

Quando forçava

o corsário-invasor

os flancos da cidade, um capixaba

lembrou-se de rogar, com puro amor,

a proteção do Céu, que não se acaba

como se acaba a força transitória;

e, na porta do templo, assim rezava :—

"Senhora da Prainha

Da Vitória,

Livrai-me do invasor que se avizinha!

 

Entrando, enfim,

dispôs-se, sem medida,

a todas as façanhas o inimigo.

Em Vila Velha, então, desguarnecida,

mereceu, afinal, justo castigo,

e ao capixaba coube toda a glória,

por ter pedido, deste modo, assim: —

"Senhora da Prainha

Da Vitória,

Salvai-me, como pródiga Madrinha"!

 

Dizem melhor

do que meus versos rudes

as telas que ficam recordando,

no Santuário da Penha, as atitudes

de tão livre, feroz e estranho bando;

elas também recordam, como a história,

de um capixaba a súplica maior: —

"Senhora da Prainha

Da Vitória,

cobri-me, com ó vosso manto, a Pátria minha!"

 

Nossa Senhora da Prainha era venerada, em Vitória num pequeno templo, situado no antigo Largo da Conceição.

Posteriormente, receberam de um português, informações das riquezas da Penha — ouro, prata, alfaias, pedra preciosas, jóias etc. De passagem pelo Espírito Santo, aproveitaram, mais uma vez, para o desembarque, em Vila Velha , e certificaram-se do tesouro de Nossa Senhora. Subiram a montanha. Surpreenderam o irmão Frei Francisco da Madre de Deus orando, perante o altar da milagrosa imagem. Invadiram o Santuário, espalhando o pavor entre os religiosos, que procuraram fugir dessa importuna visita. Frei Francisco permaneceu imóvel. Tudo saquearam; mas, ao tentarem retirar a coroa e o manto da Virgem, o religioso suplicou não o fizessem — ele mesmo os tiraria, a fim de evitar tanta profanação. Enquanto o português se apoderava do Menino Jesus, um flamengo esforçava-se, em vão, para retirar um anel valioso da imagem de Maria. Inúteis, porém, foram as tentativas de cortar-lhe a mão e o próprio dedo!...

Suplicou Frei Madre de Deus que deixassem o Menino Jesus, mas o português respondeu-lhe que o levaria para brincar com outro Menino, que existia no Recife. Retrucou-lhe o religioso: — "Vai-te embora e lá verás os brincos que te hão de custar caro; e este será o último atrevimento dos teus companheiros, no Brasil. Porque isto bastava por teus pecados, para castigo teu e dos mais".

Partiram os holandeses para o Sul, a fim de pilharem reses, em Cabo Frio. Levaram todas as preciosidades e os escravos da Penha. Foram, porém, flechados pelos índios. Só escaparam os que permaneceram a bordo. Regressaram apressadamente a Pernambuco; mas, dias após, a 27 de janeiro de 1654, terminou o seu domínio, no Brasil. Os escravos, as alfaias e os ornamentos foram recuperados para o Convento da Penha. Do Menino Jesus, não apuramos o destino. Consta que ficou em Olinda.

No "Poema Mariano", já referido, lê-se:—

C X V I

Mas, o holandês sacrílego e desumano,

com duro peito e ânimo felino,

rouba as prendas do templo soberano,

e, da Senhora, o erário diamantino;

e a tanto chega o seu furor insano,

que lhe rouba também o deus Menino.

Só não pode, por mais que força empenha

movê-la do altar da sacra Penha.

 

C V I I

Oferece o Menino Onipotente

à cidade de Olinda, majestosa,

nome tão sem mistério competente

ao encarnado botão da pura rosa.

Ali, é festejado, anualmente,

com fiel devoção, pompa lustrosa,

no mesmo dia em que, da sua planta,

a Penha nos louvores se quebranta

 

E a alma do povo continua: —

Nossa Senhora da Penha

tem janelas para o mar,

para ver seu bento Filho

que, de certo, há de voltar.

 

Encerram as crônicas do Convento outro fato impressionante: — o milagre da cerração. Certa manhã, ao despontar esplêndido do Sol, os moradores de Vila Velha divisaram no horizonte. uma esquadrilha impelida pelo nordeste e semelhante, ao todo, àqueles assaltantes bem informados da riqueza natural da Capitania. Demandava a barra.

Voltaram-se preces a Nossa Senhora da Penha, a Protetora do Espírito Santo. Galgaram os seus devotos a ladeira. Uma fervorosa multidão encheu o templo, rezando e entoando hinos à Virgem Poderosa. Ainda presas das recordações tétricas das passagens tormentosas de Cavendish e dos holandeses, todos se voltaram para o Céu, pedindo socorro, naquela hora de apreensões.

Avançam os barcos fantasmas. Tenebrosos! Mas, o esplendor daquele dia tolda-se gradualmente, e denso véu de neblina opõe-se à mira dos corsários, que retrocedem, tementes de enfrentar o perigo de um canal cercado de ilhotas alfaques.

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2016

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