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Jesuítas no Espírito Santo

Padre Leonardo Nunes

Em 1549 – fins do ano, pois partiram da Bahia a primeiro de novembro – escalaram no porto da “povoação do Espírito Santo” Leonardo Nunes e Diogo Jácome, jesuítas em viagem para S. Vicente:

“Aqui ajuntou alguns Indios na fórma das provisões referidas: e recebeo pera noviço ao irmão Matheus Nogueira”.(4)

Esse irmão Mateus Nogueira, segundo informa Basílio Daemon, “posteriormente tornou-se célebre jesuíta” e, em São Vicente, “afora os misteres do sacerdócio, ocupava-se em pedir esmolas e em trabalhar numa ferraria, fazendo anzóis, cunhos, facas e outros utensis, cujo produto aplicava ao sustento dos meninos, que freqüentavam as aulas do seminário dos jesuítas, e ao fornecimento de provisões aos indígenas”.(5)

Situação sócio-religiosa da capitania

Vale a pena conhecer a situação sócio-religiosa da vila do Espírito Santo, tal qual a viu o padre Leonardo Nunes. Em carta de novembro (?) de 1550, escrita de S. Vicente, relatou o jesuíta que foi recebido por “alguna gente de la tierra, con la qual venia el vicario desta Capitanía”.(6) Este seria Francisco da Luz, “clérigo de Missa”, “pessoa apta, e sufficiente, para servir á dita Vigairaria”, onde substituía João Dormundo, de quem era irmão.(7)

Parece que, pouco depois, Francisco da Luz deixou o cargo.(8) É o que se infere do mandado de catorze de março de 1550, em que o provedor-mor determinava ao do Espírito Santo deixasse “em cada um ano embarcar para o Reino ao Padre Francisco da Luz, que serviu de Vigario na dita Capitania por João Dormundo seu Irmão, as duas peças de escravos resgatadas de sua roupa”.(9)

Hospedaram-se os viajantes na residência do sacerdote, “por não haver hospital na terra” e – prossegue o missivista – “ao domingo seguinte preguei, de que foram todos mui consolados, porque nunca tal cousa ali tiveram”.

De tal maneira se impressionou o padre com a situação religiosa da capitania, onde “a mor parte da gente estava em pecado”, que fez “nove ou dez sermões”, e ouviu “quase quarenta confissões” durante o mês em que demorou aqui.

“Apartaram-se muitos do pecado mortal, e dous homens se casaram com índias que tinham em casa”, registrou o inaciano. Vale a informação para demonstrar que o ódio mortal devotado pelos silvícolas aos cristãos não era compartilhado por suas irmãs, que, também no Espírito Santo, trouxeram ao homem branco a colaboração do seu afeto e dos seus braços.

Referindo-se à doutrinação que todas as noites fazia aos escravos, Leonardo Nunes dá conta da exigüidade da igreja local, onde não cabiam os assistentes, obrigando-o a transferir os exercícios espirituais para “una plaçuela ay junto”.(10)

 

NOTAS

(4) - VASCONCELOS, Crônica, I, 40.

– Autorizado resumo biográfico de Mateus Nogueira em LEITE, Artes e Ofícios, 221-3.

(5) - Prov. ES, 61.

(6) - Cartas, I, 202-3.

(7) - Traslado da provisão de Francisco da Luz, que serve de vigário na Capitania de Espírito Santo por seu irmão João Dormundo (datada de três de março de 1550), in DH, XXXV, 66.

– João Dormundo foi nomeado a treze de janeiro de 1541, vencendo de “ordenado em cada um anno com a dita Vigairaria quinze mil reis, e duas peças de escravos resgatados de sua roupa” (Traslado da provisão do vigário da Capitania do Espírito Santo; in DH, XXXV, 65). – Parece que esse João Dormundo é o mesmo João Gonçalves Dormundo, de quem nos fala AFONSO COSTA, nos seguintes termos: “Da ilha da Madeira e da ilustre família dos Dormundos ali estabelecida, veio para o Brasil e instalou-se em Ilhéus, ao tempo da colonização, e aí lhe nasceram os filhos. Casado com Marta de Sousa Lobo, uma das órfãs protegidas da rainha e mandadas pelo rei ao governador, para que se casassem bem. Marta, mulher virtuosa e que fez obras de boa cristã, faleceu a seis de julho de 1602” (Genealogia, 79).

(8) - A treze de dezembro de 1552, o provedor-mor passou um mandado a Francisco de Oliveira, “Feitor e Almoxarife de Sua Alteza na Capitania do Espirito Santo, que pagasse ao Padre Pero de Souto dez mil, e quinhentos reis em resgate a razão do dinheiro que lhe eram devidos de sete mezes, que serviu de Vigario na Villa da Victoria da dita Capitania, que começaram a seis de Janeiro de mil quinhentos, e cincoenta e dois té seis de Agosto do Dito anno a razão de dezoito mil reis por anno” (DH, XIV, 298).

(9) - DH, XXXVII, 42.

(10) - NUNES, Cartas, I, 203.

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, julho/2018

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