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José Luiz Pipa Silva: a gozação - Por Sérgio Figueira Sarkis

José Luiz Pipa Silva

Grande amigo e companheiro que, por força do destino, nos deixou cedo demais. José Luiz Pipa Silva, ou Pipa, como todos o tratavam, era de rara inteligência. Embora tivesse apenas o nível médio de estudo, possuía capacidade para estabelecer relacionamento com qualquer pessoa, conversando profundamente sobre filosofia, história, política etc.

Autodidata, frequentou, no Rio de Janeiro, o prestigiado Colégio Santo Ignácio. Lá, teve oportunidade de ser colega de futuros grandes nomes da política e finanças da República. Dentre eles, Mário Henrique Simonsen, figura ilustre nas finanças brasileiras, inclusive ocupando o cargo de ministro da Fazenda, no Governo de Ernesto Geisel.

Pipa foi de tudo: jornalista, comerciante, representante comercial... Mas, por força de temperamento dispersivo, não desenvolveu por muito tempo qualquer destas atividades.

Considero-me um privilegiado por ter usufruído de sua amizade, embora por pouco tempo. E, nesta condição, pude vivenciar algumas de suas criações. É o que passo a desenvolver em seguida.

Outubro de 1956, ele ocupava as funções de jornalista e secretário de Redação do jornal A Tribuna. Lá, dentre várias atividades, juntamente com Adam Emil Czartoryski, produzia a coluna social daquele diário. Em São Paulo, o arquiteto Flávio de Carvalho lança o new look, com o artista vestindo blusa de mangas curtas, saia acima dos joelhos, meias arrastão, sandálias de couro e chapéu de náilon.

Era a proposta de nova concepção de traje para os homens tropicais. Foi o maior sucesso. Os jornais não paravam de noticiar o feito: para alguns, ato de coragem; para a grande maioria, gesto de absoluta frescura, não só pelo traje (fresco), como também para quem fosse usá-lo.

Pipa, moleque que era, resolveu fazer o lançamento da tendência em Vitória. Para tanto, precisava encontrar a pessoa certa para vestir aquela indumentária. Começamos, ele e eu, a nomear os possíveis de encarar a brincadeira. Após alguns dias, encontramos o nome certo para tal feito: Nélson de Oliveira Júnior, o famoso Nelson Godéro, pessoa alegre e muito brincalhona.

Fomos à procura dele. Na mesma hora, topou. A Tribuna, imediatamente, começou a noticiar que, a exemplo do famoso arquiteto Flávio de Carvalho, nossa capital também tinha um estilista do new look: Nélson Godéro, no fim do ano, mês de dezembro, faria, na Praça Oito, o lançamento da nova moda em terras capixabas.

E assim foi. Notícias diárias nos jornais, fazendo a expectativa ficar cada vez maior. Um sábado, às 11 horas, foram dia e momentos escolhidos, para proporcionar a presença de um número maior de pessoas no evento. Naquela época, os colégios tinham aulas aos sábados, na parte da manhã.

Praça Oito entulhada de gente, quando, no momento previsto, chega um carro pintado com o símbolo do Vermute Cinzano, cedido gentilmente pelo grupo Buaiz. Estacionado ao lado do relógio, Nélson Godéro sai do veículo e passa a desfilar entre os espectadores. Estes, entre incrédulos e entusiasmados, passam a aplaudir e vaiar ao mesmo tempo.

Não demora muito e Godéro se vê agredido por pessoas, arrancando suas vestes. Ele é obrigado a se refugiar, quase nu, no interior da loja Flor de Maio. Tudo aquilo foi parar nas páginas de A Tribuna e de outros jornais da cidade. E foi assunto entre todos durante muitos e muitos dias.

De outra feita, Pipa montou escritório no Edifício Sarkis, situado na Avenida Jerônimo Monteiro, junto à Praça Oito. Estávamos, Nenel Miranda e eu, passando em frente ao prédio, quando resolvemos fazer uma visita a ele. Pegamos o elevador e chegamos à sala. Entramos, cumprimentamos e não obtivemos resposta. Puxamos vários assuntos e silêncio total.

Percebemos, então, que estava nos dando um gelo. Agradecemos e nos despedimos, voltando ao elevador. Este, após alguns minutos, chegou. Estava cheio de pessoas descendo, mas entramos. A porta começava a fechar quando Pipa aparece aos berros e grita:

- Não voltem mais. Nunca mais darei aval a vocês. Porta fechada, todos ali dentro se voltaram para nós.

Este era o Pipa.

 

Fonte: No tempo do Hidrolitol – 2014
Autor: Sérgio Figueira Sarkis
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

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