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Literatura no ES: os séculos XVII e XVIII

Capa do livro de Francisco Aurélio Ribeiro

A passagem do século teve, no Espírito Santo, a primeira mulher Governadora da Província no Brasil, Dª Luiza Grimaldi (ou Grinalda), esposa de Vasco Fernandes Coutinho Filho e que enfrentou tentativa de invasão de ingleses, em 1592, e apoiou a chegada dos frades franciscanos, deixou o governo para Francisco de Aguiar Coutinho, o último representante da família a dirigir pessoalmente o Espírito Santo.

A Capitania do Espírito Santo entra em total decadência, tendo sofrido ataque dos franceses e holandeses, estes em 1625 e 1640. O principal trabalho deste século foi o dos jesuítas e franciscanos, em suas catequeses e as aventuras dos bandeirantes em suas constantes expedições ao sertão, em busca de indígenas para escravizar e do cobiçado ouro e pedras preciosas.

O Governo Geral do Brasil estava sediado na Bahia, em Salvador. No início do século XVII, o Governador-Geral, D. Francisco de Souza, esteve no Espírito Santo, empenhado em fomentar novas expedições ou jornadas ao sertão. Ele mesmo dirigiu uma expedição ao cume do Mestre Álvaro, maciço em que, segundo frei Vicente do Salvador, havia vestígios de prata e onde foram encontradas algumas esmeraldas. No século XX, o escritor Adelpho Poli Monjardim romancearia tais aventuras.

Preocupado com a fama de riquezas que, enfim, estavam sendo descobertas no Brasil, o Governador Geral mandou erguer fortins em toda a costa, inclusive um, em Vitória. Com o domínio espanhol sobre os portugueses, agravou-se, na colônia, a hostilidade aos estrangeiros. Vitória tornou-se uma fortaleza e seus habitantes renhidos defensores da colonização portuguesa.

Tornou-se lenda capixaba a história de Maria Ortiz, que, junto com outras mulheres, defendeu a Vila de Vitória de um ataque holandês em 14 de maio de 1625, despejando tachos de água fervente sobre os invasores. Tal lenda foi recriada, parodisticamente, pela obra A panelinha de breu, de Maria Bernadete C. de Lyra, em romance publicado pela Ed. Estação Liberdade, em 1992.

A luta contra os invasores e o sonho com as riquezas, encoberto pelo ideal da fé e da crença religiosa, parecem ter sido as principais ocupações dos primeiros brasileiros. Nenhum registro cultural ficou desses primeiros séculos no Espírito Santo.

Afonso Cláudio, na Introdução à sua História da Literatura Espírito-Santense, assim afirmou: “Não admira, pois, que as capitanias colonizadas por esse modo, nenhum processo assinalável mostraram na esfera intelectual e literária, convindo aditar que em algumas delas, o incipiente desenvolvimento espiritual data do começo do século passado: Tal é o caso do Espírito Santo”. Em nota de pé-de-página, o mesmo autor registra, no entanto que mesmo a metrópole (Lisboa) não tinha representantes, na época, com relação à ciência, filosofia, teatro, romance e artes em geral: “Imagine-se a situação da colônia portuguesa na América entregue às mãos grosseiras e ignóbeis dos donatários e capitães-mores!”.

No entanto, isso não era absoluta verdade. Em Salvador, primeira capital do Brasil, os jesuítas desenvolveram uma vida cultural em que se distinguiram, na historiografia, Frei Vicente do Salvador; na prosa literária, Gabriel Soares de Souza, Antônio Fernandes Brandão e Pe. Antônio Vieira, e na poesia, Bento Teixeira Pinto e Gregório de Matos Guerra. Incipiente, na verdade, mas não muito diferente de Lisboa era a vida cultural na Salvador do século XVII.

Com o estabelecimento do Governo Geral do Brasil, na Bahia, em 1549, Salvador tornou-se o centro político, econômico e cultural do Brasil-colônia. As primeiras manifestações literárias, após a literatura informativa de catequética dos jesuítas do século XVI, constituíram  a estética do Barroco que vai de 1601, publicação do poema épico Prosopopéia, de Bento Teixeira Pinto, até 1768, com reflexos diretos das manifestações literárias ibéricas.

O movimento barroco, no Brasil, refletiu-se na poesia - épica, lírica, satírica, encomiástica – através das obras de Bento Teixeira, Manoel Botelho de Oliveira, Gregório de Matos Guerra, Frei Manoel de Santa Maria Itaparica, com incipientes manifestações de teatro em verso, de assunto religioso e profano, sob a influência maior de Lope de Veja.

A prosa barroca reparte-se entre a crônica, a informação, a narrativa e a oratória. Ambrósio Fernandes Brandão, Frei Vicente de Salvador, Pe. Simão de Vasconcelos e Pe. Antônio Vieira foram seus principais cultivadores. No início do século XVIII, surgiram no Brasil, as agremiações literárias ou Academias, em sua origem preocupadas com o cultivo da prosa e da poesia barroca.

Nenhum registro literário ficou, no Espírito Santo, da literatura jesuítica barroca. Sem donatário, sem capitão-mor, ora subordinada à Bahia, ora ao Rio de Janeiro, a capitania do Espírito Santo tornou-se uma “terra de ninguém”, entregue aos jesuítas, mais preocupados com suas fazendas e “missões” de domesticação de indígenas, e acumulação de uma riqueza material terrena do que com a formação cultural da população rude da terra capixaba.

Completamente empobrecida, a Capitania do Espírito Santo foi comprada em 1674, pelo Cel. Francisco Gil de Araújo, um rico baiano, descendente de Caramuru, por 40.000 cruzados. Seu maior objetivo era a busca do ouro e das esmeraldas.

Em fins do século XVII, em 1693, irromperam do sertão, pelo Rio Doce, as primeiras notícias de ouro. Essa apoteose do ouro ia ser profundamente desvantajosa para o Espírito Santo e ocasionar o surgimento e a riqueza de Minas Gerais. O Espírito Santo tornou-se o principal refúgio de numerosos índios, em suas densas florestas, impedidas de serem desmatadas por decreto real. Muitos fortes foram edificados e reformados na Vila de Vitória.

No início do século XVIII, o Espírito Santo torna-se menor com a criação da Capitania de São Paulo e distrito das Minas de ouro, em 1709. Sem donatário, foi incorporada ao patrimônio real, em 1711. Neste século, jesuítas e franciscanos tornaram-se os verdadeiros donos do Espírito Santo e de suas poucas vilas litorâneas, exercendo, com afinco, os seus deveres, inclusive os de “Santa Inquisição”. Em 1720, por exemplo, a Inquisição fez seguir para Portugal, Brás Gomes, um rico mercador em Vitória, acusado de heresia por conservar um crucifixo em uma caixa. Uma pequena brochura intitulada “Um fato da Inquisição no Brasil e heroísmo de um capixaba” narra-lhe todo o infortúnio. Em 1985, o Prof. Luiz Guilherme Santos Neves ganha o 3º lugar no I Prêmio Rio de Literatura, com a obra As chamas na missa, publicada em 1986 pela Philobiblion, que ficcionaliza os fatos ocorridos na Vila do Santíssimo Sacramento, no início do século XVIII. A inquisição é revisitada 250 anos depois pela literatura para resgatar a história de Vitória daqueles tempos.

 

Fonte: A Literatura do Espírito Santo, 1996
Autor: Francisco Aurélio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2012 

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