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Luto, enterros e cemitérios – Por Areobaldo Lellis Horta

Aerobaldo Lellis, com o peitilho de luto pela morte do irmão, e Lieta, e em São Loureço, 1930

Antigamente o luto era "fechado", a começar pela casa, onde alguém falecesse, em torno de cuja porta de entrada era, de alto a baixo, estendida uma longa e larga faixa de fazenda preta, anunciado o trespasse. Conforme as condições da família, fazia ela distribuir convites impressos, tarjados de preto, em envelopes com idêntica tarja, convidando as pessoas amigas para o saimento.

Obedecendo-se às velhas instruções das Cortes de Portugal, ao tempo do Brasil Colônia, vestia-se luto a rigor, as mulheres, vestidos pretos com véus da mesma cor, cobrindo cabeça e rosto; os homens, de luto fechado, dos pés à cabeça, dos sapatos e meias ao chapéu, colocando neste um véu. As camisas, quando não eram pretas, usava-se um peitilho daquela cor, havendo um linho preto, com que os homens se trajavam. No interior dos próprios lares, as mulheres usavam vestidos de chita preta. Os disfarces só pareciam no período apropriado, na conformidade das ditas instruções.

Conforme o falecido pertencesse a esta ou aquela irmandade, a igreja respectiva fazia vibrar, durante o dia, os seus sinos, em picadas espaçadas, que soavam aos ares até baixar a urna à sepultura. O cortejo era precedido pela irmandade a que o morto pertencesse e, tantas fossem as associações do gênero, das quais fizesse ele parte, todas tomavam parte no cortejo. O mais concorrido enterro por mim assistido foi o do Dr. Ernesto Mendo de Oliveira, tomando parte todas as irmandades e enorme acampamento, dada a circunstância de não fazer ele, da medicina, uma profissão rendosa, mas, sobretudo, um sacerdócio.

A urna funerária era levada à mão, revezando-se as pessoas no decurso do trajeto. Vale relembrar a figura sempre respeitável de Maria Saraiva, modesta doceira da cidade, e que tinha um pequeno banco, com qual comparecia indistintamente a todos os enterros, para o fim de, sobre o mesmo, fazer colocar a urna, na ocasião do revezamento. Com a sua saia preta e o seu xale preto a tiracolo, chovesse ou fizesse sol, ela estava sempre em seu mister misericordioso que, ao lado de outras qualidades, lhe valeu a grande estima de que sempre se viu cercada. Vitória tem, em uma de suas ruas, o nome da bondosa criatura que, com o fruto do seu modesto trabalho, deu alforria a numerosos escravos, comprando-os, para lhes dar, na mesma hora, a liberdade.

Eram os seguintes os cemitérios existentes na cidade naquela época: Rosário, anexo à igreja do mesmo nome, atualmente fechado; do Carmo Pequeno, ao fundo da igreja; da Misericórdia, anexo à mesma igreja; o da Santa Casa, ao lado esquerdo e um pouco abaixo do hospital, destinado aos que ali falecessem: o da Penitência, no interior do templo e os de N. S. da Boa Morte; Sacramento, São Benedito de São Francisco e o Público, para os indigentes, à esquerda do Convento do mesmo nome, locais hoje completamente edificados.

Era assim, naquele tempo, quando não possuíamos bondes nem automóveis que os chamados Campos Santos existiam no coração da cidade.

 

Antes do mais

 

O presente trabalho, com o qual concorro ao prêmio "Cidade de Vitória", instituído pela Lei Municipal n°. 20, de 8 de setembro de 1946, é um modesto subsídio ao estudo do desenvolvimento da nossa Capital, em suas condições urbanísticas, métodos educacionais de ordem cultural e social, de costumes e tradições ao tempo de minha infância e juventude.

Se valores intelectuais do passado, como padre Antunes de Siqueira, Daemon, Afonso Cláudio e outros de idênticos assuntos se ocuparam para o conhecimento dos vindouros, o fizeram em relação às mesmas épocas de sua juventude. Deixaram, por isto, uma solução de continuidade compreendendo as duas últimas décadas do século dezenove e a primeira do século vinte. É essa lacuna, que pretendo preencher despretensiosamente, com o que a memória me conservou daquela fase de minha vida. Procurando realizá-lo, não posso fugir ao dever de uma homenagem ao berço da nossa evolução - Vila Velha — onde passei parte da minha meninice e à qual a Vitória está presa por uma série de caras circunstâncias, homenagem representada nas crônicas que dão corpo a este trabalho pelo que a seu respeito escrevi.

Vitória, junho de 1951

O AUTOR

 

Fonte: A Vitória do meu tempo – Academia Espírito-Santense de Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 2007 – Vitória/ES
Autor: Areobaldo Lellis Horta
Organização e revisão: Francisco Aurelio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2020

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