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Marcello Vivacqua - O arquiteto que projetou a UFES

Marcello Vivacqua - Arquiteto

Reconhecidamente duas escolas de arquitetura influenciaram o resto do mundo antigo: a grega e a romana, cujas influências atravessaram os séculos e os milênios. Diz a História que os arquitetos romanos mudaram a fisionomia de sua época, especialmente quando desenvolveram uma concepção curvilínea nos edifícios em contraposição ao estilo retilíneo usado pelos gregos. O arco de meio ponto e suas derivações geraram os belíssimos arcos triunfais como o de Tito, de Septimio Severo, de Constantino e o de Jano Guadrifonte. Além do mais, os romanos mostraram verdadeira predileção pela construção de basílicas de planta retangular com colunas internas, teatros, anfiteatros e circos, de estrutura curvilínea, genialmente concebidos.

MARCELO VIVACQUA, descendente dos antigos romanos, de família de imigrantes italianos, herdou esta sensibilidade de criar e adotar variadas formas arquitetônicas que deixam caracterizados em suas obras a evidência de sua marca. Diante de qualquer delas, o observador afirma sempre convicto: é UM PROJETO DE MARCELLO VIVACQUA. E, na verdade, é mesmo! Seus traços e suas predileções estruturais são imediatamente reconhecidos, pois trazem sempre a magia do bom gosto.

Nascido no Rio de Janeiro, no dia 21 de abril de 1928, filho de Pedro Vivacqua e Isilda Monjardim Vivacqua, casou-se em 30 de dezembro de 1965 em Vitória, sendo sua esposa Marly Duarte Vivacqua, natural de Muqui, tendo vindo, todavia, para Cachoeiro com seis meses de idade. De seu casamento tem os seguintes filhos: Marcelo Duarte Vivacqua e Mayra Duarte Vivacqua, ambos naturais de Vitória.

Filho do Rio de Janeiro, MARCELLO VIVACQUA residiu com seus pais numa casa fronteira ao Iate Clube, onde antes era um amontoado de barracões, do qual seu pai foi sócio-fundador. Ali viveu até os 12 anos, quando mudou-se para o Flamengo. Foi o curso primário o que mais marcou sua vida. Ele influiu em toda a formação de MARCELLO que até hoje recorda com saudades de dona mariquinhas que o ensinou a ler, escrever e decorar a tabuada. O Colégio, o “Curso Vitória”, era coordenado por ela e sua filha D. Maria Antonieta de Borba e Silva, responsável pela sólida base cultural e educacional que ele possui. Terminou o curso primário já tendo feito análise de Camões e equações do 1º grau. Ouvia falar de Castro Alves, Raymundo Correa, mas também de Balzac, de Leonardo Da Vinci e de Santos Dumont; tinha uma boa ideia do que representávamos dentro da História da Civilização e o que já éramos como Nação. Visitou dona Antonieta regularmente, até sua morte.

A rigidez e a dureza do Colégio Santo Inácio, para onde foi fazer o ginásio e o científico, em nada o assustaram, porque vinha de uma base muito sólida. Foram sete anos de Santo Inácio: educação e estudo de jesuítas, onde teve que dar o que podia e mais um pouco. Confessa que, nos seus últimos anos, detestava ir ao colégio – sentia-se tiranizado. Em 1945, com 17 anos, terminado o científico e ainda não sabia “o que ia ser”, numa festinha encontrou um rapaz, como ele deslocado e perdido num canto e começaram a conversar. Ele lhe disse que estudava arquitetura, curso desconhecido naquele tempo até para o próprio MARCELLO. Entrou em detalhes e convidou-o para conhecer a Escola. Aceitou o convite e foi. Resolveu então, que era o que queria. Com a bagagem de formação do Santo Inácio, mais seis meses de aulas particulares de reforço, teve a sorte de entrar direto para a Universidade. O curso de Arquitetura era incluído na Escola de Belas-Artes. A Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil foi criada em 10 de outubro de 1945, o que faz de sua turma a primeira totalmente formada dentro de uma Faculdade de Arquitetura. Mas, a recém-formada unidade universitária não tinha sede e continuou funcionando no edifício da Escola de Belas-Artes, com sua maioria de moças, o que fez do seu período de estudante uma época muito movimentada, entre piqueniques, festas e namoros. MARCELLO VIVACQUA praticamente pegou a fase da grande arremetida da arquitetura brasileira: conviviam, na Escola, com Jorge Moreira, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e outros arquitetos inovadores e que os fascinavam falando de uma arquitetura brasileira para o Brasil, quando o prédio do Ministério da Educação do Rio fazia a fama de Niemeyer, mas era chamado de “aquário”, enquanto teciam, para o ódio deles, elogios à colunada dórica do Ministério da Fazenda, do Rio. Havia um intenso clima de debate aberto e, principalmente, grandes professores que o fizeram entender o que é a arquitetura e a sua prática. Lucas Mayerhoffer que, pela primeira vez, no seu primeiro dia de aula, lhes falou da beleza da forma e ele mesmo se extasiava, Wladimir Alves de Souza mostrando, com palavras e desenhos feitos na hora, a função histórica técnico-social da arquitetura; Anderson Moreira da Rocha, o excelente professor de concreto, não um frio calculista mas ensinando que o concreto pode e deve ser explorado em sua volumetria e em sua textura; Flexa Ribeiro de uma cultura inesgotável com sua História da Arte. Mas ao professor Paulo Pires MARCELLO atribui a maior influência na sua formação profissional: sempre exigente em detalhes, sem os quais, realmente não há bom projeto.

Desde 1948, cursando o 3º ano de arquitetura, começou como desenhista na Cia, Construtora Baerlein, onde fazia até marcação de obra e acompanhava a aprovação de projetos pela Prefeitura. Não era estágio: entrava às 13 horas e saía às 20 horas, trabalhando sábado até às 12 horas. Virou um profissional ali, agradecendo até hoje os arrochos do Dr. Baerlein e as orientações do Iwonoy Cavalcanti que só usava camisa de cambraia de linho e que tinha um traço mágico.

Saindo de lá, MARCELLO VIVACQUA aceitou em 1952, convite do Dr. Jones dos Santos Neves, que pretendia trazer gente nova e já com experiência para Vitória. Acredita MARCELLO que algo muito forte o chamava para cá. A voz da terra de seus pais, ambos capixabas, talvez de outra espírito-santense, sua professora Dona Antonieta, mas o fato é que em maio de 1952 desceu de um DC-3 da Aerovias Brasil no Aeroporto de Goiabeiras. Foi trabalhar na Divisão de Obras Públicas do Estado, numa equipe recém-importada de engenheiros, chefiada pelo Dr. Jonas Hortélio da Silva Filho, baiano competentíssimo, de alma doce. Ia ficar dois anos: já está entre nós a vinte e oito. Com a criação da Universidade do Espírito Santo, entusiasmado, começou a dar aulas na Escola de Belas-Artes, na av. Jerônimo Monteiro, onde hoje é o SESI, acabando por ser diretor da mesma quando já funcionava na av. César Helal. Eram oito professores e quarenta alunos. Viviam da Escola e para a Escola. Em 1956 entrou para a Escola Politécnica e de lá acabou na Universidade Federal, criada por Juscelino Kubitschek em 1961. Como professor fundador em suas unidades universitárias, foi reconhecido como “Catedrático” nas duas disciplinas: Arquitetura e Decorações, para, depois, mudar de nome para Professor Titular duas vezes: Centros de Artes e Tecnológico.

Em 1967 teve uma das maiores emoções de sua vida: paraninfou os diplomandos de Engenharia e de Artes. A emoção de entrar puxando a fila dos novos engenheiros a quem disse: “Avante! O Século XXI é de vocês!” Depois, já no placo, ver Marly na plateia com os olhos brilhando de orgulho.

MARCELLO VIVACQUA foi deixando seus tijolos na construção desta cidade e deste Estado. Foi diretor-fundador do Instituto Brasil-Estados Unidos de Vitória em 1954, depois fundou e foi presidente durante sete anos (1959-1966) da Associação de Cultura Franco-Brasileira de Vitória (Aliança Francesa). Projetou os interiores de ambas as entidades, onde se instalaram. Em 1955 foi para os Estados Unidos, ficando lá de dezembro a fevereiro de 1956. Viajou por conta própria, com apresentação de colegas arquitetos e professores. Desceu, em Miami, sozinho, seguiu para Houston de avião, daí para Austin, capital do Texas, depois de trem até Chicago, atravessando, assim, os Estados Unidos, por terra, de Sul a Norte. No Reveillon de 1955 para 1956 experimentou pela primeira vez o frio de zero grau. De lá foi para Albany – capital do Estado de New York, onde seu colega Henry L. Baltner, que nunca mais viu, lhe fez companhia como profissional e amigo. Quando chegou ao escritório dele, os desenhistas se amontoavam em torno de um radinho escutando o campeonato de beisebol. Quem não está acostumado, como MARCELLO... não estava, estranha, né? Depois sentou base numa cidadezinha chamada Mildeletown, a uma hora e meia de trem do subúrbio de New York, alugou um apartamento no Hotel Diplomat daquela cidade e trançava de lá para cá, em suas observações e pesquisas em Arquitetura Escolar, orientado pela Secretaria de Educação do Estado de New York. A primeira vez que, por sinal, pisou a dita cidade, foi chegando de Mildeletown, vindo pelo “tubo” do rio Hudson, isto é, o trem que passa sob o rio Hudson. Iniciava-se uma tradição em sua vida: sempre chegar numa grande capital pela porta de trás. Mais tarde, em Paris foi o mesmo: chegou na Gare Saint Lazare em um trem vindo do Have às quatro da tarde, hora que no seu entender não é para ninguém chegar em Paris, ainda mais numa quinta-feira.

MARCELLO VIVACQUA esteve novamente nos Estados Unidos em 1958, como membro do Seminário sobre Planejamento Físico de Universidade, em Houston, Texas, a Universidade local, onde falou sobre o Brasil, do que já sabíamos fazer, sem se sentir inferior a nenhum colega.

Contar todas as andanças de MARCELLO pelo mundo seria muito longo. Ele esteve em muitos lugares, onde deixou muitos amigos. De tudo o que ele conta, o que mais o sensibiliza é falar do modo como conheceu Marly sua esposa. Diz ele que, um dia, ela entrou no seu escritório, com Ivone, sua colega e amiga, ambas professoras do Parque Infantil da Praia, para pedir sua colaboração para o Natal das crianças pobres, que estavam organizando. A colaboração de MARCELLO, por causa de Marly, foi tão grande que acabou em casamento.

Infelizmente, o espaço não nos concede colocar aqui, tudo o que poderíamos dizer desta fascinante personalidade que é MARCELLO VIVACQUA. Contudo, não poderíamos, por exemplo, deixar de transmitir a vocês alguns dos seus pensamentos e lembranças: Para ele, “sentir-se realizado é ter chegado ao fim da linha; um ser humano que continua vivo está sempre questionando. Quando vê uma obra pronta por um projeto seu, já vê uma série de coisas em que ela poderia ser aperfeiçoada”. Como arquiteto gosta de escutar seus clientes dizerem: “MINHA CASA FOI A MELHOR QUE VOCÊ JÁ FEZ, OUTRA IGUAL VOCÊ NUNCA MAIS FARÁ”. Como professor, gosta de receber seus ex-alunos em busca de informações ou, simplesmente para dizer: alô!

Ser procurado por jovens que pensem em estudar arquitetura e que vêm saber a sua opinião causa-lhe profunda satisfação e orgulho.

Aprecia que façam elogios a Marly e a seus filhos.

O que mais decepciona MARCELLO VIVACQUA: “Um jovem perguntar-lhe se arquitetura dá dinheiro”. Ele sempre responde: “Se você realmente gostar de ser um arquiteto, pode além disso, dar sim. Você gostaria de ser um”? Seu pai sempre lhe dizia: “Não há más profissões. Existem sim maus profissionais”. MARCELLO não se considera rico, sabe que é um bom profissional e faz aquilo que gosta. Acha que ser arquiteto é uma coisa formidável, tal o leque de conhecimentos que a profissão exige que se tenha.

Coisas das quais se recorda com orgulho: quando estavam planejando o Campus em Goiabeiras, para a UFES que nascia, Alaor Queiroz de Araujo, querido amigo, reitor de então, lhe disse: “Marcello, as edificações de um Campus devem ser lançadas como sementes, naturalmente, para que cresçam, evoluam e deem frutos”; o prazer ufanista que sentiu, em 1968, fazendo uma conferência no Rotary Club de Houstoun Sudoeste, onde mostrou um dia positivo colorido, lindo, aqui de Vitória, onde aparece a avenida Beira Mar já com diversos edifícios construídos e um mar azul de fazer inveja refletindo um céu digno de todos os deuses, escutou um “OH!” surpreso da plateia. Perguntou muito inocentemente: “QUE ESPERAVAM VER: CASEBRES E RUÍNAS?”

Finalmente, MARCELLO VIVACQUA é Consultor da Câmara Municipal de Vitória para apreciação do PDU – Plano Diretor Urbano; já publicou várias obras, dentre as quais: CONESTAL; Plano Piloto para o Campus da UFES, bem como circunstanciada descrição e comentário sobre o dito plano e o edifício CEMUNI (Célula Modular Universitária) desenhado para atender qualquer atividade dentro de um Campus Universitário; Revista ACRÓPOLE, números 208 e 220 (publicados em São Paulo); Revista CASA & JARDIM, números 237, 239, 242, 257, 270-A, projetos residenciais (publicados em São Paulo). Entrevista do Mês em “Seleções do Reader’s Digest”; Revista Capixaba, março de 1969, reportagem sobre a obra do Campus sob o título “Nossa Universidade”.

MARCELLO VIVACQUA é responsável por projetos e obras desde unidades universitárias, residências, hospitais e maternidades, bancos, edifícios, num total de 200 trabalhos construídos.

 

Fonte: Personalidades do Espírito Santo,1980
Autora: Maria Nilce
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2012



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