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Maria Bé – Por Elmo Elton

Capa do livro: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014

Tinha um sinal, coberto de pelos, quase na ponta do queixo, à semelhança de um "cavanhaque" de bode, daí, por onde passasse, a molecada gritava: bé, bé, bé, como que imitando o berro daquele animal. Maria, logicamente, se amofinava, mas nada respondia, apenas resmungava, "os gostos vão se tornar desgostos", diante da gritaria de seus apupadores.

Entregava, ligeira e muito séria, marmitas em vários pontos da cidade, sempre acompanhada de dez a quinze cachorros, já que os alimentava com restos de comida. Levava esses vira-latas para casa, tratando-os com carinho. Trabalhou, anos seguidos, na antiga pensão de seu Hermosillo de Oliveira Sucupira, na Ladeira Professor Azambuja, a quem, certa vez, foi endereçado o seguinte bilhete:

"Sr. Sucupira. Bom dia. Já estou enjoada de almoçar e jantar dobradinha. Quando não tiver coisa mais apreciável, pode mandar-me apenas um bife ou mesmo consolo de viúva. Gaúcha".

Seu Sucupira, naturalmente, não entendeu o que vinha a ser consolo de viúva e pediu a marmiteira perguntasse à freguesa sobre a natureza de tal prato, já que desconhecido da culinária local. A explicação foi simples: Linguiça com dois ovos. Ouvida a inesperada resposta, Maria Bé sorriu pela primeira e única vez...

Houve ocasião em que Maria, ao subir o morro da Vila Rubim, exatamente no local onde se assentava o armazém do senhor José Lopes, tornou-se alvo constante da zombaria de uma jovem senhora, então grávida, ali residente. Dita senhora, após os nove meses de gestação normal, teve a criança, sendo que esta trouxe, na face, bem na ponta do queixo, como que por castigo, a reprodução exata do sinal daquela de quem tanto zombara, cumprindo-se, assim, a sentença da ofendida: - "Os gostos vão se tornar desgostos." Este fato é absolutamente verídico, conforme tive a oportunidade de constatar.

Bé, de cabelos pretos, lisos, cortados à la garçonne, usava, sempre descalça, roupas largas, que mais pareciam encardidos camisolões de dormir, sendo que, ao invés de receber apupos de meninos e marmanjos, antes deveria despertar admiração, tanto pelo seu jeito circunspecto, pela sua constante devoção ao trabalho, como, ainda, pela estima que dedicava aos cães. Era natural de São Mateus (ES). Faleceu na  década de 1950. Foi um dos tipos mais populares de Vitória.

 

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Nota: Tipos Populares Capixabas foi editado pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida - UFES, em 1985 e fazia parte da coleção Estudos Capixabas, vol. 6
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

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Prólogo do Jornal O Continente (01.08.1953)

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