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Memorial Aditivo – Por Bernadette Lyra

Meninas do Carmo

A escola dava o costado esquerdo para as bandas do rio. Ficava perto a ponte de seu Menegundes, onde vinham os marimbondos e os congos cantar zoeirando. Verões de banzo e de São Benedito rondavam os infantes. Peixes e estrelas nadavam na beira da escola, eram cor de prata madura.

As primeiras das coisas aprendidas não foram as palavras, foram as coisas mesmo. Casca rugosa de papouleiras, formigas comendo as roseiras, sol chapeado na calçada velha, vento sul azucrinando a folha das janelas feitas de quadradinhos de vidro.

Depois, sucederam as leituras tortas. Os doze trabalhos de Hércules, as Reinações de Narizinho, as Aventuras de Boião, Reco-Reco e Azeitona, todas se cumprimentando ao pé da mesa da diretora, minha tia dona Glorinha.

O nome da escola era um nome longínquo. O nome da escola era Augusto Carvalho, mas não importava. A escola importava. Com o gozo escaleno do uniforme curtinho, de saia vermelha pregueada e a gravata que dava um ar de transvio.

O mercado de peixe ficava ali perto. De maneiras que o cheiro da escola era cheiro de peixe e maresia, quando vinha a canoa. Enquanto dona Moça escrevia no quadro que dois e dois são quatro, o erro disso, contra embora todas as evidências, eu já pressentia.

Eu gostava dos caracóis e das lagartas-fogo. Tinha mesmo um pé de figo ou é miragem?

O pé de sapoti na outra escola, por conta de estar mais justo na retina, não é miragem. O pé de sapoti é antes a garantia da outra escola, a qual não desnatura com a primeira.

A outra é aquela grandona que está naquela praça no meio de Vitória, com uma escadaria embarrigada, a torre de renda e Nossa Senhora Auxiliadora per omnia saecula saeculorum guardada. A outra é mais soante de nome. É o Carmo. E sempre nela cabia a pequenina escola lá de antes.

Na outra tinha a Madre Superiora e as irmãs todas de roupa preta e chapéu branco na elegância. Na outra tinha a irmã Rosa, bem cor de rosa. Na outra tinha Dr. Guilherme Santos Neves e Dr. Nelson Abel de Almeida que eram meus professores mais equidistantes do perto.

A escola do Carmo ajuizava as manhãs, as tardes, as noites e as madrugadas em Vitória. Vista da escola, a cidade, para mim, estava povoada em teoremas. Franzidos de cri-cri de grilos, rangidos de dentes, bondes friorentos pela Rua Sete, sorvetes na Pingüim, milagres delicados e arco-íris de coisas inconfessáveis.

Da varanda, eu encompridava os olhos por cima da baía cheia de anéis de ferro pendurados em guindastes, auguriava o cais. E, da janela do dormitório, eu tergiversava o morro da Fonte Grande, a lua, os cães e o uivo dos navios.

A escola do Carmo fortaleceu a minha semântica de concha às avessas, forneceu as reentrâncias de poliedro de areia carregada pela onda com as quais eu vagabundeio por aí, capixabamente, até a dor da raiz dos dentes e a entranha dos cabelos.

Foi nessa escola do Carmo que eu aprendi deveras a amar Vitória, não como uma certeza, mas como um desvio de mim.

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 10 – Escolas, 1995
Autora: Bernadette Lyra
Nascida em Conceição da Barra (ES).
Professora universitária de Literatura e Cinema
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2020

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