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Na Margem - Por Ivan Borgo

Av. Fernando Ferrari - Governador Élcio Álvares

A recomendação vinha com fartos elogios ao local. Um enclave em pleno asfalto selvagem, ou melhor, ao lado do asfalto selvagem da Fernando Ferrari. Não acreditava tanto, mas fui. Se você conhece esses arredores vai me dar razão para a quase descrença. Talvez um dos espaços mais agitados da cidade, com trânsito em todas as direções, vendedores de fitas-pirata, camelôs que lhe querem vender um produto infalível para tudo que seu carro precisa, todos naquela brava luta pela sobrevivência. Mas, vamos.

Onde é que entra? Por aqui, pelo beco onde há um boteco. Precisamos parar um pouco porque o beco é estreito e lá vem um outro carro em nossa direção. Enquanto parados, podemos ver que se trata de um boteco das antigas. Veja o garrafão cheio de fumo de rolo, desse para fazer cigarro de palha. Há também, debruçado no rústico balcão de madeira, o eterno menino com os olhos grudados nas balas doces depositadas em inacessíveis vasilhames de vidro. Sinalizações de que estávamos entrando num outro território afastado das movimentadas casas de peças para automóveis, de ferragem, de material de construção, bancos, carros e aviões que marcam esse ponto da Fernando Ferrari. O carro que vinha em sentido contrário passou raspando e prosseguimos. "Ah - lembrou minha filha — vamos primeiro comprar verduras. Há uma grande horta logo ali." Havia. E que horta! Baixadas cobertas de alface, outeiros de couves e repolhos, desgrenhadas cebolinhas repimpando em canteiros nutridos por terras negras de um honesto adubo orgânico. Saímos carregados de verdes e suas saudáveis promessas de boa comida. Depois da pequena porteira que marca o limite da horta, fomos atingidos por um tsunami de perfume. Sem exagero. O que é, o que não é, localizamos a fonte da grande onda odorífera: um enorme jasmineiro, explodindo em flores, muitas espalhadas pelo chão, esbanjando um perfume que atraia abelhas e beija-flores. Descrença indo para o ralo. Um lugar como aquele, tão à mão. Do local do jasmineiro avista-se uma estrada de terra amarela como devem ser as estradas amarelas que se perdem nas curvas do adeus no país da saudade.

Voltamos para o carro. "Tem mais depois daquela entrada"- disse ela. Então, avante. Agora entramos em outro beco, ainda mais estreito que o outro, só que desta vez não vinha nenhum carro em sentido contrário. Passamos com facilidade. Um caminhão velho e enferrujado, pneus arriados, fora de combate, está parado ao lado de um casebre. Avançando um pouco mais, vemos o que está escrito em seu pára-choque: "O mundo não é ruim. Mas, às vezes, é muito mal frequentado". Como é? Aquilo é um aviso para visitantes ou se refere aos habitantes do local? Melhor não ficar especulando e seguir. O local é um belo deserto quase desabitado. Só há um homem sentado numa soleira e não achamos prudente falar do emblema do caminhão. Prosseguimos pelo beco e, de repente, abre-se um grande pasto verde, habitado apenas por um burrinho lá adiante. Chegamos perto dele que nos olha desconfiado. É um animal bem velho, com ares de aposentado e que, nitidamente, não está bom da bola. Fica nos olhando aparvalhado. Ensaia vir em nossa direção mas a corda que o mantém no solo o prende. Logo vem à lembrança a célebre carta que Maquiavel recebeu de seu filho a propósito de um burrinho que enlouquecera. O conselho de Maquiavel é de que soltassem o burrinho no pasto. Logo estaria curado. Aquele ali estaria pedindo para ser solto? Esquece. Lembrar que o tempo é outro.

Nos recolhermos ao papel de visitantes. Já tínhamos visto muito por hoje. Hora de voltar. Não sem antes registrar que havia ainda um pequeno regato que corria sob um lençol de ervas. Na saída, esbarramos com um inesperado braço de mar. A maré cheia encobria a lama do mangue e um vento norte fazia sorrir as águas debaixo das verdes folhagens do manguezal. Enfim, o local, de surpreendente beleza, é um desafio para urbanistas que, cedo ou tarde, serão convocados para intervir nele. Sem querer ir "além das chinelas", seria bom que tais urbanistas partissem de uma óbvia constatação: é um lugar belo que deve ser respeitado em sua beleza sem que isso signifique intocabilidade para uso humano. Um grande desafio.

 

Fonte: Vitória, Cidade Sol – Escritos de Vitória nº 25, Academia Espírito-Santense de Letras e Secretaria Municipal de Cultura, 2008
Autor: Ivan Borgo
Nasceu em Castelo, ES, em 1929. Bacharel em Direito e Economista. Cronista, contista e memorialista. Usa o pseudônimo de Roberto Mazzini.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2020

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