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Nietta e Carlos Lindenberg – Do livro Parabéns Pra Você

Maria Lindenberg, aos 9 anos, em foto de estúdio

Vi Carlos Lindenberg pela primeira vez em Santa Isabel enquanto nos beneficiávamos do clima. Jamais esqueci a visão do homem a cavalo que foi cortejar minha irmã. Achei-o lindo e bastante imponente. Ele não prestou atenção na pirralha que o olhava encantada. O que mais me impressionou, no belo cavaleiro, foi um anel no dedo mínimo. Um anel de ouro com dois pequenos brilhantes que logo imaginei ser a representação do Sol. Os brilhantinhos eram os olhos do astro. Carlos jamais se lembrou de ter possuído tal jóia e, muitas vezes, pediu-me que a descrevesse.

Ele e Nietta se conheceram em Vitória, na Praça Oito, ponto nevrálgico da cidade, onde muitos namoros começavam. Em uma exibição ingênua, as moças passavam para suas compras, enquanto os rapazes olhavam, embevecidos, aquele desfile tentador. Passada a fase do ver e escolher, iniciava-se a dos cumprimentos respeitosos e olhares significativos; seguia-se a dos galanteios delicados, etapa na qual os moços se tornavam mais ousados; finalmente, se a donzela correspondesse à corte, era chegado o momento dos encontros formais com o consentimento da família.

A ida de Carlos à Santa Isabel enquadrava-se nesse estágio. Eu tenho até uma fotografia registrando a ocasião. Nietta é a figura principal, mas Maria Pequena e eu demos um jeito de aparecer. Tirar retratos não era comum, e nós não íamos perder aquela oportunidade caída do céu.

Carlos morava em Vitória onde, junto com dois amigos, abrira uma loja de ferragens, tintas e materiais de construção. Era a Duarte, Fundão e Companhia. Companhia devia ser Carlos, pois um sócio se chamava Duarte e, o outro, Fundão. Apesar de satisfeito com o negócio, vender não era a sua especialidade. A loja de ferragens era apenas um meio de vida. Seu amor estava com a terra. Campos, pastos, plantações e a criação de animais diziam ao seu temperamento. Ele era um fazendeiro e, no passado, administrara com sucesso a fazenda Monte Líbano, perto de Cachoeiro, de propriedade de sua avó Henriqueta Monteiro. Ela a vendera depois de uma invasão provocada pela briga entre os irmãos Bernardino e Jerônimo. Carlos tinha tido a oportunidade de comprá-la, com o dinheiro oferecido por um amigo, mas, muito escrupuloso, desistira do negócio para evitar a maledicência da parentela. Teve receio de que o falatório acusasse sua avó de usar da situação para beneficiá-lo. Assim, a fazenda onde nascera passou para outras mãos e foi vendida a porteiras fechadas. Nada foi retirado. Carlos não tinha o hábito de exteriorizar os seus sentimentos, mas a dor de perder Monte Líbano ficou para sempre em seu coração. Muito tempo depois, em uma viagem a Cachoeiro, fui visitá-la. Ela passara por vários donos; estava abandonada e com a sede em ruínas. Estranhamente, porém, entre os escombros do casarão, havia um piano de cauda. A visão daquele velho instrumento morrendo entre os destroços foi surrealista. Meu coração se confrangeu, e eu o imaginei soando ao toque de dedos hábeis. Quais dedos? Não tive coragem de perguntar a Carlos, nem de mencionar a degradação das velhas terras. Depois de sossegar meu coração, agradeci, ao Senhor, por não ter lhe dado vontade de visitar Monte Líbano. Teria sido muito triste constatar o seu declínio.

E foi como um comerciante que ele e Nietta se casaram no Rio de Janeiro, em setembro de 1926. A família alugou uma casa na Tijuca onde o casal noivava enquanto eu os espiava pela fresta da porta, achando tudo muito emocionante. No casamento, segurei a cauda do vestido da noiva, julgando-me uma figura bastante importante na cerimônia. Até hoje, guardo a foto que imortalizou o momento.

Os dois vieram morar aqui em Vitória, na Rua 13 de Maio, em uma bela casa de pedra comprada por Carlos. Era uma construção com duas moradias geminadas, mas completamente independentes: uma em cima e outra em baixo. Eles ocupavam a de cima; mamãe e eu, a de baixo, alugada por Eugênio. Todos os dias, às sete da manhã, eu subia e, sem ser convidada, sentava-me à mesa com os recém-casados. Não me recordo se tornava café ou não. De qualquer modo, lá estava eu atrapalhando a lua-de-mel. Acredito que eles me achassem chatíssima, mas, gentilmente, não reclamavam. Para escapar dos meus ouvidos, os dois conversavam em francês, e, mesmo não entendendo uma só palavra, eu escutava o diálogo sem arredar pé. Contentava-me em olhar de um para o outro, movendo a cabeça como fazem os assistentes de uma partida de tênis. Não me dava conta da inconveniência e grudava neles como um emplastro. Quando o café da manhã terminava, eu dizia: "Licença!", e me dirigia ao banheiro. No dia do meu aniversário, eles me prepararam uma surpresa: embrulharam lindamente um pacote de papel higiênico e me entregaram entre beijos e abraços de felicitações. Devo ter ficado muito decepcionada com o presente, porém, para meu grande alívio, a inesperada lembrança foi logo depois substituída por outra que me encheu de alegria.

Nosso convívio era ótimo. Uma vez, quando eu estava com 9 anos, mamãe viajou e me deixou com eles. Por alguma razão, adoeci, e o médico receitou-me umas cápsulas brancas que cismei de não tomar, gritando repetidamente: "Eu não engulo isso! Eu não engulo isso!". A confusão deve ter sido grande, pois Carlos me deu umas boas palmadas. Na ausência de mamãe, ele atuava como um pai; naquela ocasião, entretanto, eu desconheci aquela paternidade e resisti aos seus argumentos verbais e físicos. Não me lembro por quanto tempo teimei, nem de como fiquei boa. Devo ter finalmente entregado os pontos e tomado as pílulas.

Em minha Primeira Comunhão, ganhei de Nietta uma bela coleção de santinhos para distribuir aos amigos e parentes. Ainda hoje, guardo os que restaram. É uma linda recordação. Infelizmente, não tenho mais o terço de ouro que eles me deram no dia. Perdi-o ou me foi roubado.

A união de Nietta e Carlos durou pouco, pois ela veio a falecer de complicações durante a gravidez do terceiro filho. Era bastante jovem: tinha somente 26 anos e deixou duas filhas: Maria de Lourdes, de 13 meses, e Maria Henriqueta, com menos de 3 anos.

As meninas nasceram em casa; chegaram pelas mãos de uma parteira auxiliada por mamãe. Henriqueta, primeira neta e primeira sobrinha, imediatamente tornou-se o xodó da família e ganhou um apelido de vida toda: Quetinha. Eu adorava balançar as suas roupinhas sobre a fumaça das sementinhas de alfazema queimadas na brasa incandescente. Durante o resguardo de Nietta, era mamãe quem — com a minha contínua assistência — a vestia e ninava. Ela foi o primeiro bebê de quem me ocupei.

De nossa permanência em Santa Isabel, só me recordo da visita de Carlos. Não tenho idéia de quanto tempo ficamos na serra. Minhas lembranças seguintes são de nossa vida em Vitória, onde primeiro moramos em casa de tia Nenen e depois na Rua 13 de Maio, vizinhas de minha irmã recém-casada. Matricularam-me no Colégio do Carmo como aluna do que, então, se chamava segundo ano primário. Lá, fiz amizades que jamais se desmancharam. Conheci Magdalena Vianna, depois, Gabizzo, e permanecemos amigas até a sua morte. Ela era uma mulher maravilhosa e, por coincidência, irmã da mãe de Maria Alice Pessoa. Nós nos sentávamos lado a lado durante as aulas e trocávamos idéias como somente crianças de 7 anos sabem fazer. Éramos ótimas alunas e nos equiparávamos em sabedoria e conhecimentos. Muitas vezes, fazíamos os deveres em conjunto. Até as composições eram feitas a quatro mãos. Depois, nós sorteávamos quem ficaria com qual. Nunca houve rivalidade entre nós. Nossa convivência sempre foi baseada em respeito e carinho e, por isso, resistiu ao tempo. Tenho muitas saudades dela.

Foi aqui em Vitória que mamãe me presenteou com um piano. Um belo Steinway encomendado na Alemanha. Eu tinha uns 8 anos, mas, apesar de achar linda a idéia de ser pianista, não gostava de ficar praticando escalas por cerca de quatro horas diárias. Mesmo assim, continuei estudando. Alguns anos depois, assistindo a um recital de Guiomar Novais no teatro Glória, desisti de tocar, pois compreendi que jamais conseguiria me aproximar da sublime arte daquela criatura. Ela era fenomenal.

Foi mais ou menos por essa época que surgiu um problema em meu couro cabeludo: uma hipersecreção das glândulas sebáceas, doença vulgarmente chamada de seborréia que, além de porejar continuamente, forma crostas por toda a cabeça, inclusive orelha. Não havendo dermatologistas em Vitória, mamãe me levou ao Rio para uma consulta com um famoso especialista. A primeira providência do médico foi mandar raspar os meus cabelos. A segunda foi receitar uma pomada para ser espalhada por todo o meu couro cabeludo. O tratamento seria demorado, e como eu não queria frequentar o colégio de cabeça nua, mamãe teve a idéia de me fazer um chapeuzinho. No Carmo, muitas colegas passaram a me evitar porque a pomada exalava um odor horrível. Magdalena, entretanto, continuou sentada ao meu lado como se eu cheirasse a rosas, mostrando-se formidável durante toda a crise. Infelizmente, o odor nauseante não foi o meu único problema; a seborréia ainda me reservava uma horrível experiência. Aconteceu de repente, pegando-me totalmente desprevenida. A irmã de uma colega, aluna mais adiantada, entrou um dia em nossa classe e, num rompante, arrancou-me o chapéu, exibindo a minha pobre careca que, nos pontos onde a crosta tinha caído, estava manchada de vermelho e com aparência gelatinosa. A exposição em si foi cruel, mas tornou-se ainda pior quando, sem um pingo de caridade, as crianças caíram na gargalhada, zombando da minha triste figura. As risadas doeram mais do que as feridas. Eu comecei a chorar e fugi correndo escada abaixo, humilhada e ressentida. Cheguei à casa debulhada em pranto, mal conseguindo relatar o acontecido. Devo ter sido consolada por mamãe, não me lembro. Recordo-me que ela costurou, por dentro da copa do chapéu, dois cadarços para serem atados sob o meu queixo. Secadas as lágrimas executei um plano de sobrevivência. Apesar da pouca idade, percebi que precisava fazer algo que destruísse a aversão das minhas colegas. Nada maldoso. Muito pelo contrário: decidi chamá-las gentilmente a mim e substituir suas risadas por admiração. O plano consistia em atraí-las, usando das riquezas que a minha inteligência e o meu estudo me haviam dado. Iniciei a campanha no dia seguinte quando, de chapéu preso à cabeça, mostrei-me solícita e prestativa, explicando-lhes as lições e os exercícios que não tinham entendido. O estratagema continuou e, pouco a pouco, pedir-me ajuda se transformou em um hábito. Passei a reuni-las lá em casa, e até meninas de outras turmas frequentaram as minhas aulas; Foi o caso de Jacy Saade, grande amiga até hoje. Assim, pacificamente, as zombeteiras foram conquistadas e muitas amizades surgiram. Eu me saí muito bem; a minha artimanha foi um sucesso; porém, o ruído daquelas risadas permaneceu escondido em meio às minhas lembranças por mais de sessenta anos. Sempre que o incidente era recordado, ele aflorava num estranho sentimento, misto de mágoa e raiva.

Mais ou menos por essa época, Darcy me presenteou com um soneto malicioso. Fala mal de mim, da primeira à última linha. Hoje, compreendo que não passou de uma brincadeira; o propósito foi implicar comigo. Contudo, não me lembro de como reagi na ocasião. Não sei se compreendi a intenção provocativa. Talvez tenha ficado magoada com as suas críticas, mas, de qualquer forma, guardei o soneto como fiz com tantos outros papéis.

Se, em casa, eu não "arredava palha", também não desperdiçava tempo. Gostando muito de ler e de escrever, eu não perdia a oportunidade de rabiscar fosse o que fosse, mesmo atrapalhada pela seborréia. Há, entre os meus guardados, uma carta para mamãe que se achava no Rio:

"Recebi a sua cartinha, que a senhora me enviou, pelo meu querido tio Anselmo e a do Mario que pareceu-me estar com muitas saudades minhas, o que muito agradeço. Estou com muitas saudades da senhora e das brigas de Mario comigo. O tio Anselmo raspou o bigode, ficou um moço de trinta anos, não é? Como vão passando os primos e tios? A senhora foi à casa de dona Lucila? Quando lá for, dê muitos abraços e beijos nela, que envio. Eu estou bem. Adeus, por hoje chega porque tenho que fazer o dever de casa. Adeus, minha mãe, dê muitas lembranças aos caros tios e priminhos. E a senhora aceite muitos beijos da filha que lhe pede a bênção. Maria Queiróz, 24 de 03 de 1925." Para uma correspondente de oito anos, é até bem razoável.

As inconveniências e os dissabores causados pela seborréia não diminuíam a minha vontade de estudar e de viver. Eu continuava a mesma de antes e, durante os três anos da doença, a família portou-se maravilhosamente bem contigo, agindo com a maior naturalidade. No Rio, Mario contava aos amigos como eu era bonita e charmosa. Nietta e Carlos nem pareciam notar a minha careca e a minha feiúra, carinho que nos aproximou ainda mais.

Então, em março de 1931, Nietta morreu por descuido de uma parteira, durante um aborto espontâneo. Uma luva furada causou uma infecção oportunística. Iludidas pela aparente competência da profissional, mamãe e eu havíamos ido até em casa, achando que tudo estava sob controle. Não estava. Em horas, a vida de Nietta terminou. Foi uma tristeza imensa. Um pesadelo no qual não queríamos acreditar. Até o dia fatídico, ela esteve bem e, apenas uma semana antes, muito chique em um vestido longo e chapéu de abas largas, assistira ao casamento de nossa prima Laura, filha de tia Nenen.

Carlos, atordoado e infeliz, procurou a tia que o criara, Helena Monteiro, e com as filhas, uma no colo e a outra pela mão, pediu-lhe para aceitá-los em casa. Dodona, apelido pelo qual ela era habitualmente chamada, concordou. Assim, as meninas saíram de perto de nós. A casa de cima da Rua 13 de Maio ficou vazia.

 

Coordenação geral e pesquisa: Nietta Lindenberg Monte
Texto: Lia Neiva
Transcrição de fitas: Líris Ramos
Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros
Editoração Eletrônica: Shan, Gustavo Senna e Renata Machado
Fotos: Arquivo de família
Tratamento das fotos: Luiz Fernando Martinho
Fonte: Parabéns pra você – texto: Lia Neiva, Vitória/ES, 2008
Autora: Maria LindenbergCompilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

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