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Nós os capixabas - Por José Carlos de Oliveira

Carlinhos de Oliveira

O capixaba é, antes de tudo, um fraco. No bom sentido: sentimental, modesto, deslumbrado por tudo o que vem de fora.

O cantor Roberto Carlos é um típico rapaz do Espírito Santo. Tímido, romântico, eternamente criança, desperta nas crianças um sentimento maternal.

As irmãs Nara e Danusa Leão representam com fidelidade a mulher capixaba. Nara é modesta, tímida e sossegada como Roberto Carlos; tem o ar de primeira aluna da classe, aquela bonitinha pela qual todos os meninos se apaixonam perdidamente. Já Danusa é a capixaba cosmopolita, sofisticada, para a qual o mundo inteiro é uma província do Espírito Santo.

A modéstia dos capixabas se encontra até no hino oficial do Estado. O autor da letra, em dado instante, lança uma longa mirada sobre a história espírito-santense, à procura de heróis, sábios e mártires. Não encontrando nenhum, confessa singelamente no seu hino:

Se as glórias do presente forem poucas,

Apelai para nós, posteridade!

Até agora a posteridade não deu resposta.

Todo capixaba é generoso, guloso e hospitaleiro. Reparte o que tem com seus vizinhos. Abusa da moqueca de papa-terra. E, com uma velocidade espantosa, se torna íntimo dos forasteiros.

No Espírito Santo, os homens têm um grave defeito: gostam de falar mal da vida alheia. Para isso se reúnem, ao entardecer, na Praça Oito, em Vitória. Mas só falam da boca para fora. No fundo do coração, gostam de todo mundo.

Já as mulheres são meigas, dóceis, extremamente femininas — qualidades muito mais raras do que se pode imaginar. Com sangue índio, italiano, negro e árabe, a mulher capixaba é geralmente morena de olhos castanhos; pálida é a sua cútis, fina a sua cintura e bem desenhadas as suas pernas.

A grande meta da mulher capixaba é se casar com um rapaz honesto e trabalhador.

A grande meta do homem capixaba é tentar a vida no Rio de Janeiro.

Os capixabas levam tudo na galhofa. Para eles, a vida é um espetáculo engraçadíssimo. O bairrismo capixaba se assemelha à saudade de um Espírito Santo imaginário. No fundo nós temos inveja de Minas Gerais e ciúme dos cariocas. Só nos sentimos irmãos dos fluminenses, nosso vizinhos que são pobres, pequeninos e anônimos como nós mesmos.

O modo de falar dos capixabas é civilizado, límpido, nada regional. Somos um povo que dá a cada coisa o seu verdadeiro nome. Ao Penedo que se ergue ao pé de Vitória nós demos o nome de Penedo. Outros povos dizem de suas serras que são a serra do Mar, a serra da Mantiqueira e assim por diante. Pois bem, nossa serra é Serra mesmo. Em outras terras há praias de Copacabana, de Ipanema e assim por diante. As nossas, porém, recebem o nome que merecem: praia da Costa, praia do Canto, praia Comprida. E até o rio Doce é rio Doce por suas águas não serem salgadas.

A mulher capixaba merece um capítulo especial. Podemos vê-la cafusa, taciturna e com cabelos muito lisos e negros, em São Mateus, Linhares e Colatina. Em Santa Teresa nós a surpreendemos loura de olhos azuis. Em Cachoeiro a capixaba é clarinha, suspirosa, humilde. E em Vitória ei-la que surge com suas pernas solidamente plantadas — essas pernas que com incomparável elegância descem a correr, ou sobem vagarosamente as escadarias.

José Carlos Oliveira

 

 

 

 

Os ignorados

A psicologia do capixaba não é muito conhecida no País. Ele próprio raramente é citado no anedotário nacional. É quase um desconhecido. Ou melhor, é ignorado. Fala-se da malícia do mineiro, da valentia do gaúcho, da oratória do baiano, do dinamismo do paulista, da tenacidade do cearense, do espírito do carioca. Fala-se das características do a:a-goano ou do sergipano, de todos enfim. Do espírito-santense nada se sabe, nada se diz. Por sua vez eles não falam deles mesmos. São silenciosos, diríamos um tanto tímidos. Quando um Rubem Braga se chateia com o regionalismo dos amigos e alguém duvida de seus títulos, sua frase máxima de jactância é irônica: — Modéstia à parte, eu sou de Cachoeiro de Itapemirim. Já o seu conterrâneo Newton Freitas, quando lhe perguntam qual o lugar que no mundo mais lhe agrada, ao contrário de todo o regionalista, responde: — Onde encontro amigos. Ambos os escritores refletem nas respostas o seu povo. De gente que não vive a bater no couro das próprias virtudes. Gente, pois, que não gosta de fazer barulho, de chamar a atenção alheia, de mobilizar aplausos ou boquiabertos. Sem vocação para passarelas, dificilmente posando em topo de escada. Gente Que não dá um passo para brigar com ninguém, mas não recua um passo para deixar de brigar com alguém. A questão de limites com Minas é um exemplo. O Espírito Santo não avança, mas não cede um palmo.

Gente assim é dura de roer na luta. Não se deixa levar por entusiasmo, não comete leviandades, não se expõe. Como quem sabe que a sua força está na trincheira. Não arremete. Sempre contragolpeia, com tiro certo e flanco aberto. Não é, portanto, adversário para ser provocado. É tinhoso demais para largar a luta no meio ou cair em precipitações estratégicas. É aquele devagar e sempre que enerva e desmoraliza o antagonista.

O deputado Leonel Brizola quando desafiou o seu colega João Calmon estava pensando em encontrar um saco de areia. Desses que os pugilistas batem e batem e nunca têm troco. Ótimos para treino dos punhos. Seu engano foi não conhecer a mentalidade dos capixabas. Gente que não grita "hay que tener cuidado". Esse foi o seu erro, e fatal.

O resultado aí está. Quem aqui chegou para derrubar Lacerda e outros que tais, acabou encurralado quase por um desconhecido, um simples provinciano que jamais alguém teve em conta de grande tribuno, no máximo um orador para festa de batizados. Entrando pelo equívoco, o deputado Brizola penetrou no cano. Se não arranjar uma saída honrosa, acaba perdendo tudo que Marta fiou.

Há um quarto de século que eu convivo com os nossos patrícios do Espírito Santo. Na bandeira do Estado há uma legenda que eu, a princípio, considerava um tanto derrotista, passiva mesmo. Nela está: "Trabalha e Confia". Parecia a mim um histórico slogan patronal. Impróprio para ardores nativistas. Um dia descobri a sua origem, talvez levada por Anchieta, que por lá viveu e morreu. Era o lema da ordem do grande apóstolo: "Trabalhar como se tudo dependesse de ti e confiar como se tudo dependesse de Deus".

À sombra, pois, desse pavilhão — por sinal de cores otimistas: azul e rosa — os capixabas crescem. Nem acreditam na ajuda dos outros nem vão atrás de golpes de sorte ou azar Apenas sabem que terão de dar tudo de si e confiam que tudo o mais está nas mãos de Deus.

Parada dura mesmo para quem tem outros estilos e acredita em conversa de cartomantes. Sobretudo para quem não leva fé em registros de cartórios e acha que ninguém vai se dar ao trabalho de perquiri-los.

Mário Martins

 

■ José Carlos de Oliveira, também conhecido por Carlinhos de Oliveira, nasceu em Vitória em 1935. Na década de 50, seguindo o conselho de amigos que admiravam seu talento literário, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde alcançou fama de cronista brilhante, com coluna no Jornal do Brasil. Também publicou contos, novelas e o romance Terror e Êxtase, levado ao cinema. Morreu em 1986. Esta crônica é dos anos 70.

■ Mário Martins nasceu em Petrópolis e exerceu a carreira de jornalista no Rio, onde foi vereador, deputado federal e senador. Em 1 %1, por discordar do partido (UDN), renunciou ao seu segundo mandato como deputado. Em 1%9, senador pelo MDB, teve os direitos políticos cassados pelos militares. A partir daí, mudou-se para o Espírito Santo, tornando definitiva uma ligação aberta na década de 30. Pai de 11 filhos, vive em Vila Velha. Esta crônica saiu no Jornal do Brasil, no início da década de 60.

NOTA - José Carlos de Oliveira, também conhecido por Carlinhos de Oliveira, nasceu em Vitória em 1935. Na década de 50, seguindo o conselho de amigos que admiravam seu talento literário, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde alcançou fama de cronista brilhante, com coluna no Jornal do Brasil. Também publicou contos, novelas e o romance Terror e Êxtase, levado ao cinema. Morreu em 1986. Esta crônica é dos anos 70

 

Fonte: Os Capixabas, A Gazeta 14/12/1992
Autores: José Carlos Oliveira (Carlinhos de Oliveira)
Pesquisa e textos: Abmir Aljeus, Geraldo Hasse e Linda Kogure
Fotos: Valter Monteiro, Tadeu Bianconi e Arquivo AG
Concepção gráfica: Sebastião Vargas
Ilustração: Pater
Edição: Geraldo Hasse e Orlando Eller
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2016

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