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O Café é forte na economia capixaba - Por Gabriel Bittencourt

Praça Costa Pereira e o Ed. Palácio do Café, 1955 - Acervo: José Tatagiba

Introduzido no início do século passado, o café passou a ser a redenção econômica do Espírito Santo. Os imigrantes foram fundamentais para desenvolver sua cultura. Mas, por se tratar de um produto de exportação, deixou o Estado refém da economia externa

É muito difícil reconstituir os primeiros passos da cafeicultura no Espírito Santo. Sabe-se que o café era produzido em pequena escala, por volta de 1811. Em Vitória, de acordo com Afonso de Taunay (1939), ainda ao tempo do Governo Rubim (1812-1819), iniciou-se seu plantio. O Governador ficou animado com as plantações do Vale do Rio Doce, de onde vieram as primeiras mudas que ele fez distribuir para as “mamonas” dos quintais de Vitória, que era uma vila cuja população, nessa época, era de apenas 4.245 habitantes, dos quais 1/3 escravos e aproximadamente 1/4 de brancos.

Plantado com cuidados especiais, produziu-se na zona litorânea do Espírito Santo um tipo especial de café, o "capitania", que se tornou valorizado na Praça do Rio de Janeiro, "pelo seu delicioso sabor e inconfundível aroma". Ele marcou época.

De qualquer forma, depois do plantio no Vale do Rio Doce, no início do século, o café só ganha destaque no Espírito Santo a partir da ocupação mais dinâmica do sul da província, em meados do século XIX, penetrando pelos vales do Itapemirim e do Itabapoana, na medida em que a "franja" cafeeira, deslocando-se do Rio de Janeiro, ia invadindo o solo agrícola capixaba, à proporção que as melhores terras fluminenses iam se tornando domínio dos grandes senhores. Este fato, que tornava proibitivo o preço do solo agricultável na Província do Rio de Janeiro, permitirá, nessa expansão, um novo vigor de luso-brasileiros na ocupação econômica o Espírito Santo.

A esses verdadeiros novos desbravadores do Espírito Santo juntaram-se outras vertentes pioneiras: os baianos, ao norte, de longa data, com seus escravos, ocuparam o Vale do Cricaré, enquanto pela "Estrada do Rubim" ou, ainda, pelas picadas paralelas, desceriam os mineiros, em busca de esconderijo ou atraídos pelas terras incultas e disponíveis nas áreas de Alegre, Guaçuí e Castelo; todas, de uma certa forma, tributárias de Cachoeiro de Itapemirim, para onde convergiu aquela corrente fluminense. Este quadro ficará completado, também, a partir do meado do século, com a imigração sistemática européia das mais diversas origens, principalmente a alemã e a italiana. Como fruto de um vasto programa de incremento da mão-de-obra substitutiva do trabalhador escravo, as tentativas da solução da "questão de braços", como ficou conhecida, trouxe para o Espírito Santo formidável enriquecimento étnico de sua população, com amplas repercussões na economia local, particularmente para o café. Assim, a principal economia colonial, o açúcar, começa a ceder espaço ao café, que passa a ocupar a massa de lavradores, dando margem ao surgimento de uma verdadeira "febre" de plantar café no Espírito Santo. Razão, inclusive, de uma alta nos preços dos gêneros alimentícios que deixaram de produzir. Até os pequenos agricultores e os colonos imigrantes abandonaram as culturas tradicionais pela cafeicultura.

A proporção que crescia a produção do café, aumentava também o número de imigrantes. E se criava paralelamente a infra-estrutura viária necessária ao escoamento da produção. A população do Espírito Santo aumentou de 82.131 habitantes, em 1872, para 105.350, em 1879, o que se deve, sem dúvida, à expansão cafeeira e à introdução de colonos europeus e imigrantes espontâneos, ou ainda, ao migrante interno.

O que importa assinalar, porém, é que a participação da economia capixaba no processo de internacionalização do Brasil, que sobreveio à presença de D. João VI no Brasil, somente ocorrerá a partir da cafeicultura no Espírito santo, cujo desenvolvimento marcará, em bases favoráveis à província, sua ligação ao mercado internacional. Em que pese o diminuto território que restou para o Espírito Santo, ao longo do seu processo histórico, hoje correspondente a apenas 0,53 da superfície do País, o avanço da franja do café sobre a terra capixaba irá promover o desbravamento da floresta, antes indevassável e proibida, o incremento da imigração sistemática e a fixação do imigrante europeu, a construção de estradas e a instalação da navegação a vapor. E, já no final do século, a implantação da ferrovia.

Assim, o Espírito Santo chegou à República contando com inúmeras estradas que o cortavam em várias direções. A navegação a vapor servia a alguns de seus rios e às mais diversas regiões litorâneas. Desde a fase imperial, a acumulação capitalista do café tornara a ferrovia uma realidade no sul da província, escoando a produção de Castelo, Alegre e Cachoeiro de Itapemirim.

Cachoeiro de Itapemirim, aliás, torna-se o principal empório da região, atingindo a níveis de urbanização dos mais elevados.

Assim, o Espírito Santo, em pouco tempo, era todo café, chegando a receita pública a depender do produto, em mais de 90 por cento. Essa dependência tornou a economia da Província — e, depois, a do Estado — vulnerável, suscetível às oscilações de preço do mercado internacional. A necessidade de superação do problema trazido pelas incertezas da monocultura e, também, de aumento da receita pública, chegou a provocar esforços industrializantes, como, por exemplo, os do Governo Jerônimo Monteiro (1908-1912), que podem ser entendidos como tentativas de políticas públicas de diversificação da base econômica. Esta e outras tentativas, porém, ficaram nos justos limites da ação governamental; recanalizando-se os investimentos, públicos e privados, para o setor cafeeiro ou a ele ligado, continuando o café a dominar a economia local.

O café, que, em 1910, atingia a 407.970 sacas exportadas, chega à casa dos 968.195, em 1916, superando a marca de 1.224.434, em 1926. Na década de 1920, o Espírito Santo ascende ao terceiro lugar na produção nacional, tomando-se o produto, como já vinha ocorrendo, responsável pela quase totalidade dos recursos para a manutenção do aparelho governamental e serviços oficiais. E, por extensão, podemos afirmar, do comércio e da própria indústria sobrevivente, cujo funcionamento só poderia ser mantido com os recursos da dinâmica da economia cafeeira.

O café construiu estradas e pontes. Gerou energia elétrica, urbanizou Vitória, Cachoeiro de Itapemirim, Colatina e quase todas as demais sedes dos mais importantes municípios capixabas. Mas os governos e as elites empresariais não souberam implantar as bases de uma nova estrutura econômica independente da monocultura. Até que, da safra máxima de 1951 (2.034.500 sacas), a seca, as pragas e doenças dos cafezais, como a broca e a ferrugem, derrubaram a produção a menos de 750.000 sacas, quando então resolveu-se transformar radicalmente a economia do Estado.

O "Plano de Erradicação dos Cafezais", promovido pelo Governo, atingiu em cheio o Espírito Santo, entre 1965/67, quando foram cortados cerca de 180 milhões de pés de café, desempregando cerca de 60 mil trabalhadores. Isso se refletiu sobre seus dependentes, atingindo 200 mil habitantes. Eles passaram a migrar do campo para a cidade (o êxodo rural, como ficou conhecido). A periferia da Capital do Estado inchou-se, com as grandes levas de colonos desempregados. A população carente cresceu em ritmo acelerado. E o Governo buscou então uma solução para a economia abalada. A saída seria o desenvolvimento industrial, com ênfase na siderurgia e celulose.

Atualmente, a participação do café no desenvolvimento econômico do Estado pode ser considerada muito importante. Isso porque, na década de 70, foi criado o Plano de Renovação e Revigoramento dos Cafezais. Então a cultura do café começou a recuperar espaço no cenário econômico capixaba. Hoje, são 949,2 milhões de cafeeiros plantados, com destaque para o café "robusta" (que substituiu o "arábica" nas regiões baixas). O "robusta" é mais conhecido como "café conilon", uma espécie mais rústica de café, apropriada para os terrenos baixos das regiões quentes do Espírito Santo. Já é responsável por 70 por cento da produção estadual. E os pesquisadores capixabas têm aperfeiçoado esta variedade do "conilon", para suportar as intempéries que assolam a região onde é plantado.

A cafeicultura é ainda a base da economia da maioria dos municípios do Espírito Santo, apesar da posição de destaque de outras culturas, em decorrência do esforço para ampliar os caminhos da agricultura, no Estado.

 

Fonte: Jornal A Gazeta, A Saga do Espírito Santo – Das Caravelas ao século XXI – 23/09/1999
Autor deste texto: Gabriel Bittencourt
Pesquisa e texto: Neida Lúcia Moraes
Edição e revisão: José Irmo Goring
Projeto Gráfico: Edson Maltez Heringer
Diagramação: Sebastião Vargas
Supervisão de arte: Ivan Alves
Ilustrações: Genildo Ronchi
Digitação: Joana D’Arc Cruz    
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2016

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