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O Caparaó e a lenda – Por Adelpho Monjardim

Entrada do Parque Nacional do Caparaó

Na divisa dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, eleva-se a Serra do Caparaó, por muitos anos considerada como ponto culminante do sistema orográfico brasileiro; primazia que recentemente perdeu para o Pico da Neblina, na fronteira do Brasil com a Venezuela, três mil e cem metros de altitude.

Quase sempre envolta em nuvens, as altas regiões da serra parecem guardar, ciosas e avaras, aos olhos profanos, os tenebrosos abismos que alucinantes se rasgam nos seus flancos. Como tudo que exalta e aguça a curiosidade humana traz em seu bojo as origens da lenda.

Constava que naquelas altas paragens rebanhos de gado selvagem vagavam incontáveis. Não somente bois, que ao retornarem ao estado primitivo tornaram-se perigosos; mas também cavalos, burros e cabras, além de carneiros. Autêntico safari africano.

Descrita, pois, a região como verdadeiro Éden, onde as árvores, permanentemente cobertas de frutos, se estendiam por «tapetes imensos de gramíneas, verdoengas, aveludadas, e de flores, as mais exóticas, perfumadas e lindas. Afirmavam também existirem lagos medindo quilômetros, todos de águas cristalinas. Num desses lagos vogava um grande pássaro de ouro, com bico de esmeralda, os pés e os olhos de rubi. O belíssimo pássaro era um príncipe encantado por bruxa horrível, ora acocorada num canto a uivar, ora com incríveis correrias, de uma para outra banda.

Nas margens de todos os lagos, em lugar de areia, só existia ouro em pó; debaixo de qualquer pedra encontrar-se-ia um tesouro ainda mais extraordinário que o descrito pelo Eça no “As Minas de Salomão”. Mas... havia também terribilíssimos perigos: a bruxa poderia transformar a criatura humana em pedra, em árvore ou num bicho qualquer. O chão poder-se-ia abrir e sepultar o imprudente. Enormes onças amarelas, pretas ou pintadas, tal qual cachorros de estimação, viviam acompanhando a bruxa desesperada. Quem não acreditasse fosse lá, quando verificaria ser tudo puríssima verdade.

Alguns iconoclastas tinham-na visitado. Não encontraram, é lógico, as estupendas maravilhas procuradas: como eram sobrenaturais, desapareceram ao ouvirem os primeiros silvos estridentes das locomotivas.

Daí a minha prevenção, em parte, contra o progresso; acaba com o que existe de melhor na nossa vida: a fantasia.

Acharam, sim, nos estranhos alcantis, léguas quadradas onde predomina a pedra nua, numa sucessão contínua de píncaros altíssimos e tétricas voragens, nos fundos das quais correm ou se despenham infinidades de pequenos regatos e consideráveis ribeirões, formando bonitas cachoeiras. Sobre as insignificantes camadas de terra, que em algumas partes revestem aquelas monstruosas pedranceiras, levanta-se uma vegetação raquítica de carrascais, onde o mais pequenino espécime nos dá a idéia de baraúna colossal e moribunda, em reduzidíssima miniatura. São rígidos, retorcidos, nodosos. Suas folhas, geralmente pequeninas, parecem ter sido recortadas de lâminas metálicas — estigmas denunciadores de tremendos combates obscuros, contra o meio hostil em que nasceram.

Os tais iconoclastas encontraram, de fato, manadas de gado, que, em absoluto abandono durante anos, havendo perdido por completo os mais vagos vestígios de hábitos dos animais domésticos se tornaram tão bravios como os bandos de uris, thurs, toeniopos, cinydeos, perdidos nos confins da pré-história.

Os primeiros avoengos daqueles animais foram levados por um indivíduo chamado Antônio Dutra de Carvalho — tronco da família Dutra, de Carangola — homem de inaudita coragem. Devido à estatura gigantesca, apelidaram-no Dutrão. Fazendeiro nas imediações de Queluz (hoje cidade Conselheiro Lafaiete, em Minas), envolvendo-se na Revolução Mineira de 1842, após o fracasso de Santa Luzia, do Rio das Velhas, para não cair prisioneiro de Caxias, tocou-se para a sua fazenda, e, com todos os escravos e rebanhos de sua propriedade, vadeando ou navegando rios, transpondo montanhas, atravessando campos, furando florestas, foi esconder-se nas fraldas daquelas serras cujos píncaros de longe divisava.

Lá, abriu uma clareira na mataria bruta, habitada por índios e feras. Apossou-se de vasta área de terras devolutas. Construiu um casarão, plantou roças, montou, enfim, sua fazenda do Caparaó.

(Do livro: «Do Litoral ao Sertão», de Funchal Garcia, escritor renomado e pintor. Livro publicado pela Biblioteca do Exército, em 1965). Como judiciosamente observou Funchal Garcia, a realidade vem sempre acabar «com o que existe de melhor na nossa vida: a fantasia». Todavia a lenda permanece, como o Velocino de Ouro e outras tantas criadas pela fecunda imaginação do homem, porque a fantasia é o alimento do espírito.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2016

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