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O capixaba, uma pré-visão antropológica - Por Renato Pacheco

Renato Pacheco - Autor: Wagner Veiga

Para estudarmos o capixaba, em seus aspectos culturais, é preciso, preliminarmente, definir a palavra.

Recorremos à lição do Professor Elpídio Pimentel ("De quinzena em quinzena", Vida Capixaba, 12/09/1926) quando lembra "No meu entender, que aliás carece de competência, o tupinismo capixaba significa por exten­são, na língua portuguesa:

- lavrador, agricultor. Suas raízes etimológicas são estas ca (mato) pi (pele) cha (eu) e Hab (torcer) ou, mais fora do rigor lexicogênico: arranco a pele do mato, limpo o terreno, capino. O sítio, portanto, onde se levan­taram as primeiras lavouras de milho e feijão na ilha da Vila Nova, pouco depois de Vitória - atual metrópole do Estado - limpo pelos colonos e bugres mansos, sob a vista vigilante dos jesuítas, era chamado, no idioma dos selvícolas, capixaba, nome que permaneceu com esse lugar, onde à primitivas seares sucederam casebres de palha os quais, vencendo o rigor dos anos, e reformando-se, são hoje edifícios modernos e grandiosos, que aformoseiam uma das partes mais importantes da Vitória de nossos dias. O termo tupi, por fácil metalepse, estendeu-se da causa possuída ao possuidor e perdida a noção primitiva (terra lavrada ou lavrador) de etimolo­gia. encorporou-se à classe dos substantivos gentílicos brasileiros, sem o menor desdouro para nós, em quem ele se aplica".

Assim, do significado inicial de roça para nomear todos os habitantes do Espírito Santo foi uma questão de tempo.

 

Mas quem são os habitantes do Espírito Santo?

Quando os portugueses aqui chegaram encontraram índios, tupiniquins e goitacazes, da língua geral tupi, no litoral, puris a sudoeste e botocudos ao norte (e Sul da Bahia, então capitanias de Ilhéus e Porto Seguro).

Pelo extermínio, catequese ou miscigenação os portugueses causaram tremendo desequilíbrio nas populações nativas. Os que sobreviveram foram aculturados, transformando-se nos maratimbas de nossas praias.

Ainda os portugueses aqui trouxeram africanos, principalmente bantos, com os quais também houve intercasamentos, surgindo daí uma população mestiça, mulata e parda.

Segundo Sergio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil 3ª ed. Rio, 1956, p. 145) "O litoral do Espírito Santo, o "Vilão farto" de Vasco Fernandes Coutinho, assim como a zona sul-bahiana, das antigas Capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, permaneceram quase esquecidas dos portugueses, só porque justamente nessas regiões eles tinham encontrados grandes claros na dispersão dos tupi, que não chegaram a desalojar os primeiros habitantes do lugar. Handelman chegou a dizer em sua História do Brasil que excetuado o Alto Amazonas era essa a zona mais escassamente povoada de todo o Império, e espantava-se de que, apos trezentos anos de colonização, ainda houvesse uma região tão selvagem, tão pobremente cultivada, entre a baia de Todos os Santos e a baía do Rio de Janeiro. No Espírito Santo, para manterem os raros centros povoados promoveram os portugueses migrações artificiais de índios da costa que os defendessem contra as razias dos outros gentios. E só no século XIX graças ao zelo beneditino de Guido Tomaz Marliére foi iniciada a catequese dos que se presume serem os últimos descendentes dos ferozes aimoré das margens do Rio Doce, em outros tempos o flagelo dos colonos".

Foi por isto que Capistrano de Abreu (Caminhos antigos e povoamento do Brasil, 4ª edição, Rio, Civilização Brasileira/Mec, p. 25) teve oportunidade de dizer "eliminamos também o território entre o sul da Bahia de Todos os Santos e a Capitania de Santo Amaro. Por todo ele se estendia mata grossa e enredadas que vedavam passagem. A via única de penetração somava-se em rios encachoeirados, que era possível vencer e foram fato vencidos: Sebastião Tourinho, Adorno, Azevedo atestam-no (...) Ilheus, Porto Seguro e Espírito Santo, parte de São Vicente e Santa Amaro pouco diferiam em 1801 do que foram em 1601".

No século XIX, o Governo Imperial, objetivando dar moradores às montanhas centrais da Provincia, para aqui encaminhou imigrantes europeus, os quais, exceto uns pouco seguiam a religião oficial Católica Apostólica Romana: austríacos, luxemburgueses, suíços, holandeses, italianos (predominantemente do Vêneto e do Trento) e alemães, de diversa procedência, especialmente pomeranos.

Com esse material humano, inicia-se, em meados do século passado, a formação do tipo brasileiro que denominamos "capixaba", o qual até 1960 viveu, predominantemente, na zona rural, com fraca densidade demográfica.

São dados populacionais colhidos aqui e ali:

1749 - 2 480 habitantes (Robert Southey)

1817 - 24 585 habitantes (Francisco Alberto Rubim)

1852 - 60.702 habitantes (Relatório Costa Pereira)

1872 - 82 137 habitantes (Censo)

1900 - 209.783 habitantes (Censo)

1920 - 457 328 habitantes (Censo)

1940 - 750.107 habitantes (Censo)

2000 - 3.000.000 habitantes (Estimativa).

Nessa época, no sul do Estado formaram-se grandes fazendas de café, com excedentes populacionais fluminenses e mineiros, assim como criaram-se núcleos urbanos que prestavam serviços a zona rural. As fazendas se exauriram por volta de 1900/1920, donde seu parcelamento (na região do Alto Castelo), ou sua transformação em pastagem. Nas regiões montanhosas do centro formaram-se pequenas propriedades uni familiares, que se dedicaram, também, ao plantio do café, e, posteriormente, de hortifrutigranjeiros. O norte do Estado manteve-se intocado até meados do século XX, quando, com muita rapidez foi ocupado pela terceira geração dos imigrantes europeus da zona central, mineiros e baianos.

Nele os madeireiros iniciaram a destruição das matas retirando as espécies de maior valor. Os posseiros terminaram, em curto prazo, a destruição com queimadas, em extensas áreas. Ainda vi, com espanto, em 1957, em Mucurici Montanha queimadas de até 200ha para transformação direta do solo em pasto, sem lavoura intermediária alguma.

 

1 - Revisão da literatura

Entre as tentativas de caracterizar o "capixaba" a mais antiga, ao que sabemos, é a do jurista e professor Kosciuslo Barbosa Leão no seu livro A visão da miséria através da polícia - socialismo - cooperatismo, Rio, Adersen, s/d. A página 7 de sua obra ele chama o capixaba de capitania, um homem localizado, fora de civilização contemporânea. "É um pensamento isolado ao fundo da sociedade, sem contato com ela, desenvolvendo-se numa atividade silenciosa, alheio, indiferente, avesso não raro aos movimentos do progresso. É, no presente, uma como projeção sombria da família colonial Um passadista que vive para o culto da tradição. Numa palavra - um resíduo da antiga Capitania".

E, conclui, descrevendo-o, fisicamente como tardo no andar, com horror ao mundanismo, detesta o automóvel, é oposicionista por sistema, nativista, independente.

O cronista José Carlos Oliveira (in "Nós, os capixabas)  Enciclopédia Bloch, fev 1968, p 97) dá de nós mesmos outra visão, considerando o capixaba tímido, galhofeiro, romântico, sentimental mesmo, e modesto. Vê também nossa gente como generosa, gulosa e hospitaleira. "Com uma velocidade espantosa se torna intimo dos forasteiros". O povo "gosta de falar mal da vida alheia". A mulher capixaba, na visão do cronista, é "meiga, dócil, extremamente feminina. Com sangue índio, italiano, negro e árabe, a mulher capixaba é geralmente morena, de olhos castanhos, pálida é a sua cútis, fina a sua cintura e bem desenhadas as suas pernas". No fundo, conclui o cronista "nós temos inveja de Minas Gerais e ciúme do Rio de Janeiro".

Já para o folclorista Hermógenes Lima Fonseca ("O capixaba" In A Gazeta de 27/04/1985) o capixaba é antes de tudo um critico, um gozador, um satírico, e não é qualquer artista que consegue arrancar alguns aplausos nosso, "o cabra deve ser bom".

O professor Carlos Bússula ("Alguns aspectos da cultura dos descendentes dos imigrantes italianos no Estado do Espírito Santo" in A presença italiana no Brasil, vol. II, Porto Alegre e Torino, EST/FGA, 1990) através de uma série de pesquisas, durante nove anos, considera o capixaba um europeu que muitas vezes se expressa através dos valores de outras culturas, criando "um comportamento novo, que é típico dele, um comportamento capixaba, que se diferencia do mineiro, do bahiano e do sulista" Entre outras características arrola, como principal, o espírito comunitário, do qual o mutirão é virtude e a fofoca e a falta de segredo são defeitos. “Além disso, há a felicidade de viver, a democracia, acentuado misticismo, unidos à despreocupação com o futuro que resulta em falta de planejamento e previdência”.

Já para o jornalista Flavio Sano ("Devagar, quase parando" in A Tribuna, 03/08/1990) o capixaba é um povo que perde por esperar. De tanto cultivar certos hábitos, acaba se atrasando sem perceber. Este jeito bonachão de viver pode ser observado nas filas do pedágio da terceira ponte ou até mesmo dentro dos coletivos - muitos passageiros só passam pela roleta no momento de saltar. É o capixaba lento, tranqüilo em demasia, desleixado.

Posição diametralmente oposta vem de ser adotada, mais recentemente, pelo economista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Alain Heracovici ("Não existe identidade capixaba" in A Gazeta, 06/11/1994). Diz o professor francês radicando entre nós: "não sou especialista mas parece que o Espírito Santo é um Estado que começa a se desenvolver economicamente. Pela história, não tem referenciais específicos como o Rio e a Bahia. Mesmo assim, seu desenvolvimento econômico implica a necessidade da criação de uma identidade cultural, uma imagem cultural do Espírito Santo É preciso, então, criar o mais rápido possível essa identidade cultural, entre aspas. E isso é típico da relação que existe entre o desenvolvimento econômico e a construção de uma imagem imediática. Mas parece que não se está conseguindo".

 

2 - Comentários à literatura examinada

Como se vê da literatura resenhada são vagos e contraditórios as opiniões sobre o capixaba.

Barbosa Leão o considera avesso ao mundo ocidental e ao progresso, vitima do isolamento geográfico, arcaico, tipicamente um homem pré-industrial. Note-se que esta opinião foi expendida na década de 30.

Já para Cadinhos Oliveira temos no capixaba um tímido porém galhofeiro, romântico e sentimental, modesto, generoso, guloso, hospitaleiro.

Búsula vai mais fundo na questão e o define como um europeu, com comportamento típico, diferente de seus vizinhos.

Sarlo ressalta a falta de pressa, no que concorda com Leão.

A sua vez Hercovici assume posição mais radical: não tem identidade cultural o capixaba.

Assim, o resultado que se obtém pela exame bibliográfico não é conclusivo.

Isto nos leva à necessidade de uma nova pesquisa, que abranja todos os segmentos sociais e toda a área do Estado, a fim de que se possa chegar a um resultado atualizado do que é o capixaba.

 

3 - Algumas considerações

Estou que devemos começar tudo de novo.

Já dissemos que até 1960 o capixaba era um povo predominantemente rural, o território do Estado estava até a década de 30, coberto 70% de mata atlântica. Assim tínhamos um homem rural convivendo com a floresta. A erradicação do café e a construção dos grandes projetos (Siderúrgica, portos, celulose) nas proximidades da capital mudou o panorama.

Desde o início sua agricultura se ressentia dos mesmos males da primitiva agricultura brasileira: exploração extensiva, através de queimadas, falta de recuperação do solo, e lavouras extensivas, seja a da cana no litoral, ou do café no interior.

Principalmente o café, com sua característica de cultura itinerante, sempre ávido por terras novas, dá a marcha do povoamento em terras brasileiras e capixabas, como já acentuamos a partir do século passado.

O povo que aqui veio residir tem que ser encarado em suas peculiaridades pré-existentes: fluminenses, mineiros, baianos, imigrantes do norte europeu, trouxeram todos suas cultura, tentando mantê-la e adaptando-a quando necessário às características locais.

Esta adaptação se faz, a partir da alimentação, em todos os demais itens culturais. Recorde-se que o uso da farinha de mandioca e da cachaça se tornou universal. Mas não nos esqueçamos que, em Alfredo Chaves, há folia de reis italo-capixaba, adaptando aos mores locais a tradicional festa luso-brasileira.

Grosso modo, poderiam ser observadas as seguintes sub-culturas no pequenino território espírito-santense:

1 - metropolitana - abrangendo Grande Vitória e Guarapari, em que a vida urbana se assemelha a das outras cidades brasileiras de médio porte.

2 - litorânea, com estoque predominantemente índio, e vocação para a pesca.

3 - neo-européia - nas montanhas centrais, onde se manter muitas culturas para aqui transplantadas no século XIX.

4 - mineira do sudoeste e noroeste.

5 - baiana, no extremo norte.

A par disto, há bolsões como o dos poloneses em Águia Branca e São Gabriel da Palha, os quais aqui vieram a partir de 1928, assim como descendentes de alemães e italianos que colonizaram partes do norte, em Colatina, São Domingos, Marilândia, Rio Bananal, Vila Valério e Vila Pavão.

Destarte se torna impossivel fazer generalizações válidas, ao menos na situação presente, dada a interculturação que está ocorrendo, que poderá plasmar-se, ou não, numa específica cultura capixaba.

 

4 - Intensa mudança

O que chama a atenção, a exemplo do que está ocorrendo no Brasil, é a intensa mudança que estão sofrendo os costumes e hábitos dos capixabas. 

Em grande parte pode se atribuir isto ao desenvolvimento educa‑ional.

Depois da expulsão dos jesuítas, em 1759, os quais forneciam a totalidade da educação que havia na Capitania, tivemos um hiato em que as prometidas aulas régias não foram instaladas. Segundo Daemon, só em 1771 foi criada uma cadeira de Gramática Latina, em Vitória, sendo professor F. Pita Rocha, posteriormente substituído pelo Padre Marcelino Pinto Ribeiro, mais tarde pelo seu filho Padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte. Em 1824, o Governador Acioli instala Escola de Ensino Mútuo, em Palácio, sendo professor José Joaquim de Almeida Ribeiro O primeiro colégio secundário só vai ser criado em 1867, pela Lei nº 8, Colégio do Espírito Santo, substituído em 1872 pelo Ateneu Provincial.

Leve-se em conta que até 1940 o Estado só mantinha três colégios secundários oficiais, dois em Vitória e outro em Cachoeiro de Itapemirim. Nossa primeira Faculdade, e muito de propósito de ciências jurídicas, é de 1930. Até então, profissionais de nível superior, especialmente engenheiros, médicos e advogados, eram mandados, pelas famílias abastadas, para que se formassem fora do Estado.

A criação da Universidade do Espírito Santo, em 1954, modificou, a médio prazo, o panorama, pré-existente. Acrescente-se a isto que a fixação da vocação portuária de Vitória, a partir de 1940, trouxe para a Capital inúmeros novos moradores qualificados, o que intensificou o processo de mudança.

Até então, as manifestações artísticas locais - salvo as folclóricas, mantidas quase em segredo por seus participantes - eram mínimas, e se restringiam a cópias de modelos externos, predominantemente cariocas.

E preciso ressaltar que nestes quarenta anos, dezenas de moradores da zona rural se transferiram para a Capital, e seus filhos se tornaram profissionais de nível superior.

Isto incrementa o processo de mudança, aproximado o Espírito Santo da cultura ocidental, fugindo a seus resquícios arcaicos, assunto que ainda não foi, em profundidade estudado.

 

5 - Grave problema

Um dos graves problemas a serem solucionados (talvez o mais grave se o combinarmos com as necessidades hídricas) é como reverter a situação florestal, fazendo com que os atuais 5% de mata atlântica, voltem, não aos 90% do século XVI, mas a razoáveis 20% do total do território.

A nosso pensar, só uma ação governamental prioritária, embasada na educação de massas, pode reverter este quadro que se nos afigura abertura perigosa para a desertificação de grande parte do território capixaba.

A lentidão e falta de planejamento e previdência que foram indicadas como características do capixaba são potencialmente perigosas, devendo notar-se que tal situação é tipicamente pré-industrial onde tudo flui ao Deus dará não havendo previsão das catástrofes que se avizinham a passos largos.

A urgência de que se reveste tal ação de reformulação ambiental deve ser encarada de frente e com decisão. Temos de adotar a vertente de ação e mobilização previstas no estudo percuciente do Dr. Armando Marques Vieira, A propósito de um programa florestal para o Espírito Santo - considerações, sentimentos, idéias, Emater, 1993 no qual se enfatiza a necessária mobilização das elites para uma ação conjugada que seja de utilidade comum. Lembremos que o mutirão - trabalho coletivo para um fim comum - faz parte dos mares capixabas.

 

À guisa de encerramento

Este ensaio merece ser discutido e aprofundado pelos especialistas, para que se chegue a uma visão antropológica da gente capixaba. No momento ainda não temos pesquisas suficientes para chegarmos a um resultado satisfatório.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1996 – N° 46
Autor: Renato Pacheco
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2014 

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