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O Cine Cici do Seu Tinininho – Por Átyla de Freitas Lima

Seta indicando onde funcionou o Cine Cici, década de 1930

Sempre nutri uma vontade de divulgar os fatos pitorescos que se passavam em Vila Velha, na época de nossa infância. Agora, lendo em "A GAZETA" um artigo do meu amigo José Búzio da Silva Filho, em que ele focaliza um desses fatos ocorridos com o nosso amigo inesquecível "Demi Malcriado", resolvi pôr em prática este meu desejo. Assim, pois, dentro das minhas limitações, iniciarei hoje contando uma das passagens mais pitorescas de nossa antiga Vila Velha, e que nós vila-velhenses recordamos com muita saudade.

Lá pelos fins da década de vinte e início dos anos trinta, no tempo ainda do cinema mudo, época em que não havia nenhum meio de divulgação, o proprietário do Cine Cici, "seu" Tinininho, fazia a divulgação dos filmes a serem exibidos através de um expediente "sui Generis".

Escolhia uns seis a oito garotos para percorrerem as ruas da cidade (naquele tempo eram tão poucas) – Rua Luciano das Neves, Castelo Branco, Dom Jorge de Menezes, Luiza Grinaldi, Rua do Torrão, Rua Padre Carneiro, Antônio Atayde e Prainha, retornando à Rua 23 de Maio, até o cinema, onde hoje está localizada a sede do PMDB.

Nesse percurso, a garotada ia cantando os dizeres de uma tabuleta, mais ou menos assim:

- É hoje, no Cine Cici, belíssimo drama, em sete atos — A marcha para o Oeste, com Tom Mix e Lilian Damíta; início às sete horas, etc. À medida que a meninada ia percorrendo as ruas da cidade, cantando e anunciando o filme a ser exibido, nós os chamados moleques da classe média, como José Abrahão, Osmar Garoupa, Romero, Silvio, Euclides, Carlinhos Magrelo, Guilherme e Antônio Santos), íamos nos misturando com os outros e, no final do percurso, ao invés de seis, éramos mais de vinte garotos.

Aí começava a confusão. Todos queriam ser marcados com a tradicional cruz no braço, o que lhes garantia uma entrada grátis na sessão da noite. Entretanto, Arabelo e Hermínio, responsáveis por tudo, só marcavam com a cruz os garotos previamente escolhidos por eles e, via de regra, os meninos mais pobres. E assim, nós ficávamos sempre de fora, isto é, sem direito à entrada grátis.

A casa onde funcionava o Cine Cici era um salão grande, coberto de zinco. A geral, das cadeiras, era separada por uma mureta de um metro mais ou menos de altura. Parte das cadeiras era de assoalho (friso) e a parte da geral era de chão (areia), com uns bancos rústicos.

Em se tratando de cinema mudo, o filme era exibido com um fundo musical feito por Tanego e sua senhora, Dona Maria José e ainda por um garoto de uns treze anos, mais ou menos, o saudoso Waldemar Bourguignon que, carinhosamente, era por nós chamado de Waldemar Cambota. Quando começava a sessão e iniciava o fundo musical, nós, que não havíamos conseguido uma entrada grátis, íamos para o quintal do José Abrahão e, lá de cima das árvores começávamos a jogar pedra sobre a cobertura de zinco do cinema. Diante de tanto barulho, e impossibilitado de conter as nossas peraltices, o "seu" Tinininho abria a porta da geral e nos mandava entrar...

Bons tempos aqueles!

Crônica escrita em Vila Velha, 21/05/87

 

Fonte: Bons tempos aqueles
Autor: Atyla de Freitas Lima
Produção: Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha Casa da Memória, 2017
Presidente: Edward Athayde D' Alcântara
Vice-Presidente: Manoel Goes da Silva Neto
Secretária: Maria Célia Dalvi Brunelli Sales
Tesoureiro: Marcos Antônio Rodrigues Feitosa
Diretor de Acervo: Walter de Aguiar Filho
Coordenador de Projetos: Luiz Paulo Siqueira Rangel
Conselho Fiscal: Roberto Brochado Abreu, Rogerio Binda Constantino, Elder Ferreira Marques Nunes.
Suplentes do conselho: Gether Quintaes Freitas Lima; Vicente Umberto de Oliveira; Lauro Antônio Souza Rodrigues
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018



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