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O comércio e o quebra-quebra - Por Luiz Buaiz com texto de Sandra Medeiros

Av. Jerônimo Monteiro

Luiz volta no tempo e começa a se lembrar de um hábito comum em sua casa, a mesada. Com a sua ele comprava balas Fruna, que a criançada toda considerava irresistíveis. Elas vinham com figurinhas disputadíssimas. Como hoje, às vésperas de Copa do Mundo, as crianças colecionavam as estampas. As figurinhas das balas Fruna eram de artistas de cinema. Havia um álbum a ser preenchido e o pequeno Luiz, como as outras crianças, negociava as que tinha em duplicata.

Entre as balas, uma tinha sabor especial: o Caramelo de Lisboa. Havia também a prata da casa: “Na Rua Barão de Itapemirim havia uma fábrica de balas. Ouvi muito os vendedores apregoando: ‘Olha o pirulito espetado no palito!’”

Outra atração fazia a alegria das crianças: “A fábrica de gelo do Zanchetti, em frente ao São Luiz. As pessoas colocavam o gelo em cima de uma serpentina que gelava a água. E tinha um picolé que era redondinho. E o Polar, ainda.” Depois disso veio a geladeira a gás, que foi uma revolução. Era vendida na Mesbla.

Tão esperada quanto a hora de comprar picolé era a hora de tomar guaraná. Luiz se lembra de onde vinha o refrigerante, em Vitória: “Teve fábrica de guaraná, de Píndaro Prado, na Ilha do Príncipe. E quem mandava era a mulher. De vez em quando explodia, porque fermentava muito.” Muitos anos depois, chegaria uma novidade: “Uma fábrica da Antarctica, em Araçatiba. Trajano Santos, pai de Arthur Carlos Gerhardt Santos, foi o seu primeiro diretor. E a Coca-Cola derrubou.”

Numa cidade em que costumava faltar luz, “principalmente no Governo Jones”, havia um comércio atraente, e três pólos onde se concentrava: a Rua do Commercio, a Avenida Jerônimo Monteiro e a Praça Independência.

A Rua do Commercio, hoje Avenida Duarte Lemos, era um movimento só. Ela começava na Cidade de Palha, ultrapassava o atual Moinho Buaiz e ia em direção ao Cais do Imperador, na frente do palácio. Hoje vai da altura do Náutico Brasil até a esquina da General Osório, onde está o Centro de Saúde. Antigamente a Rua do Commercio dava para o mar.

Luiz Buaiz tinha um fascínio especial pela loja de bicicletas da família De Prá, que ficava nessa rua, de muitas casas comerciais, que entre outras coisas vendiam alimentos, pregos, madeira para tamancos e sementes. Ele enumera o comércio de ferragens de Zacarias Fernandes Moça e da Casa Vicentini, em frente à qual ficava o Caldo de Cana Estrela; a Casa Rubim, que vendia – e ainda vende – vasilhas; o comércio de couro; a loja Zé do Balão, de fogos, fósforo colorido e estrelinha; o Bar Santos, famoso pela sinuca frequentada pelo alfaiate Taneco (que era o ás e chamariz da casa) e pela barquete, pão francês com queijo derretido, item certo na mesa de jornalistas, médicos e trabalhadores que encerravam a jornada já na madrugada. Hoje reformado, o bar mantém a barquete no cardápio.

Na saída para Santo Antônio, depois do estaleiro de barcos do Álvares e bem antes da sede do Náutico Brasil, ainda na Rua do Commercio, ficava o Restaurante Mar e Terra. Lá, o prato disputado era a galinha ao molho pardo. Em frente à subida do Morro do Quadro, funcionando numa portinha estreita, trabalhava o maleiro mais disputado de todo o estado: ali ele fabricava os malões de madeira que todas as noivas da cidade compravam para guardar os enxovais.

O comércio da família Buaiz, representação e armazém de alimentos secos e molhados, funcionava na Avenida Schmidt, hoje Avenida Florentino Avidos. Anos depois, na mesma avenida, ao lado da Farmácia Rangel, a família Neffa inauguraria o Supermercado São José. Mais adiante, já bem perto do Palácio, onde por muito tempo seria o Hotel Estoril, funcionou a Casa Renner.

Na Jerônimo Monteiro, que em quase toda extensão tinha comércio de um e de outro lado, havia hotéis, cinemas, jornais, bares, lojas de tecido e escritórios. O comércio de Antenor Guimarães, depois de Orlando Guimarães (vendia telefones magneto, de baquelita) o Correio e a loja de Tuffi Buaiz (que foi prefeito de Vila Velha) ficavam nessa avenida. A Flor de Maio funcionou em dois lugares, na Jerônimo Monteiro. Vendeu chapéus, bengalas, malas, lenços e outros “artigos para cavalheiros” durante quase um século e fechou as portas em 2010, já no segundo endereço, no coração da Praça 8.

Na praça, lugar de reunião dos políticos, um dos pontos mais conhecidos era o Café do Almeidinha. Bem ao lado da Farmácia Aguirre, ali paravam todos que moravam no Centro ou que pegavam o bonde e ônibus para “ir à Cidade”. Como em Londres, o coração de Vitória sempre foi “A Cidade”.

As farmácias da Cidade eram em bom número. “Luiz Buaiz enumera: Aguirre, Rangel, Klinger, Villaschi”. E emenda, lembrando agora a Sapataria Indígena e a Calçados Pianna.

Loja importante até os anos 40 era a Casa Verde. Depois chegariam o Empório Capixaba, a Singer, Pernambucanas, Casa Huddersfield, e Casa Hilal, esta de grandes amigos de Luiz Buaiz: César Hilal e seus filhos, Jorge e César Filho. A Casa Hilal vendia equipamento de pesca e de caça, inclusive armas. Ocupava o térreo do belo sobrado onde funcionou a Faculdade de Direito, ao lado da Escadaria do Palácio, até que, nos anos 80, se transferiu para a Praia do Canto. Em frente, sozinho na esquina, ficava o hotel onde Getúlio Vargas se hospedou e fez um exaltado discurso à multidão. O prédio hoje passa por reforma.

Na Jerônimo Monteiro ficava o Bar Mirthes, o Cine Central, o Banco Hipotecário e, em frente ao Cine-Teatro Glória (com sua charutaria famosa), a Sorveteria Pingüim.

Lojas de vestuário e moda eram Necy Plissé, na Nestor Gomes, perto do Palácio Anchieta; Esperança, que vendia tecidos finos; e a sofisticada Madame Prado, na Costa Pereira. Vendia chapéus, bolsas, vestidos e mantôs. A costureira – hoje seria chamada estilista – da casa era Geny. Madame Prado era Edith Vervloet Gomes Prado. Sua loja tinha uma equipe de vendedoras, entre elas as jovens e elegantes Ruth e Elza, que poderiam desfilar, e às vezes desfilavam. Da Madame Prado sairia Darcy Castelo Mendonça, que atendia na seção masculina. Às vezes ele pegava a vassoura da loja para imitar um microfone e tomou gosto: foi para a Rádio Espírito Santo, fez tanto sucesso que se elegeu vereador e depois deputado. Hoje dá nome à ponte que liga a Praia da Costa à Praia de Santa Helena.

Além da seção masculina da Madame Prado, o homem elegante podia encomendar ternos na alfaiataria do Beraldo, que usava o sugestivo slogan: Bom, bonito e barato. Beraldo! Não menos sugestivo era o slogan do seu concorrente, o alfaiate Deusdedith: Adão não se vestia, porque Deusdedith não existia. O camiseiro Zezinho Nascimento atendia políticos e a alta sociedade num sobrado da Jerônimo Monteiro e Taneco, que viveu até o século XXI, embora tivesse fechado sua alfaiataria nos anos 80, se orgulhava de ter o maior número de oficiais, de máquinas e de fregueses na cidade. Amigo de Luiz Buaiz, ele pontuava em todos os setores, da sinuca do Bar Santos à criação de partidos políticos, recebeu várias comendas e títulos e chegou a colaborar com artigos e versos nos jornais da capital.

Entre a Jerônimo Monteiro e a Praça Independência ficava o Beco da Miséria, onde se ia atrás de artigos de armarinho com preços menores. Nem todo mundo podia comprar na Casa Esperança ou na Argentina. Quem não queria sair da Praia do Canto ia ao bazar do Pedro Vale. Ao contrário de hoje, bazar vendia mercadorias novas, em variedade: tecidos, aviamentos, bibelôs, cadernos, lápis, borrachas, papel. Embora houvesse papelarias, como A Normalista e Santana.

Discorrendo sobre o comércio, Luiz Buaiz lembra-se também, saudoso, das fábricas que seu pai instalou em São Torquato, “quando ninguém pensava em São Torquato”; das fábricas de cal de concha, na Ilha das Caieiras; de Sabão Yóri em Santo Antônio; de gelo da Barão de Itapemirim, e da fábrica de Balas Garoto. Falando da Garoto – que depois também fabricaria chocolates – vem à sua memória o Quebra-Quebra, na época da Segunda Guerra. Desse episódio triste, em 1942, ele considera marcante o que aconteceu com a Garoto: seu dono, Henrique Meyerfreund, sabendo que corria perigo por ser alemão, trancou as portas e entregou a chave ao comandante do 3º BC. Foi detido no Quartel de Maruípe, mas ficou por pouco tempo. O prefeito de Vila Velha, Eugênio Pacheco de Queiróz, intercedeu em seu favor, embora a fábrica tivesse ficado um período sob interventores federais.

Na Revolução de 30, os Buaiz é que viveram um sobressalto: temeroso de alguma represália, por ser estrangeiro, o Sr. Alexandre escondeu a família na Praia do Suá até sentir que o perigo havia passado. Naquela época a Praia do Suá era só mato, com rústicos quiosques para banhistas e pescadores, e apenas uma casa modesta.

 

PRODUÇÃO

 

Copyright by © Luiz Buaiz – 2012

 

Coordenação do Projeto: Angela Buaiz

 

Captação de Recursos: ABZ Projetos

 

Texto e Edição: Sandra Medeiros

 

Colaboraram nas entrevistas:

Leonardo Quarto

Angela Buaiz

Ruth Vieira Gabriel

 

Revisão: Herbert Farias

 

Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros

 

Editoração Eletrônica: Rafael Teixeira e Sandra Medeiros

 

Digitalização: Shan Med

 

Tratamento de Imagens: TrioStudio; Shan Med

 

Fonte: Luiz Buaiz, biografia de um homem incomum – Vitória, ES – 2012.
Autora: Sandra Medeiros
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2020

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