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O Construtor do Relógio da Praça Oito

João Ricardo Hermann Schorling

Quem passa pela Praça Oito, em Vitória, vê, ali, um relógio de grande porte, montado em coluna de mármore (branco e rosa), mas lhe não sabe a história nem, sequer, o nome daquele que o construiu. Sabe, quando muito, apenas por ouvir dizer, que houve tempo em que esse engenho, de hora em hora, emitia os sete primeiros acordes do Hino Espírito-santense. Pois bem, tal relógio foi colocado, naquele logradouro, em 1942, quando prefeito o médico Américo Poli Monjardim, no mesmo local onde, antes, se assentava o obelisco comemorativo do 400º aniversário de colonização do solo espírito-santense (1535-1935), sendo seu construtor e montador o artista João Ricardo Hermann Schorling. Infelizmente, esse outrora utilíssimo relógio, de há muito, permanece sem funcionamento, em decorrência do flagrante desinteresse da Prefeitura Municipal em contratar quem, técnico competente e não simples amador, possa consertá-lo de verdade, pondo-o, assim, em atividade novamente, em benefício da coletividade. Ainda agora, o que não devia ser jamais permitido, na coluna que o sustenta, afixou-se a sigla Banestes (Banco do Estado do Espírito Santo S/A), o que não passa de desrespeito a uma obra que se montou não para servir de painel de propaganda a esta ou aquela empresa, mas para, com regularidade, anunciar as horas àqueles que dela necessitam, quando por ali transitam.

Deve-se, ainda, a João Ricardo a construção de outros relógios públicos existentes no Espírito Santo. O primeiro deles, que data de 1925, foi inaugurado, a 26 de junho do mesmo ano, na igreja de São Pedro-São-Paulo, em Biriricas, no município de Cariacica, onde continua em pleno funcionamento. O segundo figura na torre da igreja luterana de Domingos Martins, também marcando as horas, pontualmente, desde 21 de janeiro de 1937. Um outro, o terceiro, tem a seguinte história: - Em 1896 foi inaugurado, no Convento da Penha, em Vila Velha, custoso relógio, de difícil manejo, sendo que o mesmo, com o correr do tempo, tornou-se sem qualquer valia visto que relojoeiro algum da cidade sabia como recuperá-lo. João Ricardo, em 1943, tomou conhecimento do fato, vindo então a Vitória com o propósito de examinar e consertar tal peça, o que fez, colocando-a, logo depois, em correto funcionamento, na torre daquele cenóbio. Sabe-se, também, que o relógio do Palácio Anchieta deve sua recuperação a esse mesmo senhor.

De João Ricardo Hermann Schorling, que recentemente teve nome dado a uma rua localizada entre as quadras 11 e 24, do bairro de Santa Lúcia, em Vitória, pela Lei nº 3253, de 2 de janeiro de 1985, decretada e sancionada pelo prefeito Ferdinand Berredo de Menezes, sabe-se que nasceu em Berlim, Alemanha, a 24 de janeiro de 1889. Era filho de Richard Schorling e de Maria Freiherr Schorling, tendo, na cidade de nascimento, cursado engenharia mecânica. Adolescente ainda, voltou-se, com entusiasmo, para as atividades desportistas, foi nadador exímio, esquiou, praticou equitação, mas se interessando, sobretudo, pelos vôos em balões, sendo que, em decorrência disso, estudou os movimentos desses engenhos, inventando e construindo um dispositivo para controlar, com exatidão, a subida e descida dos mesmos. Deu a esse invento o nome de Windbat — "folha de vento-válvula de escape" —, o teste se realizando com absoluto êxito, a 31 de julho de 1908, no balão Otto von Gericke. O invento foi registrado no Clube de Aeronáutica de Magdeburg (Alemanha), tendo sido, por esse tempo; companheiro de vôo do pioneiro Hans Grade. Também, na Alemanha, trabalhou nas fábricas Grupp, especializando-se em montagem de armas e relógios.

Em fins de 1908, João Ricardo, acompanhado do pai, falecido no ano seguinte, aportava no Rio de Janeiro, em gozo de férias. Filho mais velho e com doze irmãos, todos já adultos, não pensou em retornar à Europa, e porque logo apaixonado pelo país a que estava visitando, eis que se decide a ficar e iniciar aqui nova vida, passando, então, a percorrer cidades, vilas e sertões, parando em Baixo Guandu, no Espírito Santo, onde se instala, temporariamente, tendo, na ocasião, isto é, a 27 de abril de 1910, adquirido, em Afonso Pena, no município de Linhares, no mesmo Estado, um título de terra.

Outras, porém, as suas ambições, tanto assim que, entrando em contato, em Linhares, com um engenheiro austríaco, representante e demonstrador de máquinas beneficiadoras de grãos de cereais, associou-se a este, sendo que tal engenheiro trouxera consigo a esposa e uma irmã desta: Rosa Wlasak, com quem João Ricardo contrai núpcias, a 15 de dezembro de 1912, em Vitória, após um romance novelesco de dois anos.

De 1911 a 1914, trabalha, como maquinista, na dragagem do Porto de Vitória, então sob a responsabilidade da firma empreiteira C.H. Walker & Co. Ltd.

Logo depois, ei-lo, como ajustador mecânico de 1ª classe, nas oficinas da Estrada de Ferro Vitória-Diamantina. Foi, nessa ocasião que, na localidade de João Neiva, onde estava lotado, fundou, a 4 de abril de 1915, o Liceu Pedro Nolasco, destinado a operários da empresa, inaugurando-se ali, solenemente, sua fotografia, como justa homenagem ao idealizador e fundador do estabelecimento, do qual se tornou professor de desenho geométrico, prático, com aplicação à mecânica, nada recebendo pelas suas aulas.

Em 1917 passa a encarregado das oficinas e serraria da Companhia de Comércio e Navegação, propriedade do conhecido empresário Antenor Guimarães, mas nela se demora pouco, visto que João Ricardo nunca fora homem de aquietar-se facilmente nesta ou naquela função, era, quando jovem, "pedra que não cria limo”, tanto que, naquele mesmo ano, já se encontra em Cariacica (ES), como capataz da fazenda do coronel Francisco Schwab Filho, adquirindo, logo em seguida, em São Paulo de Biriricas, no mesmo município, terreno em que, trabalhando por conta própria, constrói casa confortável. Aí lhe nasce, a 15 de julho de 1919, a primeira e única filha: — Rosa Helena Schorling, que, a partir de 1940, tornou-se conhecidíssima em todo o Brasil, como a nossa primeira mulher pára-quedista.

Em 1919 João Ricardo transfere-se com a família para o município de Domingos Martins, onde adquire as terras de Nicolau Velten, o primeiro colonizador alemão da região, datando de 12 de maio de 1895 a escritura primitiva dessas terras. Espírito sensível, encantou-se, de imediato, com a natureza local, com suas matas e abundância de flores. Instala-se no Sítio Rosenhausen, ou seja Morada das Rosas, como ele lhe chamava, montando, ali, uma oficina para conserto de armas e feitura de relógios. Também executa consertos e fabrica peças de qualquer tipo e espécie para aparelhos, máquinas, motores, carros etc. Ressalte-se, porém, que, de suas tantas habilidades, a preferida era esta: consertar, fabricar e oxidar armas, tendo mesmo consertado e fabricado mais de 5814 delas, colecionando-as, quando raras. Essas armas, as mais preciosas, foram doadas, a 24 de abril de 1938, em atenção a pedidos insistentes do interventor do Estado, ao museu do Estado, então em organização. Infelizmente, tais peças jamais foram expostas em lugar algum nem do seu paradeiro ninguém sabe.

Schorling, como era, abreviadamente, chamado por todos, dedicava-se, nas horas vagas, a trabalhos de artesanato em cobre, cinzelando bandejas com jogos de porta-cigarros, fósforos e cinzeiros, tudo trabalhado engenhosamente com balas de fuzil e patacas. Modelou e fundiu, sempre por encomenda, várias cruzes para sepulturas do cemitério de Domingos Martins.

Outros de seus trabalhos comprovam-lhe a capacidade técnica ou artística, tais como:

Projetou e construiu, em 1941, o prédio da fábrica da Empresa Gelo Seco S/A., no subúrbio de Cordovil (RJ), de propriedade do capixaba Manuel Silvino Monjardim.

Autor de artístico lustro em ferro batido para a igreja placas de bronze, contendo os nomes das primeiras famílias alemãs chegadas ao município de Domingos Martins. Este monumento, inaugurado a 5 de agosto de 1935, localiza-se no km 32 da BR-262 — Rodovia Costa e Silva.

Construtor de duas belíssimas fontes luminosas: uma colocada no Parque Moscoso e outra na Praça Costa Pereira, em Vitória, ambas inauguradas a 23 de junho de 1941.

Autor de artístico lustro em ferro batido para a igreja de Santa Maria, em Domingos Martins.

Acentue-se, ainda, que, durante seus 46 anos de residência na cidade de Domingos Martins, foi João Ricardo, dos moradores locais, o primeiro a adquirir um caminhão de transportes, com licença expedida a 10 de novembro de 1922, o chassis comprado em São Paulo. Foi, também, possuidor da primeira bicicleta, de marca Lucifer, procedente da Ale-manha, como, igualmente, proprietário da primeira motocicleta, marca Indian, ali chegadas, sendo portador da carteira nº 1472 de motorista profissional, assim como detentor do primeiro título eleitoral, datado de 19 de março de 1930, ex-pedido em sua Comarca.

Lastimavelmente, a 15 de março de 1955, quando trabalhando em sua oficina, no Sítio Rosenhausen, João Ricardo foi brutal e covardemente assassinado por quem dele, antes, só recebera gentilezas, crime que abalou profundamente toda a comunidade espírito-santense, que o admirava.

Em 1980, pela Lei nº 19, de 7 de novembro, o prefeito municipal de Domingos Martins, Sr. Elias Paganini, deu-lhe o nome à rodovia que liga o trevo da BR 262 àquela cidade, perpetuando, assim, a memória de um homem que soube manter-se fiel à sua vocação de artista, dando-se inteiro a uma terra que ele adotou, pelo coração, como sua também.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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