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O culto de Nossa Senhora da Penha de França chegou a Portugal

Nossa Senhora da Penha de França - Ilha do Faial Açores, Portugal

Divulgado na Espanha, o culto de Nossa Senhora da Penha de França chegou a Portugal. Foi introduzido em Lisboa pelo entalhador Antônio Simões, para cumprir a promessa de regressar incólume da batalha de Alcácer Kibir (1578), da qual se salvou milagrosamente. Vendo-se perdido, com a sua tropa, acantonado junto a uma enorme rocha, prestes a ser atacado pelos mouros, recorreu, fervoroso, à Virgem Maria. Teve a confortadora Visão da imagem de sua Protetora, circundada de luz e estendendo-lhe as mãos, sobre o penhasco. Misteriosamente, recuaram os mouros e Antônio salvou-se, com os seus companheiros.

Regressando a Lisboa, esculpiu nove imagens de Nossa Senhora e, correspondendo ao desejo do jesuíta Mestre Inácio Martins, célebre autor da "Cartilha de Pe. Inácio", fez a última conforme a invocação de Nossa Senhora da Penha de França . (O Pe. Colunga, em "Ntra. Sña. de la Peña de Francia", diz nove imagens; Alberto Pimentel, em "História do Culto de Nossa Senhora, em Portugal", diz sete). Segundo ainda Alberto Pimentel: — "por memória de outra imagem de igual invocação que tinha um santuário na Espanha, junto a Salamanca, e estava enchendo a Penísula com a fama dos seus milagres". (5)

Colocou-a na ermida de Nossa Senhora da Vitória. Construiu, depois, no cimo de um monte — Cabeça de Alperche, uma capelinha, cuja pedra fundamental foi lançada, a 25 de março de 1597. (6) Esse templo foi benzido, a 10 de Maio de 1598.

Começaram a afluir ali numerosas romarias de penitentes. Conta-se, então, que um peregrino, vindo de longe, portanto fatigado, adormecera na relva. Mas, escapou de ser picado por uma grande serpente, porque um lagarto, saltando rápido, sobre o mesmo peregrino, o acordou. Essa a razão por que se representa Nossa Senhora da Penha, em Portugal, tendo aos pés um romeiro, uma serpente e um lagarto.

Essa lenda, porém, repete-se, com diversas variantes, noutros lugares. Em "Migalhas Folklóricas", Mariza Lira registra-a, relacionada com a Penha de Irajá, no Rio de Janeiro. E Pereira da Costa, no Vol. III dos Anais Pernambucanos", pgs. 417-421, diz que "os religiosos capuchinhos, quando em 1656, construíram o seu hospício com a sua competente igreja, colocaram, no seu altar-mor, uma imagem de Nossa Senhora da Penha de França, segundo a lenda cristã do aparecimento da Senhora ao Pastor Simão Pedro, nas fraldas dos Pirineus, perto de Pau, às margens do Gave, quando, dormindo, ia sendo acometido por um crocodilo, salvando-o assim da morte". Há porém, confusão, nesse registro, pois, na França, nunca existiram crocodilos. O Santuário de Nossa Senhora de França encontra-se no Puy, — a Penha de França.

Quanto à Penha de Irajá, a tradição registra que o Capitão Baltazar Abreu Cardoso Sodré comprou aos jesuítas um trato de terras, para os lados da Fazenda Maricá, no Rio de Janeiro, perto de Imbuí. Estava em sua propriedade, junto ao penhasco, onde se ergue atualmente a igreja, quando foi acometido por enorme serpente. Desarmado, invocou, em altas vozes: — "Valha-me Nossa Senhora da Penha!"

Logo, surgiu um lagarto, que o defendeu.

O fato passou-se, em 1711. Tratou o Capitão Baltazar de melhorar o templo, já existente, no outeiro de Irajá, dando-lhe magnificência e ornamentação. (1734)

Esta é a lenda. A História, porém, ensina que o apêlo de Baltazar de Abreu Cardoso Sodré relaciona-se com a invasão de Duguay Trouin, em Setembro de 1711, quando o Almirante francês incendiou a cidade e perseguiu o governador Francisco de Castro Morais, em sua retirada famosa. Baltazar comandava a tropa, em Irajá. Vendo-se perdido, entre os franceses e o atoleiro, invocou: — "Valha-me Nossa Senhora da Penha!"

Como por encanto, os franceses içaram a bandeira branca. Receberam a notícia de que o Governador, para libertar a cidade pagaria os tributos impostos pelo corsário.

Outros santuários e templos atestaram igualmente que, em Portugal, se difundira logo a devoção divulgada na Espanha. Segundo referências de historiador ilustre, eram dedicadas a Nossa Senhora da Penha de França as ermidas dedicadas pelas extinta Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, e existentes, quando Pedro Palácios chegou ao Espírito Santo.

Praticava-se, portanto, na Europa, a escultura de imagens de Nossa Senhora da Penha de França, antes da batalha de Alcácer-Kibir.

Em princípios de 1599, saíra de Lisboa uma frota, a caminho das Índias Orientais. Na travessia, foi rudemente batida pelos ventos e atacada pela inclemência da peste. Logo, Dom Jerônimo Coutinho, seu Capitão, recorreu a Nossa Senhora da Penha de França e, com sua gente, prometeu instituir uma confraria, que lhe fosse dedicada. No regresso a Lisboa, cumpriu o voto e a Virgem recebeu o novo título de Protetora dos Navegantes.

A irmandade chamou-se "dos Fidalgos e Marítimos".

No "Itinerário da índia por terra", Frei Gaspar de São Bernardino, ao narrar os tormentos sofridos pela nau "São Jacinto", que partira da índia em 1605, diz: — “Vendo-se sem governo, um dos companheiros, que na nau vinha, pusera um Retábulo, que trazia, da Senhora da Penha de França, na cadeira do piloto, para que ela governasse como Mãe da Misericórdia. Assim o fez, três dias e noites, sem a nau neles atravessar nunca, nem tomar de luva, ou pôr doravante, o que certo foi evidentíssima maravilha".

No convento dos Religiosos de Santo Agostinho, o Pe. Vieira pregou, em 1652, o célebre "Sermão de Nossa Senhora da Penha de França".

Em Nova Cáceres, nas Filipinas, erigiu-se um Santuário a Nossa Senhora da Penha de França, em 1712.

Em 1833, os lisboetas elegeram Nossa Senhora da Penha de França Protetora de Lisboa.

Pelo que temos investigado, o Santuário da Penha, no Espírito Santo, é o terceiro, em ordem cronológica, após o de Puy. O da Espanha data de 1434, quando Simon Vela construiu a cabana para a imagem encontrada na Serra de França. O de Portugal, de 1597, conforme registramos; o das Filipinas, do Século XVIII.

É o primeiro do Brasil. A igreja da Penha de Irajá, no Rio de Janeiro, data de 1635, mais ou menos, segundo as pesquisas da folclorista Mariza Lira. Foi uma capela fundada pelos beneditinos. No Recife, os religiosos capuchinhos receberam a doação de umas terras, em 19 de Abril de 1656. Construíram um hospício, com igreja dedicada a Nossa Senhora da Penha de França. Levantaram, depois, novo templo, cuja pedra fundamental foi lançada, a 6 de Novembro de 1870.

 

NOTAS

5) — Alberto Pimentel. Hist. de Nossa Senhoa em Portugal.

6) — Idem. Idem.

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2016

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