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O Dia de Cachoeiro - Por Gabriel Bittencourt

Cachoeiro do Itapemirim

Há 118 anos, no dia 25 de março de 1867, era instalada a Câmara Municipal da Vila de "Cachoeiro", desmembrada da Vila de Itapemirim. Sua população mal ultrapassava de três mil habitantes, mas este ato refletira sensivelmente na decadência do município de Itapemirim.

Dividida pelo rio Itapemirim, vinte anos após sua instalação, ficou a cidade ligada pela ponte que coroou o êxito da administração Gil Goulart, em 1887.

A franja do café que, a partir do Rio de Janeiro, se deslocava para o norte, penetrará, célere, pelo sul do Espírito Santo, dinamizando a economia regional e urbanizando os centros cafeeiros, onde seus munícipes não mediam esforços para modernização de suas cidades.

Cachoeiro de Itapemirim, centro dessa importante região, beneficiar-se-á largamente desse momento favorável à economia capixaba. Sua primeira grande obra, a ponte municipal, cuja estrutura metálica foi inteiramente trazida da Alemanha, ficou totalmente custeada pelos próprios usuários que pagaram pedágio pela travessia até 1920.

Já antes dessa data, o fotógrafo e dentista paranaense, Capitão Henrique Deslandes, teve sua atenção despertada para as potencialidades locais. Não titubeou em empreender a navegação a vapor do rio, cuja instalação se deu a 3 de abril de 1876.

Onze anos depois, viria a estrada de ferro, realização do Visconde de Matosinhos, presidente da Companhia de Navegação Espírito Santo e Caravelas, cessionário do capitão Deslandes, a quem coube a iniciativa do empreendimento.

A estação da estrada de ferro de Cachoeiro localizava-se onde encontra-se o Bernardino Monteiro, e o viradouro das locomotivas (inglesas) correspondem ao repuxo da praça Jerônimo Monteiro. Pelo tronco principal de Alegre (Rive) e pelo ramal de Castelo, convergia a riqueza cafeeira para o empório cachoeirense.

A cidade crescia a olhos vistos. Congregava inúmeras casas comerciais de armarinhos, ferragens e compra e venda de café, entre outras, dirigidas geralmente por estrangeiros, que eram atraídos pelas possibilidades do município. Entre esses, destaca-se Samuel Levy, judeu francês que acumulou grande fortuna no comércio de café.

Naquele momento em que o café e as estradas de ferro caminhavam juntas, temos, também, a presença da Leopoldina Railway, no rastro do ouro verde. Nessa época, a 1º de novembro de 1903, Cachoeiro torna-se a primeira cidade espírito-santense servida de iluminação pública elétrica (10ª do País). Ali, também, reuniu-se, em 1888, o primeiro congresso republicano da província do Espírito Santo. Foi ainda em Cachoeiro que o Presidente Jerônimo Monteiro, 1908-1912, implantou o primeiro "Parque Industrial" do Estado. Depois vieram os bondes elétricos, 1925, e uma intensa vida cultural de que se orgulham os nascidos nessa cidade. Essa belle-époque cachoeirense incentivou o cultivo da cidade que criou tradição no homem local, como nos demonstra Rubem Braga, seu cronista maior: "É possível que gente de outras terras ache graça ou exagero no culto que os cachoeirenses temos pela nossa terra. Ela não será melhor que as outras. Não é para ser, nem para fingir que é. Mas nesse carinho egoísta de um homem pela sua cidade cada um de nós sente alguma coisa de superior e de bom."

Foi outro Braga, o Newton, irmão de Rubem, quem criou a Festa do Cachoeirense Ausente, "com o intuito de promover a confraternização entre aqueles que se afastaram do torrão natal à procura de novos horizontes, e os que lá ficaram, ligados por laços familiares ou apegados à terra em que nasceram ou vieram se estabelecer". No entanto, a data escolhida para essa comemoração não foi a da instalação do Município, 25 de março, mas a do padroeiro, São Pedro, 29 de junho, e que há muito o cachoeirense consagra como seu dia mais importante.

É ainda Rubem Braga, "cachoeirense ausente" de 1951, que vê o santo padroeiro como o mais humano dos apóstolos, tanto pelas mil anedotas da porta do Céu como em suas reminiscências, pelas "noites antigas do adro da Igreja do lado norte, depois do fragor de uma inesquecível armação de fogos de artifícios... — uma imagem em óleo gravura em que ele aparecia de chave na mão, glorioso entre o esplendor de luzes mil".

De ano para ano, desde sua oficialização a partir de 1939, o Dia de Cachoeiro de Itapemirim vem tomando grandes proporções, tal o número de visitantes que a cidade recebe de todo o estado e até mesmo de outras regiões. O programa de festividades abrange uma semana, compreendendo exposições, jogos, torneios, bailes populares, manifestações diversas de arte etc., culminando na festa do "Cachoeirense Ausente", no dia 29 de junho de cada ano.

Nada mais justo, portanto, foi a escolha, em 1962 (homenagem póstuma), do poeta Newton Braga para o título de "cachoeirense ausente", quando este já falecido, talvez também de saudades, três anos após sua transferência para o Rio de Janeiro.

Esta festa, que ora se realiza e que, neste ano de 1985, confere seu título máximo a outro conterrâneo ilustre, o jurista João Batista Herkenhoff, está, portanto, intrinsecamente ligada ao autor de Lirismo Perdido, um dos primeiros poetas do Espírito Santo a assinar poemas de feição moderna, segundo Elmo Elton.

Newton Braga nasceu a 11 de agosto de 1911. Filho de Francisco Carvalho Braga e de Rachel Coelho Braga, era casado com a musicista D. Isabel da Rocha Braga, irmã do historiador Levy Rocha. Bacharel em Direito em 1932, em Belo Horizonte, colaborou em revistas e jornais do Rio de Janeiro, Vitória e Cachoeiro de Itapemirim, sendo aí redator do Correio do Sul, fundador e dirigente do jornal A Época e da Revista de Cachoeiro, tendo ainda mantido programa na Rádio Cachoeiro. Foi, também, tabelião do 3º Ofício, cargo que terminou abandonando, por ser avesso à burocracia e imposições formalísticas, quando um novo juiz exigiu-lhe o uso de colarinho e gravata. Deu-se bem melhor no cultivo do jornalismo e da literatura, quer como profissional de imprensa, professor de Português ou literato. Publicou: Lirismo Perdido (1945), História de Cachoeiro (1946), Cidade do Interior (Cadernos de Cultura do MEC) e Poesias e Prosa (Edição póstuma —1963). Faleceu em 1962.

A cidade que se engalana neste dia 29 de junho para mais uma realização de sua oportuna criação, cultua-lhe a memória em herma de bronze, localizada em sua principal praça, como exemplo às novas gerações de cachoeirenses.

A Gazeta — Vitória 29 de junho de 1985

 

Fonte: Notícias do Espírito Santo, Livraria Editora Catedra, Rio de Janeiro - 1989
Autor: Gabriel Bittencourt
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2021

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