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O Dispensário da Prainha

O Dispensário da Prainha

O Dispensário São Judas Tadeu foi fundado em 1940 na Prainha em Vila Velha, ES, quando Vila Velha passava por uma situação difícil, com baixíssima arrecadação municipal, autonomia administrativa recém adquirida em 1934 - e que iria perder novamente no final de 1942, já no ano em que o Brasil declarava guerra ao Eixo.

Na Igreja Católica, vivia-se muito fortemente um modelo de Igreja do Mérito, trazido da Europa pelas ordens religiosas enraizadas principalmente na França, Itália, Bélgica e Holanda e algumas originárias da Alemanha que havia sofrido perseguição religiosa no tempo do Bismark. Dizia que os católicos tinham que praticar muita caridade aqui para merecer depois da morte, o céu.

A paróquia estava diretamente nas mãos da então Diocese do Esp. Santo, como o Convento da Penha onde funcionava o Seminário, após a quase extinção aqui no Brasil da ordem franciscana. O Vigário da imensa Paróquia de Vila Velha era o Padre Raimundo Pereira de Barros.

Haviam muitas irmandades e por alguma divergência de método, já que os vicentinos tinham até uma sede na prainha, poderiam cuidar do que se pensou, mas venceu a proposta de criar-se outro movimento de ajuda aos pobres, usando uma terminologia européia de criar um dispensário, onde haveria dispensação de ajuda aos carentes, sob forma de alimentos, roupas e medicamentos. O impulso inicial era explicitamente voltado para apoiar as mães solteiras, que estavam crescendo em número. Assim fundou-se o Dispensário dos Pobres São Judas Tadeu no salão do célebre hotel de João Nava, logo ali pertinho da Igreja do Rosário. E padroeiro São Judas Tadeu por ser considerado um santo das causas perdidas. Foi um dos poucos advogados que o Vaticano reconheceu como santo.

Dona Maria Valadares era uma das líderes e presidiu o Dispensário por muitos anos. Feita uma arrecadação, compraram um terreno de esquina do próprio João Nava nos moldes do que fizeram antes os vicentinos. E iniciaram a obra da sede. Mais a frente, o Dispensário ficou sob a liderança de Dona Aurora Gomes.

Nesse meio tempo a Diocese conseguiu que os franciscanos, a partir de 1942, voltassem para a Paróquia e para o Convento da Penha. Daí para frente, a Paróquia foi cuidada sucessivamente pelos Freis Pires Martins, Aniceto e Anacleto. O Dispensário foi ficando pronto, com o formato que lembra um teatro elisabetano. A porta principal dava para a rua Coronel Marcarenhas, onde na entrada chegaram a colocar uma pequena placa em 1950 que fora proclamado ano santo. O Dispensário ficou como uma obra social da Igreja, e com o maior salão - que só veio a perder depois quando da construção do Colégio Marista. Ali a Justiça Eleitoral fazia a apuração das eleições de todo o município até a eleição de 1982. Ocorriam reuniões políticas, de conscientização e festinhas das irmandades e em benefício da Igreja.

Começaram a conseguir donativos de parlamentares e com isso promoverem alguns cursos. De corte de costura por exemplo, já com orientação do SENAI e do SENAC.

Outra forte irmandade que iria liderar a Igreja nos anos 50 até os anos 60 foi a Congregação Mariana, que ali passou a ter sede e um serviço de alto-falante, com uma extensão por meio de um fio que levava até outra corneta repetidora na Praça Duque de Caxias, mais precisamente no Edifício Elisa, aquele que subiu, parou e depois teve demolido vários andares após décadas de obra desativada. Esse serviço de alto-falante noticiava falecimentos e fazia divulgação de algum entretenimeto, diariamente de 11 às 13h e à noite de 19 às 21:30h, transmitindo programas da Igreja, músicas religiosas e avisos da Prefeitura. Conseguia alguns anúncios para custear as despesas. Esse serviço de alto-falante de utilidade pública formou diversos locutores, entre os quais Zezinho do Espírito Santo Barcelos.

As moças tinham ali a irmandade das filhas de Maria com reunião aos sábados à tarde, e os marianos aos domingos depois da missa das 7h.

Em meados dos anos 50 chega Frei Firmino que logo inicia, a pedido do Bispo D. José Joaquim Gonçalves, a campanha pela construção do Santuário do Divino Espírito Santo. No Dispensário aconteciam festinhas, bingos, teatros, tudo para arrecadar recurso para a construção do Santuário. Teve até peça encenada por Procópio Ferreira. A peça era "As mãos de Euridice".

Nos primeiros anos da década de 60 por ali havia distribuição de alimentos aos pobres, vindos dos Estados Unidos por meio do programa da Aliança para o progresso. Vinha leite em pó, óleo de soja e triguilho, e mesmo fardos de roupas usadas.

Nos anos 60 chegou a existir um pequeno gabinete dentário e o atendimento, aos sábados à tarde, era feito pelo famoso médico alemão Dr. Estevam Nickman, que na verdade, era húngaro.

Ele não cobrava nada e era trazido lá da Praia do Canto e depois levado de carro. Distribuía muito medicamento de amostra grátis que conseguia. Veio a ser um dos articuladores do futuro Hospital Evangélico.

Em 1970 chega Frei Anselmo Julio Munchem que pediu que os Marianos saíssem dali e que assumissem uma obra social mais perto dos pobres, na Toca, e que outro grupamento religioso que prometia ser mais ágil influísse do Dispensário, que foi o movimento dos cursilhistas. Era liderado pelo Juiz Dr. Jairo de Matos Pereira. Reformaram o estatuto e simplificaram o nome para Dispensário São judas Tadeu, e ficou previsto que sempre o Vigário seria Diretor Espiritual. Os novos dirigentes articularam cursos para cabeleireiras e de manicures, tudo na linha de ensinar o pobre a pescar. Chegaram a alugar um ponto na praça Capitão Otávio Araújo para possibilitar o surgimento de um salão modelo de cabeleireira e manicure.

Eles, com doação de empresários da construção civil, colocaram um telhado sobre a laje de cobertura para impedir infiltrações e o aquecimento escessivo das salas do primeiro andar.

A seguir por muito tempo, ficou dona Maria de Lourdes Sobreira Calou como a Presidenta do Dispensário. Começaram a alugar o salão para recepção de casamentos que foram inúmeros, e as salas de cima foram alugadas para realização de cursos precários de artigo 99 e de preparação de concurso para sargento e suboficiais das forças armadnas.

Em 1981, já tendo como vigário o Frei Lency Frederico Smaniotto, quis esse em decorrência do falecimento de Dona Lourdes, que o Dispensário passasse a ter uma administração jovem com integrantes vindos das comunidades de base do município e objetivando um projeto de conscientização social e não mais assistência, por meio de recursos a serem captados pela organização Mizionecentrale der franciscaner (Missão Central dos Franciscanos) sediada na Alemanha, em Munique. Assim articulou-se a eleição de Madalena de Carvalho Nepomuceno, residente no Ataíde. Chegou a haver ainda em 1981 com aliança da Academia de Letras Humberto de Campos, nas mãos do pré candidato e prefeito Vasco Alves de Oliveira Jr, o estrondoso simpósio de desenvolvimento de Vila velha, algo nunca visto antes.

Nesse ínterim veio ali inclusive o frade alemão que conseguia arrecadar recursos para esse projeto. Mas o mandato acabou e a sucedeu Luciene de Oliviera, mais voltada para a área da cultura, para aguardar a chegada do recurso. Só que em 1983, já com o Frei Osvaldo Lino Luis como Vigário, o mandato foi interrompido por uma série de problemas em memorável assembléia geral e a Diretoria destituída, passando a direção para as mãos de grupo religioso com tendência carismática que vinha querendo hegemonia na influência das práticas religiosas. A comunidade voltou a usar o salão para reuniões de conscientização e de debates dos temas das campanhas da fraternidade, alguns já de cunho ambiental e outros de partidos políticos, e muitas reuniões da própria prefeitura e de sindicatos. A Associação de Moradores de Vila Velha Centro passou a ali fazer suas reuniões semanais. Praticamente tudo sem ser pago alguma taxa. O movimento dos alcoólatras anônimos passou a ter uma sala para seu uso.

A comunidade religiosa da matriz da Prainha voltou a fortalecer-se e interessou-se em administrar o Dispensário e assim foi feito, conseguindo verba da CVRD, reformou o prédio e passou a usar as salas de cima para aulas de catecismo para as crianças.

A partir de 1992 ao sair da governadoria Max de Freitas Mauro, passou a ali fazer reuniões polítcas semanais de análise de conjuntura, e, inclusive em meados do Governo Albuíno, ocorreu memorável convençao do PDT que durou um dia todo dado acirrada luta pelo poder que acontecia.

Essas reuniões deixaram um pouco de serem ali semanais, mas nunca pararam de ocorrer.

A comunidade da Igreja do Rosário tirou o nome Dispensário, divulgando que ali é a sede da comunidade, mas para o povo por muitos anos ainda será conhecido o espaço como o famoso Dispensário.

 

Por: Roberto Abreu - Membro da Casa da Memória de Vila Velha.

Editor Roberto Abreu

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