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O episódio da compra de o Jornal A GAZETA

Carlos Lindenberg

Os comunistas lembram que o respeito era recíproco: Carlos apreciava e admirava muito Aldemar Oliveira Neves, médico sanitarista que trabalhava na Bahia mas sempre vinha ao Espírito Santo tratar da esquistossomose. Mas às vezes a Folha Capixaba cometia excessos através de um jornalista paulista que se chocava porque o Partido mantinha relações de respeito com “o governo burguês”. Eles replicavam que aquele era “o Partido Comunista Capixaba” – mesmo porque todo mundo se conhecia. O jornalista paulista queria ação e dizia “cobras e lagartos” das pessoas. Hermógenes lembra: “Eu perguntava: Você assina? Porque às vezes era mentira, era jogar lama nas vítimas”. Uma vez fizeram uma denúncia contra o Departamento de Saúde. Jayme Santos Neves telefonou e disse: “Olha, a repartição está aqui à disposição, vocês podem vir e verificar tudo.” Descobriram que a denúncia não tinha fundamento: o partido se reuniu, decidiu e se retratou.

O pai de Eurico Rezende havia solicitado aposentadoria e, na época, era preciso prestar contas de todo o período de serviço e “dar quitação até a terceira geração”. Alguém em Colatina avisou aos comunistas que Leôncio Vieira de Rezende fora processado por roubo. Quando o resto do partido percebeu, o jornalista paulista já havia publicado a matéria. Hermógenes foi escolhido para pedir desculpas a Eurico e pensou: “Eurico vai me dar um tiro”. Foi ao escritório do suplente de deputado udenista. Quando o viu, Eurico baixou a cabeça. Hermógenes disse: “A mesma dor que você está sentindo eu também estou sentindo, porque é uma infâmia muito dolorosa. E eu estou aqui. Se quiser me dar um tiro, pode dar. Pode fazer o que você quiser.”

Eurico nada disse, mas os membros do partido ficaram constrangidos porque Leôncio de Rezende era homem digno e, inclusive, ajudava ao jornal. Quando os comunistas iam pedir-lhe dinheiro, o velho dizia: “O que vocês vão fazer com isso? Esse pasquim.” Depois abaixava o tom de voz: “Quanto vocês estão precisando?” Às vezes os comunistas não tinham dinheiro nem para pagar o papel de impressão: geralmente faziam rifa.

Enquanto isso, Carlos era criticado por todos os jornais (como acontecia em todo o país, os jornais pertenciam aos partidos políticos). “Preciso arranjar um jornal, preciso parar de ficar apanhando sem poder responder, assim não está nada bom”, pensava. Convidou alguns amigos do PSD, mas ninguém o apoiou na idéia de comprar um jornal. O proprietário de A Gazeta, coronel Eleosipo Cunha, da UDN, era adversário de Carlos: estava disposto a vender o jornal desde que Carlos não fosse o comprador. Por isso Carlos chamou um amigo em comum, Alfredo Alcure, a palácio:

— Alfredo, você vai me fazer um favor. Você vai comprar A Gazeta para mim.

— Mas Eleosipo vai brigar comigo. O senhor sabe que ele não vai vender, ele já foi muito seu amigo, mas hoje é seu adversário e não vai vender de forma nenhuma.

— Você compra como se fosse para você e quando tiver passado uns dois anos e ele tiver esquecido você passa para o meu nome.

Três dias depois Alcure voltou com a novidade:

— O homem vende para mim por seiscentos contos. Nem toquei no seu nome.

Carlos assinou um cheque e a venda foi realizada. Em novembro de 1949 A Gazeta passou a ser dirigida por José de Mendonça; as ações foram transferidas para o nome de Fernando, irmão de Carlos, e, em seguida, para ele próprio.

Nessa época a Folha Capixaba era composta nas oficinas de A Gaze ta, após a impressão do jornal: os redatores traziam o material num carro para sua redação, revisavam e levavam de volta à oficina de A Gazeta para as correções. O serviço costumava terminar ao amanhecer, para que o jornal circulasse sábado pela manhã, regularmente. Hermógenes às vezes redigia quase tudo: colunas sociais, esportivas, reportagens nos bairros, noticiário político.

Quando a direção de A Gazeta adquiriu uma linotipo nova, Nelson Borelli, que sempre ajudava na composição da Folha Capixaba, tentou consertar o maquinário antigo: sempre poderia ter uma validade. Quando ficou pronta a máquina, não se sabia mais o que fazer com ela. Carlos disse à direção do jornal: “Dá isso aí para o pessoal comunista, coitados, para fazer lá o jornal deles.” Foi difícil o transporte do “monstrengo”, mas Hermógenes – que sabia que nada lhes seria cobrado politicamente – suspirou aliviado: “A gente já pode dormir mais cedo.”

Chegaram a ter duas edições semanais, insistindo nas teclas: “Dutra, governo de traição” e “Lindenberg, reacionário”.

 

Nota do Site 1: Hermógenes Lima Fonseca começou no jornalismo como redator da página Roncar da cuíca, publicada em A Tribuna a partir de janeiro para divulgar o carnaval. Em 1º de maio de 1945 foi convidado a participar da Folha Capixaba, jornal do Partido Comunista que, fundado por Aldemar e Érico Oliveira Neves, pelo deputado João Calazans e pelo bombeiro hidráulico Gaspaziano Meireles (o Parafuso), durou até 30 de março de 1964. Os comunistas sempre se preocupavam com Carlos: “O que esse homem tem?” Chegaram à conclusão de que era um “governador democrático, mas democrático na verdadeira expressão”. A razão principal desse conceito estava no espírito capixaba de Carlos, que procurava prestigiar o elemento de casa e não fazia discriminação política, qualquer que fosse. Mesmo quando o PC se tornou ilegal em janeiro de 1948, “ninguém olhava para essa questão de clandestinidade”. O jornal chamava Carlos de “latifundiário, reacionário e todos os adjetivos da época”, mas ele dizia aos amigos comunistas que “o primeiro jornal a ler no sábado era a Folha Capixaba”. Os comunistas esperavam que ele mandasse empastelar o jornal, processá-los e prendê-los. “No entanto, nunca houve processo contra nós”, diz Hermógenes. 

Nota do Site 2: Em meados de 1988, a família Lindenberg encomendou o trabalho para homenagear seu patriarca quando completasse 90 anos no princípio do ano seguinte. Mas o texto de Amylton de Almeida tomou uma feição e uma dimensão bem maiores do que pretendia a família – um pequeno livro para mostrar o lado humano do homenageado – e com isso os originais permaneceram inéditos por mais de vinte anos.

 

Fonte: Carlos Lindenberg - Um Estadista e Seu Tempo, Vitória, 2010
Autor: Amylton Dias de Almeida -  jornalista, cineasta e escritor
Organização, Apresentação e Notas: Estilaque Ferreira dos Santos e Fernando Antônio de Moraes Achiamé
Pesquisa e Compilação: Walter de Aguiar Filho - (membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de ES [IHGES], Casa da Memória de Vila Velha e Academia de Letras Humberto de Campos), agosto/2011
Foto: Acervo de Tuffy Nader 

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