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O Fim das Caçadas – Por Levy Rocha

Onça Preta - Foto: mantenaonline.com.br

Os caçadores do Espírito Santo não têm motivos de regozijos: antes, havia uma temporada oficial de caça que ia de maio a agosto e agora, parece, a caça ficou definitivamente proibida no Estado.

A medida procura preservar a nossa fauna plumada, cujas espécies vão se extinguindo em rapidez assustadora. Devia ser acompanhada de uma campanha contra o desmatamento desordenado e duma outra, pugnando pelo reflorestamento adequado, das regiões devastadas, bem como pela defesa dos nossos parques de reservas florísticas.

Contam as estatísticas que o Espírito Santo, com menos de quarenta mil quilômetros quadrados, possui flora e fauna mais ricas do que toda uma extensão de trinta e um milhões de quilômetros quadrados da América do Norte.

Se ainda temos nos Parques de Reservas de Proteção à Fauna e à Flora, do Rio Doce, setecentas espécies de aves e cento e cinqüenta espécies de mamíferos, todos sabem, mormente os nossos caçadores, que há muito desapareceram das pequenas matas e capoeirões, as aves de pio, como o macuco, o mutum, o jaó e a capoeira. Das aves ribeirinhas, outrora representadas por lindos guarás, enormes tuiuiús, maguaris e patos selvagens, restaram as raras e assustadas marrequinhas, os jaçanãs, os frangos d’água e os escandalosos quero-queros...

Quase condenados a definitiva extinção, foram-se as araras, os papagaios, os grandes tucanos e até as aves canoras, representadas pelo sabiá e o gaturamo, entregues à sanha devastadora das espingardas de caça.

O clube dos caçadores cachoeirenses, reduzido a simples clube de caçadores de rolinhas e pardais, reúne-se nos bancos da Praça Jerônimo Monteiro, para comentar proezas de outrora, contadas pelos aposentados que sabem ilustrar as narrativas soprando os maravilhosos pios fabricados pela família Maurílio Coelho, na Ilha da Luz. Situação muito parecida com a dos caça-dores de bonés, do famoso livro de Alphonse Daudet: "Tartarin de Tarrascon". Os protagonistas do romancista francês, como já não tinham caças, atiravam nos bonés.

Vale recordar a diferença de sorte dos nossos caçadores de cem anos passados.

Na edição d'O Cachoeirano de 30 de outubro de 1881, leio a notícia de uma caçada que dois fazendeiros do Estado do Rio, em excursão venatória pelo Muqui e Itabapoana, realizaram, com os companheiros divididos em duas turmas. Hospedaram-se na fazenda Santa Teresa do Sumi-douro, propriedade do Tenente-Coronel José Pinheiro de Souza Werneck. Em poucos dias, os grupos de caçadores fizeram 433 vítimas, destacando-se, na relação: 146 macucos mortos e 70 errados ao tiro; 121 capoeiras mortas (todas as que apareceram); 44 jaós mortos e 12 errados; 24 jacutingas mortas e 12 erradas e 17 inhambus mortos.

No mesmo jornal, edição de 17 de abril do ano citado, saiu uma notícia de que "no Guandu, deste município", em dia do mês próximo passado, um homem, Antônio Gomes Ferreira, fora atacado e lutara corajosamente com uma onça preta, saindo vencedor na luta, apesar de ficar com um pé e uma mão muito feridos pelos dentes da fera.

Mudam-se os tempos...

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

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