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O Homem e a Tempestade – Por Mário Gurgel

Mário Gurgel - Foto: Vitor Nogueira

Nada existe no cotejo entre o homem e a natureza, de mais chocante, de mais diverso, que o encontro do ser pensante e dominador com a fúria dos elementos, desencadeados no meio de uma estrada imensa e deserta, entre a montanha e a floresta. O carro corria em velocidade considerável, quando o ribombar dos trovões, o estalejar dos coriscos, a risada do vento lançada pelos ares, traz uma espécie de silêncio e de respeito ao grupo alegre que compõe a caravana que carrega autoridades e técnicos. As faíscas rasgam o céu, dão brilho de incêndio às nuvens inquietas e desorientadas, a floresta verga ao impacto da ventania, a chuva retine no vidro do pára-brisa como pedras de sal, atiradas por mãos misteriosas. O grupo olha a escuridão, os olhos se contraem mais por respeito que por temores, uma mudez de pedra cerra os lábios dos altivos cidadãos, que, ainda há pouco, eram capazes de determinar os pontos exatos de sua competência e os limites irrestritos de sua autoridade.

A notícia do furacão que andou devastando cidades e vilas, quebrando postes e arrancando arbustos, extravasando os leitos dos rios e silenciando telefones e rádios, talvez tenha influído no espírito dos passageiros. A lembrança de casas e homens fulminados pelos raios, árvores fendidas, matas incendiadas, marca no olhar e na face dos espectadores uma sensação de que a simples corrida do automóvel costuma atrair a atenção das faíscas sem destino. Os cigarros se apagam, as respirações estão suspensas; uma espécie de torpor domina o interior do carro em que se comprimem os viajantes extenuados.

O motorista, homem experimentado e prudente, conhecedor das estradas abertas, palmilhador de perigos, namorado eterno dos acidentes, está observando a fita de asfalto que se abre à sua frente, segurando o volante com as mãos crispadas e firmes como se desejasse dominar o temporal alucinado que desaba sobre as cabeças indefesas dos seus acompanhantes. Nos trechos da estrada ainda não pavimentados, o carro deslisa e derrapa como se estivesse correndo sobre um espelho. O ônibus da ltapemirim, cheio de mulheres e crianças assustadas, está pendido sobre a boca de um valão fechando o caminho para os outros veículos, dilatando o prazo das chegadas, desmarcando os encontros, esfacelando, às vezes, amores impacientes e prorrogando os últimos contactos dos que corriam à beira dos leitos de agonia.

A imprevisão dos serviços públicos, a falta de responsabilidade e de atenção com os compromissos feitos em favor dos que necessitam dessas vias, fazem com que o empreiteiro no Rio ou na Europa esteja apenas preocupado com as medições e com os cheques de pagamento, esquecidos e omissos aos transtornos previsíveis que acarretam com as suas improvisações e imprevidências. As repartições públicas, cheias de senso prático e respeitando as amizades que ligam o empreiteiro aos donos do poder, tendo a discrição de não aborrecer os que facilitam, os que encaminham, os que despacham, fingem ignorar, na sua acomodação e na sua indiferença, os prejuízos incalculáveis que são causados dia e noite, em todas as estradas que se constroem neste País, a pessoas e entidades que contribuem para terem estradas firmes e acabam, às vezes, na falência, pela falta delas.

Apenas a tempestade não respeita ninguém. Não tem protegidos, não aceita cartões nem pedidos, não estabelece critérios de tratamento de acordo com a posição social de cada homem. De acordo com a classificação que qualquer um tenha na escala dos animais ou dos seres vivos e atuantes. A sua fúria é legítima e indomável, feroz e ameaçadora, lavando a face ressecada da terra onde a trilha das enxadas e dos arados espera, há muitos meses a chuva benfazeja, na promessa feliz das colheitas que virão. O vento gargalha e canta no meio da noite, zombando dos homens, que, exaltados, controlam o destino dos seus irmãos, subjugando-os pela maldade e pela ambição e, ficam depois, trêmulos de espanto e de medo, porque a marca do raio não respeita os seus títulos, nem atende à marca dos seus brasões...

(O Diário de 05/06/64)

 

Fonte: Crônicas de Vitória, 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2017

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