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O incêndio no Mercado da Vila Rubim

Iemanjá e o incêndio da Vila Rubim. Foto de: Gildo Loyola

"Vinte toneladas de fogos de artifício e barris de pólvora que estavam estocados em três andares da Casa Sempre Rica explodiram, às 11h45m de ontem, provocando um incêndio que durou 3h30m e destruiu 110 boxes do mercado da Vila Rubim, 30 lojas e sete veículos estacionados no local ou que passavam na avenida Duarte Lemos. Dezenas de pessoas sofreram queimaduras e outros ferimentos..."

(A Gazeta, 02/07/1994).

Meu pai - um carioca amante do cinema, da música, das mulheres e das danças de salão - me apresentou, em Vitória, aos cinemas, feiras, à leitura diária dos jornais, à fotografia e além do Parque Moscoso, do Cine Teatro Carlos Gomes e da Sorveteria Pinguim, ao mercado da Vila Rubim.

Ali comprávamos legumes, frutas, garoupas, espadas, sardinhas, siris, caranguejos e sururu; bacalhau, carne seca, carnes de porco e boi, velas, fitas, fumo de rolo, plantas ornamentais, ervas e animais de estimação, cigarros de marcas que já não existem, temperos, ferramentas, panelas e panos, agulhas, dedais e linhas de várias cores, tamancos, sapatos e sandálias; anzóis, puçás e varas de pescar...

Sobretudo, ali conversávamos com muita gente: com as pessoas que vendiam, com as que compravam, com os conhecidos que encontrávamos sempre aos sábados. Dali saíam todos para os pontos de ônibus, com as compras nas bolsas de lona, coloridas, ainda longe que estávamos do Mundo dos Plásticos.

Nos mercados e feiras tudo e todos se misturam. Todas as cores, idades, cheiros, crenças e crendices; humores, contas, fantasias, miçangas, dívidas, flores, grãos, costumes, manias.

Gente de caráter e religiões diferentes exercitam, no mercado e na feira, por longas manhãs e tardes, uma cumplicidade cheia de manhas e estórias, muitas ainda por contar.

Gente que, nos dias de hoje, começa a reconhecer a importância de sua história pública e particular; a reclamar direitos, respeito, espaço, ouvidos e olhos de ver: cidadãos infantes que buscam um porto seguro, numa ilha que faz 444 anos, e têm muito a aprender.

E há, também, gente que começa a olhar e ver. Gente que começa a prestar atenção à vida corrente em bairros como a Vila Rubim, Santo Antônio, Jucutuquara, Maruípe, Ilha das Flores, Forte São João...

Claro que, nostalgia à parte, sobrevivem a Fotografia, o fascínio e o mistério.

E os fotógrafos que amam a cidade com seus mercados, feiras, pontes, portos, morros, ladeiras, igrejas, casarios, Penedo, baía, escadarias e praias.

Dentre eles, Gildo Loyola que, para A Gazeta, fez a foto durante o incêndio da Vila Rubim: a loja em chamas, com a imagem até hoje intacta de Iemanjá, um orixá das águas!

Autor: Jairo de Britto - Jornalista, editor, poeta e cronista.
Fonte: Escritos de Vitória - Mercados e Feiras, ano 1995

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