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O Judeu Pescador ou Lenda de Brás Gomes - Por Maria Stella de Novaes

Capela de Santa Luzia - Foto: Antonio Carlos Mosquito

Existia na igreja da Venerável Ordem Terceira da Penitência, na Cidade da Vitória, uma antiga imagem de Jesus Crucificado. Saía, em Procissão, quando o povo percorria os Passos, dispostos nas ruas, para a Via Sacra.

Tratava-se de uma relíquia lendária, muito venerada. E, segundo a voz corrente, pertencera a Brás Gomes, um pescador, que viera de Portugal, com duas irmãs. Inteligente e ativo, conhecia os melhores pontos de pesca, na Costa do Espírito Santo, e o melhor tempo de redar, o que lhe facultava ótimo resultado, no seu trabalho. Sua banca era suficiente, para o abastecimento da Vila.

Assim, laborioso e honesto, reuniu economias; edificou duas casas de pedra e cal, cobertas de telhas, na Rua da Praia. Representavam exceção, entre as cobertas de palha dos seus companheiros, que, invejosos do seu progresso, o denunciaram às autoridades, como herege.

Por quê?

Brás Gomes, o pescador, mandara buscar um grande Crucifixo, da Bahia, mas, desejoso de preparar-lhe um oratório, ou lugar adequado, conservava-o numa caixa de madeira, que lhe servia de banco, em sua casa. Foi o pretexto, para a denúncia: — Sentava-se numa caixa onde estava guardada a imagem de Cristo! Tinha pacto com o demônio! ... (Por isso era feliz, na pescaria...)

O pescador, entretanto, era religioso. Aos sábados, freqüentava a Ladainha, rezada no oratório de suas irmãs, que residiam, numa casa modesta, na Cidade Alta, junto à matriz.

Recebeu ordem de seguir para a Europa, com dois filhos — José e Cecília, enquanto duas outras filhas, levadas para a Pedra d'Água, no Continente, foram, dali, para Campos, sofrendo privações e provações, porque todos temiam socorrê-las e abrigá-las. Eram excomungadas!...

Ao aproximar-se da Espanha o veleiro, em que os três viajavam, sofreu as conseqüências de um tufão que o atirou a Gibraltar, onde um barco mourisco o aprisionou, e rebocou a Marrocos.

Cecília foi, então, vendida a uns eunucos e conduzida ao harém do Sultão, ao passo que Brás e José, não encontrando senhor, foram para a feira.

Logo, a beleza da jovem capixaba impressionou o Soberano que empregou todos os recursos, para conquistar-lhe a afeição. Mas, a virtude prevaleceu ao poder e Cecília, desse modo, conquistou a simpatia da Sultana, cujo intermédio lhe alcançou a colocação de Brás Gomes, como jardineiro do Palácio, e a promessa de um bom lugar, para José.

Desiludido, em suas tentativas de contá-la entre as suas odaliscas, o Sultão determinou que a vendessem. Passou, assim, Cecília para o cativeiro de Majedib, — o Estribeiro-Mor do Palácio.

Nova paixão sua virtude e sua beleza despertaram e Majedib tudo envidou para desposá-la, contanto que Cecília abjurasse ao Cristianismo. Assim, viu-se a jovem cristã, em nova luta, agravada, agora, com o amor que já devotava ao Estribeiro-Mor, moço e belo. Mas, nessa dolorosa circunstância, um fato sucedeu, para amenizar o transe. Majedib adoece gravemente. Seus médicos, desiludidos, o abandonam. A escrava, porém, sabendo-o perdido, já desfalecido, deita-lhe água fria no rosto, enquanto reza fervorosamente.

Reanima-se o doente, aos cuidados de Cecília e concorda em instruir-se na sua religião.

Chamado ao Palácio, José passou a ocupar o cargo de jardineiro, porque Brás Gomes havia falecido.

Aconteceu, porém, que, uma tarde, quando, ao som da guitarra, Majedib recitava seus versos, na alameda sombria do parque, divisou Cecília e José, em afetuoso colóquio. Presa de ciúmes e, ignorando que fossem irmãos, recrimina-a rigorosamente, embora diante das devidas explicações. E ordena a José que, sob pena de morte, obrigasse a irmã a abraçar as leis do Alcorão.

Outra surpresa, entretanto, acontece, para resolver a nova situação, dolorosa, porque a Espanha ameaça apoderar-se de Tanger e o Sultão manda Majedib ao Egito, a fim de fazer provisões de tropas e cavalos.

Cecília vai, separada do irmão. Julga, assim, o escudeiro vencer-lhe a resistência, durante a viagem e, em caso contrário, vendê-la, no Cairo. Mas, a Providência Divina, outra vez, dispõe os acontecimentos, para o triunfo da jovem cristã. — Na viagem, uma tempestade arroja o navio mourisco ao sul da França. Daí, à mercê dos ventos, vai o barco encalhar perto de uma ilha italiana. Cecília salva-se, a nado, e nadando sempre, salva igualmente, o jovem e belo Escudeiro que se debatia, quase afogado. Entrega-se às autoridades como refém, até que, de Marrocos, cheguem dinheiro e escravos cristãos, para o resgate do árabe.

Vencido, pela dedicação, virtude e prova de amor de Cecília, Majedib converte-se ao Cristianismo. Casa-se, em Sassari, com a bênção do Arcebispo.

José regressou para a companhia do casal. E o Crucifixo, em Vitória, conservou-se como relíquia histórica e lendária. Atualmente, encontra-se no Museu de Arte Religiosa, no antigo templo de Santa Luzia.

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2016

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