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O Lobisomem - Por Adelpho Monjardim

Lobisomem

Não ria, doutor! O lobisomem existe!

— Ora, Major, logo a mim quer impingir essa história?

— História, dizem os senhores da cidade, que não sabem o que é o ermo às desoras.

— Contudo não acredito no lobisomem, fantasias dessa gente ignorante.

O fato que relatamos passou-se durante a Questão de Limites Espírito Santo e Minas Gerais. Dialogavam o Dr. Carlos, médico da Comissão Mineira e o Major Simplício, abastado fazendeiro na Serra do Sousa. Caso singular, o fazendeiro falava em causa própria, convicto de ter sido vítima de um lobisomem. Temia tornar-se um licantropo, receio que o obsedava quase à loucura.

De boa-fé contestava-o o Dr. Carlos, desconhecendo as causas e surpreso por considerar o Major homem de certa instrução. Como discutissem a ponto do Major exaltar-se, D. Ritinha, numa oportunidade em que se encontraram a sós, revelou ao médico o que se passava com o marido. Certa noite, em lugar mal afamado da fazenda, fora ele atacado por um animal estranho, espécie de cão, enorme e feroz, que o deixou gravemente ferido. Desde então, agitado e nervoso, deixou de ser o mesmo homem.

O Dr. Carlos começou a interessar-se pelo caso. Não mais contestava o Major. Com muito tato procurou penetrar na sua intimidade e descobrir as causas do seu temor. Logo tudo se esclareceu. Supersticioso, o Major não mantinha boas relações com o Coronel Pitombo, fazendeiro vizinho, cujo filho diziam ser lobisomem. Nessa altura o Dr. Carlos já se havia enfronhado na lenda e sabia como se processava a metamorfose do homem em lobo.

Ao ser atacado o Major ferira o lobisomem a pontaços de faca. Coincidentemente o filho do Coronel caíra de cama, ferido por um golpe que recebera no peito. Chegando o fato ao conhecimento do Major, este acreditou, piamente, ser ele o, lobisomem da Porteira das Almas.

Ciente de que o Major não entendia o francês, o doutor aproveitou a oportunidade em que ele se encontrava na varanda, a contemplar as cumeadas da serra, que azulavam distantes, para mostrar-lhe, com calculada simplicidade, um livro, um tratado de medicina. Relanceando os olhos pelo título o Major o devolveu, dizendo: — Doutor, mal leio o português. Não entendo o que está aí.

O doutor riu e o Major fez coro. — Pois aqui está o remédio para o seu caso, disse o doutor. E leu um trecho que nada tinha a ver com o caso. Inventou misterioso filtro que seria obtido com misteriosa planta que apenas podia ser colhida em noites de plenilúnio e à meia-noite. Tudo muito fantástico, como apreciam as almas simples e supersticiosas, que para as coisas mais simples buscam soluções extraterrenas. Nativa dos pântanos a extraordinária planta seria colhida na Porteira das Almas, onde o Major sofrera o ataque da fera. Valia-se o médico do «similia similibus curantur». Curar a superstição com a própria superstição.

Para engrolar o Major, preparara-se o Dr. Carlos com água destilada e uma seringa hipodérmica. Não contava, porém, com a disposição do paciente de acompanhá-lo. Para maior embaraço o capataz da fazenda, caboclo destemido, por insinuação de D. Ritinha, quis também tomar parte na expedição noturna. Embair o Major não seria fácil e então como escapar à vigilância de dois?

Daí a três dias a lua seria cheia. Felizmente conseguira descartar-se do capataz. Na noite aprazada, selados os cavalos rumaram para o brejal onde seria colhido o filtro mágico. Lá chegados, à hora misteriosa da meia-noite, pôde o doutor contemplar, em toda a sua fereza, o lúgubre cenário. Ao sinistro o luar acrescentava a fantasmagoria das cores. Envolvia-o a neblina como funesto sudário. Os delgados troncos das tagibubuias, surgindo aqui e acolá, por entre os rasgões do nevoeiro, semelhavam almas em penitência. Inquieto, nervoso, o Major se vigiava, temendo o lobisomem a cada instante.

Saltando por sobre as esverdinhadas poças d'água que salpicavam a planície, junto a um maciço de árvores o doutor pediu ao Major que o esperasse ali enquanto procurava o cogumelo negro, que raros podiam ser inadvertidamente pisados. Embrenhando-se pela mata, fugindo às vistas do Major, preparou-se para manipular o precioso filtro. No justo momento, aflitivo, agônico e horripilante uivo sacudiu o silêncio do ermo. Um calafrio de medo percorreu o corpo do médico, que num impulso impensado arremessou para longe os objetos que manipulava. Mais perto, mais forte, mais terrível, repetiu-se o uivo, como se fora coisa sobrenatural. Aflito, arrependido da sua imprudência, correu para junto do Major, que então se abalara pela planície perseguido por um negro e fantástico animal. Nas asas do desespero lançou-se em perseguição do estranho ser, alcançando-o quando se lançava sobre o apavorado Major. Rolaram ambos pelo solo resvaladiço, mas antes que a fera se refizesse e voltasse ao ataque, o doutor descarregou-lhe a carga do revólver. Dando um salto mortal a fera rolou pelo chão até aquietar-se na imobilidade da morte.

Semimorto de pavor, olhos desmesuradamente abertos, nervos tensos, o Major Simplício agarrou-se ao doutor. Semi-inconsciente contemplava o negro corpanzil à luz intensa da lua cheia. A custo, relutante, ajudou ao Dr. Carlos a colocar o bichão na garupa do assustado cavalo. Logo abandonaram o pântano.

No pátio da fazenda arriaram o bicho. D. Ritinha, as filhas e o pessoal da fazenda acorreram para ver o lobisomem que a todos assombrara. Era um enorme cão, negro como a noite. O pelo sedoso brilhava ao luar. Não obstante o aspecto feroz, que a morte não abrandara, era belíssimo espécime. Temeroso o Major não lhe tirava os olhos de cima, esperando a todo instante operar-se a metamorfose que o obcecava. Compreendendo o doutor o que se passava, falou-lhe: — Não mais necessitamos de subterfúgios e nem de drogas maravilhosas.

Aí está o seu lobisomem — um cão como outro qualquer. Como o Major relutasse, acrescentou: — O lobisomem é tão real quanto o cogumelo negro. -- E não existe? Perguntou surpreso, o Major. — Não, uma superstição para combater a superstição. Não me leve a mal se o enganei. Valeu a intenção. Examine o bicho e veja se ele tem ou não os golpes da sua faca. O capataz encarregou-se do exame. Além dos tiros lá estavam dois pontaços de faca. Um deles se transformara em horrenda e fétida bicheira. Todavia a dúvida pairava no espírito do Major. Para D. Ritinha tudo estava esclarecido. — Então, Major, ainda duvida? Voltou à carga o doutor. Meneando a cabeça o Major ia responder quando o doutor se lhe antecipou: — Segundo a lenda só o sétimo filho homem, de um casal, vira lobisomem. Não é assim? O Major confirmou com um aceno de cabeça. — Então como pode ser lobisomem o filho do Coronel Pitombo? Não é filho único? A fisionomia do Major iluminou-se num largo sorriso. Como não lhe ocorrera a lembrança? Abraçando o doutor, apertou-o calorosamente contra o peito. D. Ritinha chorava de felicidade.

A coincidência engendra enredos e cria suspeitas que acabam adquirindo foros de verdade, como no caso da Porteira das Almas. Vítima da maledicência, por capricho da sorte, no mesmo dia que o Major sofrera o acidente o filho do Coronel Pitombo fora ferido pelo chifre de um touro, o que levou o Major a suspeitá-lo ferido pela sua faca.

Para feliz remate da história o filho do Coronel Pitombo foi à fazenda do Major Simplício conhecer aquele que por tanto tempo lhe emprestara a pele.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2015

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